Este é um espaço público, onde serão publicadas reflexões minhas sobre os mais variados temas que incluem política, a sociedade, literatura ou música. Eu sou um jovem, que tem como primeira paixão intelectual a História, e que será sempre portalegrense. Gosto de risos e saídas à noite, mas também gosto de momentos sérios de reflexão e debate. Este blog quer também promover o debate livre, não promovendo, contudo, o insulto gratuito ou desmedido. Boa viagem neste pensatório.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
domingo, 8 de novembro de 2020
O Mundo Petrificou-se
Venho até aos meus leitores sem filtros. Não os quero. Não os suporto nos tempos que corremos. Talvez até a boa educação seja menos do que aquilo que é necessário, embora eu a tente conservar na retórica do texto que segue.
O mundo, e a nossa sociedade portuguesa, em particular, petrificou-se perante uma multitude de fenómenos, e poucos são os dedos que o Ser Humano tem ao seu dispor para os contar manualmente. É o Covid que é a maior ameaça ao mundo conhecido desde que Genghis Khan invadiu o Leste. É o Biden que veio ressuscitar a Democracia. É o Marcelo que está a um decreto de distância de ser coroado Rei de Portugal. É a União Nacional o único caminho possível para nos safar deste pandemónio. É o terrorismo religioso no coração da Europa que passou a ser um assunto terciário, atrás do Football e do Covid (claro). E quando o céu cair verdadeiramente em cima das nossas cabeças, haverá mamíferos muito sábios que perguntarão como chegámos a este ponto, sem se terem apercebido - ou talvez, mais provável, se façam de desentendidos - do caminho trilhado até esta encruzilhada... Pois bem, quiseram depositar no Governo, no Presidente da República e em instâncias estrangeiras, que nos são absolutamente estranhas, as chaves para resolver todos os problemas com os quais nos debatemos? Aí têm o resultado... ainda que ele não seja, por enquanto, evidente. Um qualquer leitor estreante deste blog poderá considerar que quem isto escreve é um nacionalista ferrenho. Pena que tal dedução esteja longe da verdade. Quem isto escreve é um europeu preocupado com a sua civilização e com o Progresso Histórico que já sabemos não ser imparável, infelizmente.
O mundo rejubila por um iletrado senil ser eleito Comandante das mais poderosas Forças Armadas que o mundo já conheceu, apenas por um outro doido ter sido corrido desse mesmo lugar... Que pensais? Que os EUA passarão a respeitar os assuntos internos dos Estados livres deste mundo? Que os EUA deixarão de sugar a Europa com mundos e fundos militares que não têm razão de ser? Que um Serviço Nacional de Saúde será erguido nessa nação? Que a laicidade daquela Constituição será, finalmente, respeitada? Que a palavra "Diplomacia" ganhará um renascido significado? Que a Casa Branca foi retirada aos maus e restituída aos bons? Se tudo isto for verdade, então talvez, ainda hoje, por volta das cinco da tarde, Jesus Cristo descerá à Terra para nos relatar que notícias chegam do Reino dos Céus.
Mudou o estilo. Mudou a retórica. Mudou a postura. Talvez até tenham mudado políticas ambientais aqui e políticas sociais acolá - e não julguem que será algo substancial - mas aquilo que é um dos problemas maiores dos EUA, e que afligem o resto do mundo por contágio, não será resolvido por esta Administração: falo de política económica e financeira que, penosamente, nos dias que correm, tem sido posta de lado nas discussões por muita gente esclarecida, inclusive pelo meu quadrante político.
Quanto ao Covid, aqui pela nossa República, ele tem sido pretexto para justificar as mais arbitrárias decisões a que temos assistido nos últimos anos. O Estado de Direito está a morrer. A Constituição já não serve para guiar a governação. Antes preferem estados de emergência que tornem possíveis medidas dantescas que, caso contrário, nunca poderiam impor num cenário constitucional... e entretanto, desde o início deste circo, mais de 90% das pessoas que morreram nesta Nação não tinham se quer coronavírus no seu organismo, embora, em honra do velho estilo demagógico, tenham decidido montar um especial Dia de Luto Nacional para essa minoria que padeceu de Covid (ou apenas com o vírus, pois não conhecemos, de facto, a distinção entre aqueles que falecem do vírus e aqueles que falecem com o vírus mas devido a circunstâncias que nada lhe dizem respeito) menorizando todas as outras mortes. Como será possível que os olhos da opinião pública se tenham fechado a esta realidade? Porque as pessoas, há vários meses, estão paralisadas pelo medo de morrer. A televisão não pára de jurar, a pés juntos, que esta é a mais grave pandemia desde a Gripe Pneumónica de há 100 anos, ignorando as inúmeras pandemias que, ao longo de décadas, têm inundado África, e ignorando o HIV que, até hoje, já provocou 30 vezes mais mortes que o coronavírus, muitas das quais, por acaso, foram em África. Sabe o leitor o que muitos dirão deste discurso (se é que o próprio leitor não tenha já essa cassete entranhada no sistema)? Uma retórica negacionista e perigosa, quase comparável ao mais vulgar racismo. Eu não estou minimamente preocupado com isso. Se me quiserem colar ao Bolsonaro e ao Trump, façam-no à vontade, pois tal só demonstrará a desgraça do vosso juízo. Aliás, até está na moda a Horseshoe Theory! "Os extremos tocam-se". A minha consciência permanece tranquila.
Entretanto, o nosso Chefe de Estado confunde-se com o Rei João V. Viu o leitor a entrevista do Presidente, na RTP, ao jornalista António José Teixeira? Pois, nem eu. Aquilo não foi uma entrevista. Na prática foi um monólogo e nenhum órgão de comunicação social se ergueu, em peso, perante aquela afronta. Mas ele lá segue todo sorrisos. No final de contas, ele sabe muito bem que nada lhe poderá tirar o segundo mandato, ainda que ele afirme que ainda não se decidiu quanto à candidatura para segundo mandato. Todos sabemos que a rotatividade do Presidente Marcelo vale para toda a gente excepto para ele, e quem não perceber esta referência, por favor, volte atrás no filme. E já que o Presidente da República está tão decidido em manter a unidade e a estabilidade - da mesma forma que ele afirmou que seria irresponsável chumbar o Orçamento de Estado (de forma subliminar, claro) passando por cima de toda e qualquer lógica da existência de um Parlamento - porque não suspender também as Eleições Presidenciais? Quanto a mim (ainda que isso não vá acontecer, espero) já estivemos mais longe desse cenário.
E afinal que é essa lenga-lenga da União Nacional ser o único caminho para resolver problemas nacionais? Estarão a afeiçoar-se aos princípios do Ventura? Terão esquecido que a Democracia também serve para criar sínteses a partir de pontos de vista muito diferentes e que a divisão de ideias também cria o Progresso? Ou a Democracia não se aplica a tempos de alegado aperto?
Quem isto escreve está farto das incongruências, omissões e contraditoriedades de muitos meses, e teme por esta República e por toda a Europa, que entretanto volta a ser atacada pelo fundamentalismo religioso do Islão. Cidadãos decapitados na via pública por motivo nenhum para além da barbaridade mais explícita. "Temos que ter atenção aos vários séculos de violência da Europa Cristã ante os países muçulmanos", afirmaram alguns. Claro que essas violências sucederam - e sucederam mutuamente -, todavia, tal não é justificação nem explicação para a violência a que temos assistido em França ou outras bem piores noutras partes do Mundo. A História não é um escudo de batalha que torne legítima a barbaridade. Todavia, apesar da barbaridade, este é agora um assunto menor comparado ao outro de gigante importância... o coronavírus, claro!
Até à vinda da vacina - e saber se a obrigam aos cidadãos ou não, e a que preço - vamos permanecer nesta encruzilhada infernal.
Quanto a mim, estou bem de saúde, obrigado, e não será, com certeza, graças a deus. Talvez um pouco mais cínico, mas, por vezes, os tempos fazem de um idealista um indivíduo desiludido, e por consequência um cínico, e também reconheço, contra mim próprio, que tal não é uma qualidade. Mas é aquilo que temos quando todas as hipóteses ao Hedonismo nos são compulsivamente barradas.
A quem leu isto do início ao fim peço desculpa pelo tom, mas quando aquilo que não tem sentido é apresentado como a mais fundamental razão, entendo que não deve haver fronteiras para a sua mais aguda crítica.
domingo, 26 de julho de 2020
Como o Polvo Magenta e Laranja cercou o hemiciclo: Um Caso de Bloco Central
sexta-feira, 26 de junho de 2020
Estátuas
Devo, como é habitual, pedir perdão pelo longo texto, mas a minha impressão foi que a ideia, apesar de tudo, era discutir sobre estátuas, das quais tanto gosto. Fico contente que tenham aparecido alguns historiadores na colunas do jornais, como o Professor Pedro Cardim ou a Professora Ângela Barreto Xavier, comentando, num plano mais historiográfico, o fenómeno do abate de selectas estátuas, mas fico triste, logo a seguir, devido ao conteúdo da maioria dos textos que foram escritos por esses historiadores. Sinto que se canalizou demasiada atenção para a estátua de António Vieira - que, já sabemos, merece o nosso respeito por ter, na época, um pensamento um pouco avançado e sobretudo por ser um autor imortal das letras portuguesas - e muito pouca para um outro fenómeno que merecia reflexão por parte daqueles que sabem o significado da palavra historiografia: que tipo enfermo e patológico de nostalgia faz com que ainda se honrem e ergam estátuas em memória de gente que tantas feridos abriu nos dois últimos séculos? É que, caso ainda não tenham reparado, há gente, com outro life background, que ao ver Leopold II, Jefferson Davis, Stalin ou Hitler celebrados, em praça pública, em pedra no topo dum pedestal, é ver a mesma coisa!
Ainda, face aos meus argumentos, há quem possa responder, indagando-me se isso também dá legitimidade a que se atire com estátuas de Luís XIV, de Júlio César ou de Alexandre Magno, para o desterro mais longínquo, por terem sido, segundo as nossas lentes da sociedade contemporânea, aquilo que hoje classificaríamos como imperialistas. Bem, todos sabemos que, isso sim, seria julgar a História. (E ficaria muito ofendido, obviamente, se atirassem com César ou Alexandre para um desterro!)
Comecei por escrever que uma estátua é, fundamentalmente, uma estátua, mas, se a estátua for sortuda, uma estátua torna-se sempre mais que uma estátua, quer seja por bons motivos, como a indelével beleza de David, ou por maus motivos, como a estátua de Jefferson Davis que, volvidos mais de 150 anos sobre a Guerra Civil, ainda tem um vergonhoso destaque de honra no Capitólio de Washington D.C... e, convivendo com tal facto, ainda houve gente que ficou admirada por um pedaço de pedra ter sido atirado a um rio.
segunda-feira, 8 de junho de 2020
Blackout
É certo que o racismo assume muitas formas. Ele existe entre negros, ele existe entre e contra a cultura hindu, ele existe contra asiáticos e entre asiáticos, ele existe contra ciganos, ele existe contra judeus, ele existe contra árabes e entre os próprios, ele existe contra latino-americanos e entre eles e, inclusive, ele existe entre europeus e (que ninguém se deixe equivocar) contra europeus. Sim, a eurofobia também é uma realidade, e eu não fecho os olhos a nenhuma forma de racismo. Mas de entre todas as caras que o racismo pode assumir - e não mencionei a maior parte, evidentemente - nenhuma tem sido tão endémica e sistemática como o racismo praticado contra o ser humano de pele negra. Não há como negá-lo. Começou algures numa qualquer época virtualmente ilocalizável da História (talvez durante as épocas pré-expansionistas da Europa onde o racismo seria praticado por sociedades muçulmanas contra sociedades e tribos africanas.) Depois tornou-se mainstream com o mercado internacional esclavagista na época da Expansão Marítima Europeia. Nos séculos XIX e XX ganhou uma dimensão ideológica, pseudo-científica e filosófica, passando a compor o cânone daquilo que seriam pensamentos fascistizantes, e por fim chegou aos nossos dias. Luther King já marchou sobre Washington, e de Selma a Montgomery. Rosa Parks já se opôs à Segregação Legal do Alabama. O Apartheid já foi derrubado e Mandela já foi Presidente. Gandhi já liderou a libertação da Índia. Malcolm X, assim como Gandhi e Dr. King, já foram assassinados. Por sua vez, os impérios coloniais da Europa já foram destroçados (ainda que subsista um outro tipo de Imperialismo). Jesse Owens já ganhou as quatro medalhas de ouro olímpicas na Alemanha Nazi. Morgan Freeman já é uma lenda em Hollywood. Louis Armstrong, Robert Johnson, Aretha Franklin e Whitney Houston já deixaram para a posteridade os seus legados na arte musical. Inclusive, Jimi Hendrix já foi consagrado um génio da música universal. Até Barack Obama já foi eleito Presidente dos EUA. Mas de alguma forma a psicose mantém-se como um cancro incurável. É tão difícil de compreender a Humanidade. Eu, francamente, não a compreendo... mas não é uma incompreensão que faça perder a esperança, por enquanto. Em Minneapolis eles não cruzaram os braços.
O clamor colectivo e tonitruante contra o racismo e a brutalidade policial - no triste caso de Floyd estamos a falar de ambas as coisas - não pode emergir só quando algo grave acontece nos EUA ou quando é trazido até nós um caso mediático. Esse clamor tem de ser constante e ininterrupto. Noam Chomsky escreveu o seguinte no seu ensaio What You Can Do: "If you go to one demonstration and then go home, that's something, but the people in power can live with that. What they can't live with is sustained pressure that keeps building, organisations that keep doing things, people that keep learning lessons from the last time and doing it better the next time." É disto que eu estou a falar. Não podemos alinhar em movimentos de insurgência como se adere a uma moda. Essa não é uma boa praxis. É preciso que a participação seja constante e informada. É necessário que a preocupação seja constante e vigilante. Quanto maior for o conhecimento de quem se insurge mais munições existem para serem disparadas contra a parede de ódio e intolerância (e peço desculpa pela linguagem bélica, mas ela é meramente figurativa). Quanto à retórica, há um aspecto que é crucial ser observado: quem se manifesta não pode partir do princípio de que quem não se manifesta é um racista. Não podemos partir do princípio que ao virar de qualquer esquina há-de surgir um racista, ou assumir que todos os polícias nos EUA ou em Portugal são pessoas odiosas e racistas. Entrar por estas linhas de raciocínio é entrar por um caminho maniqueísta, injusto, ingrato e contra-produtivo.
Em todo caso, apesar das precauções retóricas e práticas que devem ser observadas por quem vigorosamente se insurge, indigna ou manifesta contra a brutalidade policial que constatámos, julgo importante clarificar que, no problema que enfrentamos, o seu aspecto mais crucial é a compreensão da natureza do racismo e como erradicá-lo. Ele erradica-se através da promoção de uma equidade económica, através da total promoção de, e igual acesso à, instrução escolar para todas as crianças e jovens, através da promoção de valores cívicos e da premente relevância da Declaração Universal dos Direitos Humanos em todas as escolas, e erradica-se, também, através de uma meditação individual e profunda sobre algumas das nossas concepções estereotipadas que eventualmente tenhamos. Mas ele nunca se poderá erradicar por decreto. A linguagem que usamos para nos referirmos a pessoas de uma certa etnia diz também muito, nem que seja só a um nível subliminar ou subconsciente, daquilo que são as percepções que temos de quem é diferente de nós a nível étnico. O mesmo serve para a linguagem segregadora que é usada para descrever a homossexualidade, ou serve para a presumida heteronormatividade que foi legada às sociedades contemporâneas pelo pensamento das três religiões abraâmicas... mas, apesar de relacionado a muitos níveis, isso é outro assunto na longa História da Discriminação.
Se o leitor deste texto estiver suficientemente familiarizado com o meu pensamento político, saberá que - para além de eu considerar que em lugar nenhum do mundo foi atingida uma democracia pura, e que só uma mão cheia de nações é que está lá (mais ou menos) perto - eu considero os EUA um estado autoritário e anti-democrático. O problema não é da Constituição Americana (que tem o defeito de ser pequena e quiçá abstracta). O problema é da natureza autoritária e nacionalista que assolou os EUA, especialmente a partir da Guerra Fria. A paranóia da ameaça esquerdista impeliu os EUA a criar mecanismos de repressão, como é exemplo o FBI - uma obra de Edgar Hoover - e de total vigilância estatal dos seus cidadãos, como é bom exemplo a NSA, e a forjar de raiz guerras cujo interesse era económico e imperial e não humanitário. A própria comunicação social de grande envergadura é abertamente partidário e parcial e as opções sufragistas estão diminuídas a dois partidos que fazem parte de um interesse corporativo comum. Nem o princípio constitucional do Estado Laico aquela república consegue respeitar minimamente. A educação pública vê-se amplamente ameaçada e um sistema nacional de saúde ainda está por ser fundado. O racismo, embora grande, é só mais um dos imensos problemas daquela nação. E que não se julgue que estes problemas foram uma construção da Administração Trump. Eles fazem parte do próprio molde do país, e só assim é que haveria condições para um indivíduo como Donald Trump ser eleito Presidente. É o reflexo daquela América, receio. Quem de facto tem controlo sobre os destinos daquele país são os banqueiros, a Reserva Federal, a indústria do armamento e o Pentágono. E estes não têm a mais remota inclinação para placar o racismo institucional dos EUA. Só acção radical e revolucionária o pode fazer, e creio que nem sempre essa acção pode ter uma índole pacifista, apesar dos ensinamentos de Luther King e Gandhi.
Esta é uma altura pertinente, julgo, para escutar atentamente o Man in Black do Johnny Cash.
Falar em raças, para além de não ter a mínima coerência intelectual ou científica, pode ser per se um substancial resíduo de racismo, ainda que inconsciente, uma vez que tudo o que há são incontáveis etnias aglomeradas numa única raça - numa única espécie humana.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Sacrilégios: como o Coronavírus também conseguiu infectar a alma dos crentes
A celebração da missa e da Eucaristia - isto é, dito de forma simples, a recriação da Última Ceia, como pedida por Jesus Cristo aos seus apóstolos, segundo aquilo que está escrito no Novo Testamento da Bíblia - é nuclear na fé cristã, e Cristo foi bem explícito que essa cerimónia devia ser sempre repetida. Eventualmente as missas, para esse efeito, foram inventadas. O que vemos hoje é um fenómeno incrível (na verdadeira acepção da palavra) em que até isto os crentes e a Igreja Católica acederam de forma mais ou menos silenciosa a cancelar. Não levantaria tal coisa um gigantesco problema do foro teológico? Não põe, tal suspensão de celebração religiosa, tão importante - quase como se fosse o tempo de antena formal que os crentes leigos têm com o altíssimo todo-poderoso -, os próprios terráqueos mortais em grande dívida para com deus, também conhecido como Jeová? Não será tudo isto contraditório? Se deus existe e é omnipotente, omnisciente e omnipresente, e ainda por cima bom para as suas sementes, porque haveria ele de congeminar tal evento patológico que cancelaria as próprias celebrações sagradas em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (o trio, de uma entidade só, imagine-se tal coisa, conhecido como Santíssima Trindade)? Será sinistramente cínico, e portanto, com certeza, não será bom? Será o Diabo/Satanás, ou Lúcifer como eu gosto que ele seja referido, o mafarrico por detrás de tudo isto, emperrando a engrenagem da "máquina do mundo [referência a'Os Lusíadas]"? Na Idade Média era assim: algo corria mal e punha-se as culpas em Lúcifer. Logicamente, apesar de, como Deus, não passar de uma personagem fictícia e bíblica, Lúcifer é, precisamente, a minha personagem favorita na Bíblia - uma espécie de Prometeu anti-heróico e revolucionário - e custa-me muito ver a sua figura angelical a ser constantemente vilipendiada. Ou melhor que tudo isto, não será, toda esta História da Religião, uma estória muito mal contada, saturada de plot holes e incongruências indescortináveis, como se tivesse sido redigida por um escritor de baixa categoria? Façam o que quiserem disto, cada um acredita na sobrenaturalidade que entender, mas levar isto como dogmas não é diferente de crer no monstro do esparguete voador ou que todos nós vivemos dentro do globo ocular dum gigante.
Por último a Extrema-Unção. É aqui que sinto uma maior solidariedade para com as barreiras montadas contra as livres práticas da espiritualidade, porque, é preciso afirmar, apesar do meu antiteísmo, eu sou um defensor da liberdade religiosa, desde que essa liberdade religiosa não implique, por exemplo, a incineração pública de livros e pessoas, o que, felizmente, já não se assiste tanto com há 500 anos. O meu choque pela abolição temporária da Extrema-Unção - o sacramento concedido ao crente no seu leito de morte - tem que ver, precisamente, com a sensibilidade do assunto, uma vez que, parecendo que não, eu também me consigo colocar no lugar do outro, neste caso dum sólido religioso. A paz do crente no leito de morte - com fé de que a sua alma viaje até às portas do Céu - creio que não será um assunto que os religiosos, neste caso cristãos católicos, encarem de forma leviana. Nem percebo como é que a Igreja Católica se deu ao trabalho de fazer tanto barulho contra coisas como a legalização da Eutanásia, e para tudo isto que já descrevi - que basicamente significa a suspensão de todas as bases fundamentais do credo - não se maçam nem com o mínimo ruído. É quase como se a fé se tivesse esfumado nas brumas da virose. Não deixa de ser irónico que uma das instituições mais inflexíveis da História tenha concedido suspender quase toda a celebração da fé, de forma tão serena. Face a isto, eu só posso perguntar: onde está a fé? E onde está deus? Não está...
Nada disto tem por base ferir a integridade dos que se afirmam religiosos, ou fazer uso desta pandemia como trampolim para atacar a lógica da fé e da Religião. Todavia, é um fenómeno ao qual é difícil de fechar os olhos. Pergunto-me: será que, com este vazio, as pessoas não se começam a aperceber do absurdo e da incongruência que é ter fé - colocando de lado o primado da razão - no sobrenatural quando este não dá provas de si mesmo? Será que a diferença entre haver ou não haver Eucaristia não é nenhuma? Não é o sobrenatural que atende os doentes no Hospital, são pessoas que trabalham... e no meio disto tudo, já Saramago inquiriu, ironicamente como era seu magistral estilo, "Onde está deus"? Saramago disse, também, que a ideia de deus morre - não é que deus morra porque, para morrer, precisava de existir - quando deixar de haver um único crente. Quando tal acontecer, o proverbial deicídio aconteceu.
terça-feira, 7 de abril de 2020
Entre o Medo e a Razão: Memórias sobre a Pandemia
Há poucos dias, no Mar das Caraíbas, a norte da Venezuela, teve lugar um incidente que, por enquanto, se manterá misterioso e estranho. Um cruzeiro identificado como RCGS Resolute, com a bandeira da República Portuguesa, alegadamente ao serviço de uma companhia privada denominada Columbia Cruise Services, entrou em colisão com uma embarcação militar ao serviço da Venezuela. O Presidente venezuelano Nicolás Maduro declarou que o Resolute investiu, propositadamente, contra a embarcação militar identificada como Naiguatá, tendo provocado o naufrágio da embarcação. Os oficiais na sede da Cruise Services, na Alemanha, alegam o contrário. Afirmam ter sido o Naiguatá que investiu contra o Resolute, e que o naufrágio da embarcação militar se deveu à placa de protecção anti-glacial que reveste o cruzeiro a estibordo. Uma terceira eminência, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, descansa quem destes assuntos se importa - que nos dias que correm não são muitas pessoas - e assegura que o incidente não alterará as relações diplomáticas entre Portugal e a Venezuela e que tudo se encontra na mais serena tranquilidade... apesar da reacção tempestuosa de Maduro (tendo ou não tendo razão) e apesar do barco ser português. Felizmente ninguém se aleijou. Mas será que o orgulho nacional tem potencial para ficar ferido?
Foi também há uns dias que, no Aeroporto Humberto Delgado em Lisboa, aconteceu um dos incidentes mais insólitos e absurdos dos últimos tempos em Portugal. Um conjunto de inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras fez questão de recordar à Nação Portuguesa que as práticas de outrora, quando quem tinha poder neste país era uma Ditadura Católica - o Estado Novo -, ainda não foram abolidas na sua totalidade, e que ainda há indivíduos (muitos deles ligados às instituições de cumprimento das leis) que optam por uma conduta muito pouco diferente daquela que estava associada à PIDE. Estes inspectores do SEF, aquando da chegada de um viajante ucraniano ao aeroporto, vindo da Turquia, interceptar-lhe o caminho e chegaram à conclusão que o dito viajante não podia entrar no território nacional. Até aqui tudo bem, nada de surpreendente. Há imensas razões e circunstâncias que podem levar os inspectores do SEF a tal conclusão, por mais que não seja de vivermos, hoje, em condições excepcionais. O problema é com o que aconteceu depois. Depois do indivíduo ucraniano ter reagido mal às indicações dos inspectores - no limite até poderá ter oferecido resistência - este foi agredido, detido numa sala do aeroporto, e aí foi torturado e espancado até falecer. Este cidadão ucraniano foi abandonado, no chão da sala, com a cara virada para o chão (uma técnica que cortou o fôlego da vítima) e os pulsos algemados, já com lesões severas devido ao espancamento que lhe foi administrado, e aí foi deixado durante uma noite inteira até ser dia. Como vale pouco a vida humana. Como é gratuita a violência e como é fácil o homicídio. Acrescentando o insulto ao dano, estes assassinos praticaram este crime em nome do Estado português, e é com mais esta sensação de culpa que todos nós teremos de suportar. Todos nós somos o Estado e são as estruturas da sociedade que permitem a subsistência deste género de mentalidades e valores assassinos.
Os tais inspectores encontram-se, neste momento, em prisão domiciliário - quase como todos nós - porque a justiça, de momento, está meio suspensa. Nem a justiça se safou ao shutdown a que a República foi submetida, e quando a justiça funciona a meio gás - e antes já não funcionava muito bem - são os tiranos de rua que proliferam e dominam. Parabéns. Até os criminosos nas cadeias portuguesas tiveram um indulto presidencial para regressarem, a título temporário, às suas residências e aí permanecerem. A justificação de Marcelo prende-se com razões humanitárias e sanitárias. Como a vida é irónica. Enquanto a Classe Trabalhadora vê imposição de restrições à sua liberdade - com complacência de uma parte substancial dessa mesma classe - os reclusos assistem a um alívio das condições penitenciárias a que, supostamente, deveriam estar submetidos.
Descendo para sul, no Algarve, outro acontecimento insólito e com contornos macabros sucedeu. Um jovem com a minha idade foi assassinado e desmembrado por duas raparigas com idades não muito diferentes. As várias partes do corpo foram espalhadas pelo território algarvio. A Polícia Judiciária, felizmente, conseguiu chegar à verdade de toda a situação. Segundo o que a PJ conseguiu apurar, as criminosas em questão praticaram este acto hediondo por razões financeiras. Também se conseguiu perceber que eram raparigas bem inseridas social e economicamente. Quanto ódio e desequilíbrio cognitivo é necessário para encabeçar crimes desta natureza?
Promoção Viral:
O leitor mais desatento poderá julgar que eu estou a copiar o estilo do pasquim que se dá pelo nome Correio da Manhã, com todos estes pormenores e este relato. Se essa é a ideia, permita-me que o esclareça. Embora eu esteja altamente preocupado com os níveis e contornos alarmantes de violência, e com os esquemas que envolvem embarcações registadas em Portugal, a minha preocupação prende-se também com a fraquíssima atenção mediática que todos estes incidentes têm recebido. Tudo o que interessa, neste momento, é o vírus. Tudo o que interessa é ficar em casa e, de preferência, não fazer grande uso das faculdades intelectuais. É esta a mensagem dos noticiários, agindo como se a salvação e a razão estivessem com eles, incondicionalmente. A deontologia do texto jornalístico morreu. Não se informa o quê, o onde, o quando, em função daquilo que é a importância das questões e com atenção ao equilíbrio da diversidade dos vários assuntos abordados. Em vez disso inundam-nos com conselhos arbitrários, falsas notícias onde é visada a juventude pelas quais pedem mais tarde perdão, falsas notícias de mortes em regiões que, na verdade, não aconteceram, e frases de autores que nem se quer mencionam. São autênticas homilias em que todos os que não são eles e os decisores políticos, são tratados com o mais básico dos paternalismos. Os novos porque, na óptica deles, são arruaceiros egoístas que não querem saber dos velhos. Os velhos porque não querem saber deles próprios quando vão apanhar ar à rua. Um destes novos padres, um jornalista que até há pouco tempo tinha em alta consideração, Rodrigo Guedes de Carvalho, sugeriu-nos de modo imperativo que ficássemos no cárcere domiciliário sempre que não precisássemos de ir à farmácia ou comprar alimentação. Para ele, o simples passeio higiénico ou a casual deslocação de 100 metros para visitar um amigo, são insultos àqueles que sofrem e àqueles que vivem apavorados com o coronavírus, barricados em suas casas. Diz ele, é um insulto a todos os profissionais de saúde. Já voltaremos ao assunto relacionado com a descoberta dos mainstream Media de que há problemas laborais sérios nos hospitais. Agora vamos regressar no tempo.
A ideia que tem sido transmitida pelos noticiários e pelo poder político é que vivemos tempos sem precedentes na História recente, e que esta pandemia pode ser discutida num patamar de importância similar a outras mortandades que sucederam ao longo da História. Infelizmente, a historiografia não tem saído à rua para esclarecer a população de que este surto não tem comparação possível às terríveis pandemias da História, e que no século XX houve eventos de grande mortandade - pandemias e conflitos militares - que eclipsam os tempos chatos em que vivemos.
Uma história de maleitas:
Só na História Moderna (XVI-XVIII) a variedade de surtos, desde febres, cólera e gripes contagiosas, deixou um rasto que a historiografia ainda hoje tenta trilhar. Entre 1707 e 1709, a varíola erradicou 36% da população islandesa. Entre 1616 e 1620, uma grande epidemia liquidou entre 30% a 90% da população da zona sul de New England, na América do Norte. Durante todo o século XVI, a região onde hoje é o México foi assolada por epidemias que arrasaram a população nativa da zona, pavimentando as páginas da História com milhões de mortos.
Na Antiguidade também temos registos, dados e evidências, embora estes sejam muito mais reduzidos e esquivos. A Praga Antonina, por exemplo, um surto de varíola possivelmente, liquidou entre 5 a 10 milhões de habitantes do Império Romano, na segunda metade do século II. A Praga Justiniana foi bem mais implacável, e teve lugar 400 anos depois. 25 a 100 milhões de habitantes do Império Romano foram dizimados. Na altura correspondia a bem mais de um terço da população do continente europeu. Dois século depois, no Japão, a varíola provocou a morte de cerca de 2 milhões de pessoas - o que correspondeu a um terço da população.
Claro que nenhum evento pandémico é tão conhecido como a Peste Negra, um surto de praga bubónica na Europa medieval do século XIV. A praga bubónica não foi a maleita que mais casualidades provocou na História - esse lugar vai para a varíola -, todavia, o infame surto que explodiu na Europa medieval, e que ficou conhecido no léxico português como Peste Negra, deixou a marca mais indelével na História da Humanidade, devido às transformações sociais/demográficas que provocou, e devido às mudanças culturais e políticas que acelerou. A praga bubónica, provocada pela bactéria yersinia pestis, e cujos sintomas se traduziam em devastadoras pneumonias e no surgimento de bubos (inflamações em género de bolha, cheias de sangue) nas axilas, virilhas e pescoço, terminando com vómito de sangue - devido à punição a que os pulmões tinham sido submetidos pela bactéria - ou com a erupção em sangue desses bubos, dizimou cerca de 200 milhões de habitantes, entre 1331 (quando a Peste começou por reclamar as primeiras vidas, na Ásia ocidental) e 1353 (o ano em que a mortalidade da praga, em solo europeu, entrou numa linha decrescente). A bactéria fez o seu percurso até à Europa, em moscas e ratos, viajando da Mongólia até à Crimeia, e daí navegou o Mar Mediterrâneo até aos dinâmicos portos da Península Itálica. Foram os reinos e repúblicas, que compunham o mosaico da península que hoje é a Itália, os primeiros estados europeus a sofrerem com a Peste Negra. Os estados itálicos eram, na época, potentados comerciais e a principal ponte de comunicação entre a Europa ocidental e o mundo árabe do norte de África e da Ásia ocidental. Foi de cidades como Veneza, Florença e Génova, e pelo norte itálico Europa dentro, que o yersinia pestis se disseminou. Desde o primeiro contacto de contaminação até à morte do infectado, o espaço de tempo variava entre 2 dias e uma semana. A generalidade das nações europeias demoraram dois séculos a recuperar os níveis demográficos pré-Peste Negra, e Portugal não foi excepção. Cidades como Florença só recuperaram esses níveis demográficos 500 anos depois. A Europa converteu-se num cemitério onde metade da sua população foi sepultada, algures entre 1348 e 1352. As causas para tal mortandade, sobretudo, foi a ausência de higiene ou qualquer saúde pública, muita superstição, a fraca alimentação da maioria da população e a inexistência de antibióticos.
Houve mais surtos bubónicos ao longo da História. A última grande pandemia de praga bubónica foi no século XIX, na qual morreram 12 milhões de pessoas na Índia e na China.
O século XX não foi estranho a pandemias e a mortandade. Entre 1918 e 1920, logo após a mortandade da 1ª Guerra Mundial, a gripe pneumónica, vulgar e erradamente conhecida na época como Gripe Espanhola, trazida pelo vírus H1N1, liquidou 17 milhões de pessoas em todo o mundo. Mais tarde, na década de 60, surgiu um novo vírus. O HIV - cuja infecção provoca a destruição do sistema imunitário, sendo transmitido através de relações sexuais ou transfusão de sangue -, que gozou dos seus tempos de maior fama nos anos 80, reclamou a vida, até agora, a mais de 30 milhões de pessoas. Quanto a mim, se há vírus misterioso é este. O seu surgimento é abrupto e silencioso, pois não conseguimos recuar na História e encontrar evidências de que ele já existisse. As teses que explicam o seu surgimento são múltiplas. Eu não acredito nas mais consensuais. Morreram pessoas de todas as orientações sexuais, mas foi a homossexualidade aquela que foi visada sob todas as formas e feitios. Foram os homossexuais e bissexuais os visados nas homilias tresloucadas que muitos padres administraram por esse mundo fora. A homofobia voltou a ganhar imenso terreno na sociedade internacional, recuperando aquele que tinha perdido durante os anos 60. Pessoas como essa inquisidora adorada, Teresa de Calcutá, difundiram a mensagem de que o HIV foi castigo divino bem merecido. Nada disto foram emissões de apoio ou solidariedade para com pessoas que estavam a morrer, muito pelo contrário, e não aconteceu na Idade Média.
Há 10 anos, o H1N1 voltou a provocar uma pandemia, com centenas de milhares de mortos em todo o mundo, mas nada que se pudesse comparar ao passado histórico. Lembro-me, na altura, quando o vírus surgiu novamente, com um nome comercial, Gripe A, de prometerem milhões de mortos em todo o mundo. Lembro-me do medo que os mesmos poderes de hoje espalharam na consciência colectiva. E lembro-me de que, após tanto cataclismo anunciado, tudo voltou à normalidade. E lembro-me também de que nenhum Estado de Excepção foi decretado. À data em que este texto é publicado, 'apenas' mais de 72 mil pessoas foram vitimadas, desde que o surto de Covid-19 foi primeiramente notado em Dezembro de 2019, na China, e ao que parece todas as nações do mundo atingirão, em poucos meses, a tal rota decrescente da tal bem-dita curva de infectados. Mas com todo este historial relatado, o que faz o coronavirus ser diferente de outras maleitas como o HIV ou o H1N1, ao ponto de ter honras de Estado de Emergência?
Uma guerra invisível:
Neste momento, guerra é a palavra de ordem. Os Media e o poder político usam-na com a maior desfaçatez, tentando convencer os cidadãos que os tempos que hoje vivemos são comparáveis aos tempos da 2ª Guerra Mundial. Será um vírus infeccioso, com uma muito reduzida taxa de mortalidade, comparável à blitzkrieg do III Reich? Tem sido dito que o coronavirus tem deixado um rasto de morte industrial. Será isto comparável à verdadeira indústria de morte que foi o Holocausto? Será isto comparável à destruição de cidades e derrube de economias inteiras que alastrou todo o mundo, antes e durante a 2ª Guerra Mundial? Será isto comparável aos 100 milhões de mortos, em resultado de guerra, entre 1914 e 1945? Não é. É um insulto afirmar que há comparação possível. Quem o faz não quer sensibilizar as pessoas para os riscos da actual pandemia. Fá-lo no intuito de disseminar viralmente o medo. Num registo puramente semântico, quanto a mim, o uso do vocábulo "guerra" também não é uma opção saudável. As guerras são fenómenos inventados pelo ser humano, e o vírus não combate nenhuma guerra connosco. As crises de saúde pública não se combatem com opções autoritárias e com "um, dois, esquerdo, direito". Crises de saúde pública são evitadas, sim, com financiamento e melhoramento do sistema nacional de saúde. Como é sabido, na esmagadora maioria das nações do mundo, essa aposta orçamental nunca foi uma prioridade. Em muitos casos nem se quer existe um sistema nacional de saúde. E quando a saúde é disponibilizada só para alguns, e quando o Estado não assume o seu papel colossal e exclusivo na saúde, pagando justamente aos profissionais de saúde (e não é só desde ontem que são ingratamente remunerados, como a atenção de muitos parece ter notado), não devem haver surpresas quando as coisas tremem numa eventualidade como esta que vivemos.
O que soçobra:
A União Europeia cava a sua sepultura a passos rápidos. As economias dos países europeus funcionam a meio gás. As vidas de muitos cidadãos estão intermitentes. Ignorar a factualidade de qualquer evento pandémico é um acto criminoso que qualquer estado pode cometer. Exagerar as medidas tomadas ante qualquer crise - particularmente as medidas que colocam em risco os cidadãos - é um acto irresponsável. O Estado de Emergência nunca devia ter sido levado a cabo em Portugal porque, em primeiro lugar, a actual pandemia não justifica a estagnação da actividade socioeconómica da nação. A economia parou, e com isso, no futuro não muito distante, serão os cidadãos que terão de pagar essa estagnação. E por enquanto ainda estamos em estado de estagnação. Uma eventual recessão, em Portugal e no mundo, será inevitável. Pior que estar parado é andar para trás. Um artigo publicado no site da International Marxist Tendency, por Hamid Alizadeh, com o título Coronavirus pandemic opens a new stage in world history, é bastante eloquente na explicação da crise económica que está por chegar. A República Portuguesa e muitos outros estados europeus não estão preparados para enfrentar a depressão que se aproxima. Haverá novos cortes salariais, haverá um aumento do desemprego, e por consequência um aumento da pobreza, e a austeridade irá regressar. Claro que esta crise só afectará a Classe Trabalhadora. Aqueles que detêm os meios de produção económica manter-se-ão seguros nos lugares que ocupam, como acontece em qualquer crise económica. A única hipótese que Portugal tinha, para atenuar os efeitos desta crise, seria não ter fechado o país e, em vez disso, ter restringido selectos territórios nacionais à quarentena. Mas o mal já está feito. Os despedimentos já começaram, e isso é apenas o começo. Muitos pequenos negócios não terão capacidade para continuar a sua actividade no aftermath deste Estado de Excepção. Por outro lado, com este Estado de Emergência, a Justiça - uma base fundamental dum Estado de Direito - foi parcialmente suspensa, sendo que neste momento só os casos considerados graves é que continuam a receber atenção dos tribunais, e o Governo recebeu poderes excepcionais que, sinceramente, assustam-me. Por outro lado, enquanto haverá muitos cidadãos que enfrentarão dificuldades sérias, o Governo e o Presidente da República já discutem, com as grandes empresas e os bancos privados, planos de contingência para que estes tenham direito de exclusividade ao barco salva-vidas. E o mais curioso disto tudo é que, no imediato, todos estes detentores do poder económico passaram de neoliberais económicos a intervencionistas. É caso para dizer que, apesar de não haver peregrinação a Fátima em Maio, os milagres não deixam de acontecer. Outro aspecto quase distópico do Estado de Emergência foi a proibição do direito à greve, e em Portugal as políticas, nesse sentido, foram ainda mais duras que na Itália ou em Espanha. O direito laboral não pode ser encarado como uma mera trivialidade, quando assim é, abrimos precedentes gravíssimos na construção democrática dum estado. Tais políticas só devem ser implementadas quando a própria integridade democrática ou nacional está por um fio. Estes problemas graves que elenquei, sobre o actual Estado de Excepção, já foram expostos por individualidades como o jornalista Daniel Oliveira ou a historiadora Raquel Varela. Loucos como eu, certamente... A prioridade, julgo eu, será cessar com a escavação do túmulo e pôr um fim a este atrofio socioeconómico. Quanto mais nos aventurarmos nele, mais nos arrependeremos mais tarde.
Quanto à Europa, o próximo passo de desintegração da União Europeia já foi dado, e esse teve lugar no dia em que muitos dos seus decisores políticos decidiram que a Itália e a Espanha não têm direito a apoio financeiro para enfrentarem os problemas económicos que já se fazem sentir. A dívida pública italiana, que já é alta, vai escalar a valores medonhos, e será na Itália que, possivelmente, o próximo passo de desintegração da UE será dado. E quantos mais saírem, mais célere será a concretização do efeito dominó. Triste mas necessário fim, custa-me dizer. Num panorama mais geral, o continente europeu subscreveu a ficha da sua capitulação quando aceitou suspender a sua actividade económica. Ficaremos à mercê da águia de rapina, no outro lado do Atlântico, e do dragão no oriente da Ásia. Tudo o que eu espero é que haja presença de espírito por parte dos europeus para atenuarem a queda que todos iremos sofrer. A partir de agora o próprio conceito de Estado Social está em causa. Se o eleitorado não agir com determinação para evitar tal desfecho, estaremos entregues aos lobos.
Alternativa Socialista:
O artigo que há pouco mencionei, da International Marxist Tendency, apesar do relato perturbador mas realista que faz, também aponta para políticas concretas que devem ser tomadas no imediato - e que eu sei que não serão tomadas - para refrear o choque financeiro que se vai abater sobre a Classe Trabalhadora. Passo à citação de algumas, tomando a liberdade para eu próprio traduzir do inglês:
- Em todo os países, temos de exigir a nacionalização de todas as instituições de saúde privada. Toda a Saúde e a indústria farmacêutica deve ser imediatamente nacionalizada sob controlo dos seus trabalhadores para que seja planeado um imediato e efectivo alívio às necessidades daqueles que precisam.
- Salários completos por motivos de doença devem ser garantidos a todos (...) ou devem ser garantidos subsídios equivalentes a um salário para os trabalhadores que perderam o seu emprego. Pais e cuidadores devem continuar a receber um salário para continuarem a zelar pelas crianças (...) afectadas pelo encerramento de escolas e infantários.
- Rígido controlo de preços deve ser imposto em todos os bens essenciais. Nacionalização de todas as fábricas que produzem produtos de higiene e equipamento médico escassos.
- Residências vazias usadas como veículos de especulação pelos imensamente ricos devem ser levadas ao controlo público para que seja fornecido alojamento aos sem-abrigo.
- Os recursos necessários para combater a pandemia [em toda a sua dimensão socioeconómica e financeira] não serão encontrados aumentando o défice orçamental ou a dívida pública, que, em contrapartida, seria paga pelos trabalhadores, posteriormente, mediante austeridade. Um imposto sobre as grandes corporações deve ser introduzido. Devemos também elevar o apelo para a nacionalização dos bancos com via a direccionar os recursos onde estes são necessários, fornecendo financiamento às famílias, aos pequenos negócios e sectores afectados pelo shutdown.
Com franqueza:
Em última análise, o meu desagrado para com a imposição dum Estado de Excepção advém da própria natureza da pandemia. Como já afirmei num outro parágrafo, o HIV, ou até mesmo o H1N1, deixaram um rasto de casualidades muito mais preocupante e assustador. Falando do HIV, que reclamou vidas sem fronteiras há 20 e 30 anos, a pandemia nunca foi assumida universalmente como um caso grave de saúde pública a ser resolvido. E quando era olhado com seriedade, era também olhado com desconfiança e preconceito, à semelhança do que hoje ainda acontece. Não posso compactuar que o mundo tenha assistido impávido e sereno, com nada mais que esgares de desprezo, para a suposta imoralidade e morte de milhões de pessoas, e hoje acorde afirmando que esta é que é a grande crise dos nossos tempos. Revolto-me que nos comportemos como burgueses amedrontados com uma pandemia tímida, quando o continente africano é avassalado por epidemias mortíferas que ceifam a vida de crianças. Espanto-me com a facilidade com que se tem visado a juventude como irresponsável e egoísta, vindo tais críticas das gerações que engoliram a patranha de que o HIV era a doença dos gays. Envergonho-me que o heroísmo do século XXI seja ficar passivamente em casa, e que indivíduos - os tais 'novos-padres' dos noticiários - que, agindo como se fossem herdeiros de Prometeu, a transbordar de virtude, ordenem às pessoas que não saiam de casa, ignorando que há muita gente que não tem uma casa abastada ou espaçosa onde possa permanecer semanas a fio.
E estou francamente cansado...
A não ser que haja um cataclismo global notável, só dedicarei mais um texto ao coronavírus. Será sobre a relação entre o Covid-19 e a Fé dos crentes religiosos. Se o leitor, desde o princípio, chegou aqui, fico-lhe francamente agradecido.
terça-feira, 31 de março de 2020
Ficar em Casa? (Poema)
Vender a liberdade e obedecer
Escrito entre 23 e 30 de Março de 2020