terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Sondagens: um instrumento de (des)informação

Texto da autoria de Afonso Mourato Nabo

Há alguns anos, eu não dava valor às sondagens. Num universo superior a 10 milhões e 500 mil eleitores, espalhados por Portugal continental, arquipélagos da Madeira e dos Açores, Europa e Resto do Mundo, é muito arriscado fazer extrapolações à escala nacional a partir de 500 ou 1000 entrevistas. No entanto, isto não é novidade para quem conduz estes processos, por isso é que existem diversas técnicas para aumentar a fiabilidade dos resultados.

Não obstante, a razão pela qual, nos dias de hoje, dou imenso valor às sondagens não se prende tanto com o facto de traduzirem as opções do eleitorado, mas penso que são as opções do eleitorado que, de certa forma, se deixam influenciar pelos resultados das sondagens. É claro que as sondagens também traduzem a vontade de UMA PARTE do eleitorado e admito que se possa proceder a extrapolações (depois cada um analisa como quiser). Por outro lado, também acredito que os resultados das sondagens não constituem o principal factor influenciador das escolhas dos eleitores. Ainda assim, apesar do artificialismo e desvantagens inerentes ao processo, as sondagens são, do meu ponto de vista, instrumentos de opinião a ter em consideração, visto que, no fim de contas, são a forma mais fiável, quando bem realizadas, de aferir o posicionamento dos eleitores sobre as mais variadas questões (sem contar com o sufrágio propriamente dito).

Estas considerações levam-me para outra questão relacionada com a diversidade de empresas a realizar estudos de opinião. Não me parece que exista qualquer problema relacionado com a realização do mesmo tipo de sondagens (em Portugal, a maioria são simulações de eleições legislativas) por diferentes empresas de estudos de opinião. Em Portugal, para além da Intercampus e da Eurosondagem, a Aximage, a parceria ISCTE/ICS-UL, o CESOP da Universidade Católica, a Pitagórica e a Multidados também produzem estudos de opinião. Neste momento, pretendo focar-me apenas na Intercampus e na Eurosondagem porque foram estas as empresas que produziram o maior número de sondagens sobre a preferência partidária dos eleitores desde as Eleições Legislativas 2019. A Intercampus produziu cinco sondagens e a Eurosondagem produziu quatro (a Intercampus fez um estudo em Outubro, a Eurosondagem não).

Após analisar os resultados das várias sondagens conduzidas por estas duas empresas, onde se colocou (talvez por outras palavras) a seguinte pergunta, “Se as Eleições Legislativas fossem hoje, em que partido votaria?”, cheguei à conclusão que os resultados obtidos não são semelhantes. Isto é perfeitamente natural, pois basta pensar que as cerca de 600 pessoas que a Intercampus entrevista para cada sondagem não fazem parte do grupo de cerca de 1000 pessoas que a Eurosondagem entrevista para as suas sondagens. Para além disto, é completamente possível que as pessoas entrevistadas nunca sejam as mesmas. Portanto, o facto das empresas obterem resultados diferentes de mês para mês é perfeitamente natural. Também, o facto de chegarem a resultados diferentes sobre o mesmo tema, no mesmo mês, acaba por ser uma consequência do que acabei de sugerir.

No entanto, a minha atenção desperta quando observo padrões. Neste caso, a existência de padrões poderá ser um sintoma de que algo não está bem. Aqueles que possuem uma técnica da indução bastante apurada, não só reparam facilmente na existência de padrões, como também rapidamente adivinham o acontecimento seguinte, caso exista, de facto, um padrão. Ora, nada disto é suposto acontecer quando se trata de preferências de eleitores, entrevistados de forma aleatória (respeitando apenas algumas regras para que o processo seja levado a cabo da melhor forma). Pude observar que, apesar de não haver qualquer problema com a diferença de resultados obtidos pelas empresas, existem tendências demasiado evidentes, quer do lado dos resultados das sondagens da Intercampus, quer do lado da Eurosondagem.

Vamos, então, passar à análise. Em cinco sondagens da Intercampus, o PS regista perdas sucessivas, passando de 35,6% no final de Outubro para 31,1% em Fevereiro. No entanto, em quatro sondagens da Eurosondagem, o mesmo partido regista ganhos sucessivos, passando de 36,9% em Novembro para 37,4% em Fevereiro. Já o PSD, nas sondagens da Intercampus, registou ganhos sucessivos nas quatro primeiras sondagens (subiu 1% ao todo), até que, em Fevereiro, caiu 2% para os 23,8%. Contudo, nas sondagens da Eurosondagem, entre Novembro e Fevereiro, perdeu apenas 0,4%, ficando nos 26,7%.

Mas os casos que podem levantar sérias dúvidas são os próximos, nem que seja pelos partidos em causa. O Bloco de Esquerda, nas sondagens da Intercampus, passou de 10,7% em Outubro para 13,2% em Fevereiro. Nas sondagens da Eurosondagem registou perdas sucessivas, passando de 10,1% em Novembro para 9% em Fevereiro. Mas o caso mais notório é o do Chega, que regista aumentos sucessivos nas sondagens da Intercampus, passando de 2,5% em Outubro para 6,9% em Fevereiro, ou seja, de 8ª força política para 4ª força política. Nas sondagens da Eurosondagem, nem entra nas contas em Novembro (tal como a Iniciativa Liberal e o Livre) e sobe apenas 0,6% em três sondagens, passando de 1,9% em Dezembro para 2,5% em Fevereiro.

Para além destes quatro partidos, são avaliadas pelas sondagens outras cinco forças políticas, sempre com tendências diferentes quando comparados os resultados de ambas as empresas, salvo uma excepção. Nas sondagens da Intercampus, a Coligação Democrática Unitária (composta pelo Partido Comunista Português e o Partido Ecologista “Os Verdes”) chegou aos 8,1%, obtendo 6,3% em Fevereiro, logo atrás do Chega. Nas sondagens da Eurosondagem, apenas chegou aos 7,1%, mas acabou por obter em Fevereiro sensivelmente o mesmo valor. Portanto, sinto-me à vontade para afirmar que a CDU é a rara excepção, visto que apresenta valores diferentes nos estudos das duas empresas sem que se possa concluir que haja padrões de evolução totalmente diferentes de uma empresa para a outra.

Apesar de ter obtido 0,8% em Fevereiro, as sondagens da Intercampus começaram por ser bastante generosas para o Livre, tendo o partido atingido os 2,7%. Nas sondagens da Eurosondagem, o Livre nunca passou dos 0,6%. A Iniciativa Liberal obteve 2,9% no mês de Fevereiro, no que toca à sondagem da Intercampus, mas o melhor que conseguiu nas sondagens da Eurosondagem foi 1,3%. Já o partido Pessoas-Animais-Natureza chegou aos 6,1% nas sondagens da Intercampus e em Fevereiro registou 5,4% das intenções de voto, mas nas sondagens da Eurosondagem o melhor que conseguiu foi 3,6%. Por último, o Centro Democrático e Social – Partido Popular, no meio de subidas e descidas, conseguiu um máximo de 4,4%, um mínimo de 1,9% e obteve 3,5% das intenções de voto em Fevereiro nas sondagens da Intercampus, mas nas sondagens da Eurosondagem apenas variou 0,7% entre Novembro e Fevereiro, tendo começado nos 4% e descido até aos 3,3%.

Nas sondagens da Intercampus, todos os partidos apresentam variações, algumas mais notórias que outras. Nas sondagens da Eurosondagem, tal não acontece. O PS varia 0,5% entre máximo e mínimo (e ganha), o PSD varia 0,6% (e perde), o BE varia 1,1% (e perde), a CDU varia 0,6% (e perde), o CDS-PP varia 0,7% (e perde), o PAN varia 0,5% (e perde), o Chega varia 0,6% (e ganha), a IL varia 0,2% (e mantém) e o Livre varia 0,1% (e perde). Como já foi dito, estes últimos três partidos nem foram avaliados na primeira sondagem da Eurosondagem, em Novembro.

Temos, claramente, dois padrões de evolução das intenções de voto completamente diferentes de um grupo de estudos para o outro. Se nas sondagens da Intercampus o PS perde 4,5% de Outubro para Fevereiro, nas sondagens da Eurosondagem ganha 0,5%. Se nas sondagens da Intercampus o BE ganha 2,5%, mas nas sondagens da Eurosondagem perde 1,1%. Se nas sondagens da Intercampus o Chega ganha 4,4%, nas sondagens da Eurosondagem ganha apenas 0,6%. Poderia continuar a dar mais exemplos, mas penso que fica bem patente, principalmente nestes três exemplos, as diferentes tendências.

Resta perguntar: porque é que existe esta diferença? Não será algo perfeitamente normal? É claro que podemos assumir que é normal, tendo em conta aquilo que expliquei anteriormente: as pessoas entrevistadas não são as mesmas. Mas, se são escolhidas de forma aleatória, porque é que as sondagens da Eurosondagem apresentam sempre tamanha rigidez na variação das percentagens, ao passo que as sondagens da Intercampus apresentam tantas variações? Porque é que as sondagens da Eurosondagem conservam os partidos de tal forma que mal variam, sendo que o partido do Governo é um de apenas dois que sobem nos resultados? Eu não tenho respostas concretas para estas perguntas, apenas suposições.

A principal ideia que quero deixar é que, neste momento, acredito que as sondagens já não são como as esferográficas, pois escreve-se com uma qualquer. Desengane-se quem pensa que as campanhas eleitorais e os programas partidários compõem a propaganda dos partidos: existe um novo mundo político que não pára, não dorme, está 24 sobre 24 horas a funcionar. Tudo é política, tudo serve para ganhar a confiança dos eleitores, até mesmo daqueles que não compreendem o tema de hoje.

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Dados relativos ao resultado das eleições e às sondagens da Intercampus e Eurosondagem:

Eleições Legislativas 2019 (51.4% abstenção)
6 Outubro
PS - 36,4% (108 deputados); PSD - 27,8% (79); BE - 9,5% (19); CDU - 6,3% (12); CDS-PP - 4,2% (5); PAN - 3,3% (4); CH - 1,3% (1); IL - 1,3% (1); L - 1,1% (1)

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Intercampus (604 pessoas)
22 a 28 Outubro
PS - 35,6%; PSD - 24,8%; BE - 10,7%; CDU - 6,9%; PAN - 5,3%; CDS-PP - 4,4%; L - 2,7%; CH - 2,5%; IL - 0,8%

Intercampus (604 pessoas)
20 a 26 Novembro
PS - 34,9%; PSD - 24,9%; BE - 10,8%; CDU - 8,1%; PAN - 4,8%; CH - 4,8%; CDS-PP - 2,9%; IL - 2,9%; L - 2,7%

Intercampus (606 pessoas)
12 a 17 Dezembro
PS - 33,9%; PSD - 25,7%; BE - 10,7%; CDU - 6,3%; PAN - 6,1%; CH - 5,7%; CDS-PP - 3,9%; IL - 2,4%; L - 1,1%

Rui Rio reeleito Presidente do PSD

Intercampus (619 pessoas)
19 a 24 Janeiro
PS - 32,8%; PSD - 25,8%; BE - 11,9%; CDU - 6,2%; CH - 6,2%; PAN - 6,0%; IL - 2,3%; CDS-PP - 1,9%; L - 1,7%

Francisco Rodrigues dos Santos eleito Presidente do CDS-PP

Joacine Katar Moreira deixa de representar o Livre na Assembleia da República

Orçamento de Estado 2020 aprovado em votação final global

André Ventura anuncia candidatura a Presidente da República pelo Chega

Intercampus (614 pessoas)
11 a 17 Fevereiro
PS - 31,1%; PSD - 23,8%; BE - 13,2%; CH - 6,9%; CDU - 6,3%; PAN - 5,4%; CDS-PP - 3,5%; IL - 2,9%; L - 0,8%

...

Eurosondagem (1011 pessoas)
17 a 21 Novembro
PS - 36,9%; PSD - 27,1%; BE - 10,1%; CDU - 6,9%; CDS-PP - 4,0%; PAN - 3,3%

Eurosondagem (1019 pessoas)
8 a 12 Dezembro
PS - 37,1%; PSD - 26,9%; BE - 9,5%; CDU - 7,1%; CDS-PP - 3,6%; PAN - 3,5%; CH - 1,9%; IL - 1,1%; L - 0,6%

Eurosondagem (1010 pessoas)
5 a 9 Janeiro
PS - 37,2%; PSD - 26,5%; BE - 9,6%; CDU - 6,6%; PAN - 3,6%; CDS-PP - 3,5%; CH - 2,2%; IL - 1,3%; L - 0,6%

Rui Rio reeleito Presidente do PSD

Francisco Rodrigues dos Santos eleito Presidente do CDS-PP

Joacine Katar Moreira deixa de representar o Livre na Assembleia da República

Eurosondagem (1020 pessoas)
2 a 6 Fevereiro
PS - 37,4%; PSD - 26,7%; BE - 9,0%; CDU - 6,5%; CDS-PP - 3,3%; PAN - 3,1%; CH - 2,5%; IL - 1,1%; L - 0,5%

Orçamento de Estado 2020 aprovado em votação final global

André Ventura anuncia candidatura a Presidente da República pelo Chega

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Eutanásia

O momento está aí. Está a chegar o momento para a República Portuguesa, por fim, tomar uma decisão sobre um assunto que eu entendo fundamental na nossa sociedade. Por mais que se diga que o assunto requer mais reflexão, que é preciso haver uma discussão ampla e ponderada na sociedade civil, e que os prós e os contras ainda não foram devidamente medidos pelos cidadãos e pelos decisores políticos, eu digo Não! a tudo isso. Não porque eu esteja contra tais períodos longos de exercício de reflexão e debate, mas porque a República já atravessou todo esse longo período. A discussão da Eutanásia já vai longa nesta nação, não é recente. Foi tratada não só em fóruns civis, como também foi debatida na anterior legislatura, e inclusive tratada em espaços culturais, e até locais tão remotos como as próprias igrejas. Tem sido mais de uma década a ponderar, debater, reflectir, e portanto o momento é agora. Dialecticamente falando, já se definiu claramente que há uma antítese para a tese, e então que se permita que haja, finalmente, uma síntese. 

Mas se há ideias e pessoas num confronto político, e sobretudo num choque cultural que noutros tempos tinha tudo para terminar ao tiro, quais são, de facto, essas ideias e esses grupos de pessoas? E o que significa Eutanásia? O leitor que acompanhar com discreta regularidade este blog já saberá que é nesta parte em que eu adquiro o meu suposto tom condescendente/paternalista e me lanço - muitos poderão julgar desnecessariamente - na exposição dum conceito alegadamente já compreendido por toda a gente. O problema é que eu creio que ainda há indivíduos que ainda não descortinaram o significado por detrás do vocábulo. É irrelevante se essa incompreensão provém da falta de tempo, falta de disponibilidade ou falta de vontade, mas é relevante afirmar que Eutanásia significa "dar a morte" (como dizia Saramago) a alguém que se encontra em situações clínicas terminais e/ou de dor física insuportável, sendo que, resultado da absoluta falta de vontade em prosseguir com tal vida, é o doente, na sua plena consciência medicamente avaliada, quem pede essa derradeira via. Portanto, Eutanásia não significa o Estado começar a perseguir velhinhos e doentes acamados - que mais me faz lembrar as terrivelmente fabulosas lendas desprovidas de realidade que se contavam dos comunistas durante o PREC - mas sim dar uma morte digna a quem já não reúne condições para viver realmente. 

A Eutanásia, sendo considerada um assunto "fracturante" (signifique isso aquilo que entenderem), deu ânimo a muitas paixões de ambos os lados. Verifiquei que as paixões mais fulminantes vinham do sector contra a legalização, como um grito de guerra que proclama o mais elementar direito a impedir os demais de decidirem sobre os seus próprios direitos, nomeadamente a vida. Este sector tem, com privilégio de precedência a todos os outros, a Igreja Católica à sua cabeça. Não são muitos os assuntos em que a Igreja se rala em fazer lobby político, e curiosamente não o tem feito com o mesmo vigor, por exemplo, a propósito das condições laborais da Classe Trabalhadora, o que é curioso dada a fama solidária da empr... instituição, quero dizer, mas isso são contas para outro rosário. Grosso modo, é toda a franja conservadora ou tradicionalista da sociedade portuguesa que se ergue contra a legalização, sejam eles de Esquerda ou Direita. Nesta questão é irrelevante o espectro político, e é também essa característica que torna a discussão interessante. Esta questão não se divide em esquerdistas e direitistas, divide-se sim em socialmente conservadores, mais ou menos autoritários, e socialmente libertários. No Parlamento temos um exemplo paradigmático disto: CDS e PCP, alegando diferentes justificações, opõem-se à Eutanásia. O CDS justifica a sua posição no seu credo católico, afirmando que é imoral as pessoas decidirem pôr termo à vida e que tal só cabe ao Altíssimo Todo-Poderoso - o que, no meu entender, gera um conflito teológico uma vez que, de acordo com o dogma, o deus em questão é omnipotente e portanto nada poderia ser feito contra a sua vontade. O PCP justifica a sua posição na ideia de que os cuidados paliativos são o caminho, não o suicídio. Tal posição também não põe o problema por terra porque, para os doentes terminais e para aqueles que para sempre permanecerão quasi imóveis e dependentes, não há cuidados paliativos que valham. A outra franja da sociedade, aquela que tem vindo a esgrimar pela legalização, defende em linhas gerais aquilo que eu defendo.

Não tem sentido ficarmos chocados com a necessidade da nossa sociedade precisar desta lei. Tenho escutado que a Eutanásia representa uma regressão civilizacional. Neste assunto, a questão é muito maior do que uma civilização mais ou menos avançada ou desenvolvida. É dar ao indivíduo em sofrimento uma nova via, e digo via porque, como dizia o sábio Saramago, a Morte faz parte da Vida, não é um domínio à parte. A Eutanásia tem mais que ver com o indivíduo do que com a Civilização no seu sentido colectivo. Ouvi o José Miguel Júdice dizer esta semana que há um grande negócio por detrás da Eutanásia, argumentando basicamente que não é uma ideia. Também há grandes negócios na música e na indústria de sapatos, não é por isso que vamos acabar com a música ou com os sapatos... Para além do mais, nações como a Suíça, o Canadá, o Japão, a Bélgica ou os Países Baixos - que por sinal têm notáveis cuidados de saúde - legalizaram a Eutanásia e não é por isso que as respectivas sociedades entraram em colapso.

A recusa da Eutanásia pode ser justificada numa miríade de aspectos, mas a verdadeira razão reside no inconsolável medo à Morte que assombra a nossa civilização. As próprias religiões e espiritualidades baseiam, em comum, os seus credos na existência duma vida depois da vida, metendo a cabeça na areia, convencendo-se de que haverá outra vida para além desta que vivemos, como que tentando fugir à lei determinante e imutável que significa atingir o fim da vida. A Morte é um tabu em todas as sociedades, e muito virtuosos e poéticos são aqueles que escrevem sobre ela. Mais corajosos são aqueles que escrevem sobre esta hipotética vontade humana de por término à própria vida. Neste registo recomendo três obras literárias notáveis: O Estrangeiro, e A Queda ambas as estórias da autoria de Albert Camus, e As Intermitências da Morte, o meu livro favorito na bibliografia de José Saramago. Recomendo literatura porque considero que o diálogo com a escrita e o seu escritor é uma óptima forma - se a literatura for boa claro - de viajarmos e libertarmos a nossa mente.

Estou convencido de que se os projectos-lei forem submetidos a votação no Parlamento, ainda este ano a legalização da Eutanásia será uma realidade. A esmagadora maioria de deputados do PS, o BE, o PAN, o PEV, selectos deputados do PSD e a Iniciativa Liberal estão a favor que assim seja. Contudo, a possibilidade de referendo também é uma realidade. A Igreja Católica luta por ele, como se de um braço se tratasse, convencida que a sua congregação de crentes votará como mandarão os padres nas homilias. Não tenho a certeza de que a deliberação sobre direitos pessoais seja uma matéria que deva ser deliberada em referendo, mas não tenho medo dum referendo. Se ele por ventura vier, confio nos meus concidadãos para votarem a legalização, permitindo um novo passo de maturidade e aceitação na nossa sociedade. Não termino este texto sem afirmar que durante longo tempo esperei por este momento, e outras mudanças no campo da liberdade do indivíduo também haverão de chegar...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Ponto de Situação

Ainda é Janeiro e 2020 já me está a parecer um ano que promete espalhar o caos e a confusão na cabeça dos cidadãos. 

No mundo, já tivemos um atentado terrorista dos EUA a um alto militar do Irão, atentado esse que animou uma tensão tremenda entre ambas nações - que por 'acidente' bem podia resultar numa guerra, dado o nível de insanidade que impera nas lideranças dessas nações - e que, devido ao facto da Europa não possuir uma política externa própria e independente, também ameaçava arrastar o velho continente para o meio daquela loucura. Os líderes políticos europeus bem que se podem queixar do Donald Trump, mas, como insistem fazer há mais de 70 anos, no final do dia, fazem exactamente aquilo que Washington manda. Portugal tem sido um clássico exemplo disto. Por outro lado, temos agora aquilo a que chamam um surto epidémico, na sequência do qual a Organização Mundial de Saúde da ONU (instituições pelas quais tenho grande respeito) já declarou estado de emergência internacional de saúde pública. Tudo isto graças a uma epidemia a que chamam coronavírus, que já infectou mais de 8000 e matou algumas centenas, tendo a China como nação originária deste alastramento, e que tem causado grande reboliço aqui na Europa. Se me perguntarem - e compreendo e aceito perfeitamente o especialista em medicina que venha ler isto, considerar que quem o escreve é um grande grunho - acho que tudo isto não passa de uma trovoada que ao longe ribomba e que se silenciará num instante. Mas não pense o leitor que eu tenho aversão pela comunidade chinesa e que sou indiferente à população de Wuhan, isso eu não admito. Mesmo anteontem, não fossem os funcionários notificar-nos que o buffet estava prestes a ficar fora de serviço, eu e a minha mãe tínhamos almoçado no Restaurante Chinês aqui de Portalegre, sem a mínima reserva. A verdade é esta: todos os invernos há novas epidemias e gripes a serem noticiadas, e todas elas prometem ser a vinda de Satanás. Veio a gripe das vacas loucas, veio a gripe das aves, a gripe A, soaram alarmes com o Ébola (que em África é um caso verdadeiramente grave), depois ainda veio a Legionella, e agora temos esta... até que, em breve, se deixe de falar nela porque a estória já foi esgotada e esmifrada, precisamente como sucedeu com as outras epidemias mencionadas. A comunicação social precisa de vender notícias e as farmácias precisam de vender medicamentos, e para que a máquina rode há que lhe dar gás, e nada comum a ambos os domínios da sociedade pode vender tanto como uma epidemia ocasional. É uma parceria. Eu aprendi a não confiar muito nos periódicos alarmes de gripes e epidemias porque sei o que sectores de saúde e muita comunicação social - e a Igreja já agora - disseram do HIV nos anos 80. Qualquer epidemia deve ser enfrentada sem medo nem alarmes desnecessários. Quando a histeria suplanta a razão, é aí que devemos temer. Que a China contenha o surto, que cá na Europa, um continente onde existem condições de saúde e higiene incomparáveis, continuaremos a viver os nossos dias na maior normalidade... pelo menos assim é que devia ser.

Fora do mundo, cá por casa, na República Portuguesa, também tem havido muita confusão deliberada. Ora é a novela da deputada Joacine (que se revelou uma triste política) com o LIVRE, ora são as bacoradas ocasionais proferidas pelo deputado André Ventura, e a militância assumidamente nazi que o segue. E enquanto Ventura dá tudo por tudo para se assemelhar ao maior imbecil do mundo, não tendo respeito por nada ou ninguém, nem se quer por Portugal, a República vai assobiando para o lado, achando que é só pose, ou que não devemos leva-lo a sério. Se bem me recordo, essa foi precisamente a mesma estratégia usada para encarar Trump ou Bolsonaro antes de estes chegarem ao poder. Também a filha do antigo Presidente de Angola tem dado muito tema de conversa, uma vez que - sem nenhuma surpresa da minha parte - há suspeitas que ela seja uma criminosa financeira do mais alto nível. É estafante, e mais estafante se torna quando sentimos (entenda-se eu) o dever de ouvir o comício do José Miguel Júdice (juro que um dia destes lhe dedico um texto), semanalmente, na SIC. Eu ouço-o para estar a par, claro, daquilo que vai na cabeça da Direita conservadora e reaccionária de Portugal, e deixem-me dizer que é horrivelmente fascinante. E por falar em Direita, também as novelas da guerra do poder que tem tido lugar, neste mês, no CDS e no PSD, têm sido, apesar de previsíveis, deveras hilariantes e dignas de objecto de entretenimento. O Francisco Rodrigues do Santos, alias Chicão, apresenta-se como o novo macho alpha da política portuguesa, prometendo uma Nova Direita que cortará todas as cabeças da hidra da Esquerda portuguesa. Quanto a mim, ficarei na primeira fila assistindo à sua épica e valorosa aventura. E enquanto tudo isto acontece, tem havido a ocasional agressão, o recorrente homicídio, e as tensões raciais erguem-se, tímidas, uma vez por outra. Este mês tem sido tudo, menos entediante.

E no turbilhão de toda esta massa de acontecimentos, eu paro, os meus olhos limitam-se a tentar observar, a tempo real, os fenómenos humanos que estão em andamento, e aquilo que eu julgo observar não é reconfortante. Sinto os humanos cederem, lentamente, às promessas de ordem e alegada segurança, em troca da sua liberdade. Poderão dizer-me que eu não devo viver na ilusão de saber o que é melhor para as pessoas. Embora considere que isso não é argumento, entendo perfeitamente essa resposta, todavia, falamos de liberdade, e não autorizo ninguém a vender a minha liberdade em troca da sua própria ordem ou segurança. Em Portugal, uma nação que está no pódio dos países mais pacíficos e tranquilos do mundo (e não sou eu que o digo, são as agências internacionais especialistas no assunto), tenta-se vender a ilusão de que a violência enche as ruas de sangue, como se em São Paulo estivéssemos, e que nós próprios nos afogamos nesse sangue, e que a única salvação do afogamento será se recuperarmos a tradição dum Portugal totalitário e repressor, encabeçado por um novo Chefe, um novo Salvador da Pátria. A tragédia de tudo isto é que há cidadãos a comprar esta ilusão. Compram ilusões como se compra ópio. São aquilo que podemos chamar de hipocondríacos políticos. Nas ruas, tem sido difícil encontrar ousadia em sonhar com maior liberdade, com intuitos revolucionários, com aspirações por um mundo sem messias, profetas, deuses ou demónios. 

Tudo isto não passa de pensamentos que eu submeto no meu Pensatório, para que um dia não enverede na desgraça de os deixar cair no Oblívio.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A Década ainda não Terminou!

Venho um pouco tarde, mas melhor tarde que nunca. A década ainda não acabou. Apesar do que tem sido muita da opinião pública difundida, a segunda década do Século XXI do 3º Milénio, do Calendário Gregoriano, ainda não findou e só findará no dia 31 de Dezembro deste ano, 2020. 

Já ouvi e li que o tempo é um conceito abstracto, que a sua medição é um aspecto muito relativo, contudo, o calendário que a nossa sociedade segue não é uma coisa nem outra. Um calendário é um sistema de medição, preciso, com regras matemáticas, e cuja utilidade - que muitos a apregoam como mera formalidade abstracta - serve a nossa orientação no ciclo dos dias e dos tempos. Há vários milénios - desde as invenções dos modelos matemáticos, na Babilónia e no Egipto, 3000 anos antes do nascimento de Jesus Cristo, de acordo com o presente calendário - que os calendários são utilizados para servir tais propósitos. Por conseguinte, a Humanidade já conheceu uma miríade de calendários, maior parte deles não sendo utilizados por nenhuma sociedade dos nossos dias. Mas que seja incidido o foco no calendário que utilizamos. 

O Calendário Gregoriano - seguido em quase todo o mundo, com notáveis excepções para a China e certas sociedades islâmicas - entrou em vigor há quase 438 anos, por decreto do Papa Gregório XIII. Antes deste calendário, vigorava na Europa o Calendário Juliano, proposto por Júlio César (46 anos antes do nascimento de Jesus Cristo segundo o nosso calendário) e definido por astrónomos e matemáticos helénicos, entrando em vigor no ano 709 AUC (que significa Anno Urbis Conditae, ou seja, 709 anos desde a fundação da Cidade de Roma), de acordo com o Calendário Juliano, (45 a.C. de acordo com o Gregoriano). O Calendário Juliano, por sua vez, é uma reforma do Calendário Romano usado durante os primeiros séculos de Roma. Apesar do leitor mais atento já ter reparado, convém frisar que aquando da entrada em vigor do Calendário Gregoriano, as nações que assim o adoptaram imediatamente, como Espanha, Portugal ou a República de Veneza, iniciaram o calendário no ano 1582 (logicamente, o número de anos, por convenção, desde o nascimento de Cristo). Fazendo uma ressalva, confesso que este não é, de todo, um calendário que goste. Considero o Calendário Juliano (isto é, a contagem dos anos desde a fundação de Roma) muito mais significativo, devido à herança positiva que a cultura helénica-romana deixou à Humanidade, ou até mesmo o Calendário da Revolução Francesa [adoptado nos territórios de França entre 1792 (I) e 1805 (XIV)] que eliminou qualquer elemento religioso ou monarquista do calendário, substituindo-os por elementos naturalistas. Mas não é isso que aqui está em discussão.

Fazendo este muito oportuno enquadramento ao Calendário Gregoriano, é altura de explicar, finalmente, porque é que a década ainda não terminou. A razão primeira para isso é que nunca houve tal coisa como o ano 0. Os anos marcam, geralmente, o aniversário de algo ou alguém. O Juliano celebrava o aniversário de Roma, o Gregoriano celebra o aniversário de Jesus Cristo (ainda que este, também segundo o calendário, tenha nascido à meia-noite do dia 25 de Dezembro). Como tal, a transição da Era velha para a Era nova, no calendário, é feita do ano 1 a.C. para o ano 1 d.C [ou AD (Anno Domini) se for preferível]. Não havendo ano 0, significa que a primeira década da era Depois de Cristo foi do ano 1 até ao ano 10, e a segunda década foi do ano 11 até ao ano 20, e assim sucessivamente. E porquê? Bem, é bastante simples, a definição de década é "período de 10 anos", e como tal, no calendário, não poderá haver uma década que tenha mais nem menos. Se aceitássemos a premissa de que entrámos numa nova década e que, portanto, a década passada foi do ano 2010 até ao ano 2019 - e porque já está mais que sabido que não há coisa tão absurda como ano 0 - então a primeira década AD teria de ter compreendido apenas os anos 1 a 9, para a segunda década começar no ano 10. Ora tal é impossível do ponto de vista matemático e semântico porque isso seriam só 9 anos, não seria uma década. Para chegar a esta conclusão não é preciso muito, na verdade, é só puxar um bocadinho pela massa cinzenta, para não falar que, obviamente, não estou aqui a descobrir a pólvora. Desde os observatórios astronómicos, passando pelos historiadores, indo até à Wikipedia, afirmam o mesmo: a nova década iniciar-se-á em 2021. Tem tudo uma lógica - um milénio é composto por 10 séculos, um século é composto por 10 décadas, uma década é composta por 10 anos, um ano é regulado por uma translação completa da Terra em torno do Sol: 365 dias, ou 366 num ciclo quadrienal. Nada há aqui de abstracto ou relativo, é semântica e Matemática que todos os dias convenientemente usamos, e que não devemos deturpar por meros caprichos. E atenção, irónico é que quem isto escreve é um autêntico nabo em Matemática.  Da mesma forma que se afirma que a década ainda tem mais um ano de duração, também o último milénio, assim como o Século XX, terminou em 2000, e não no ano em que nasci, pelas mesmas razões já expostas. Foi aliás, com esta polémica que surgiu há mais de 20 anos, que a discussão deste assunto foi primeiramente trazida à mesa.

É também óbvio que este assunto não mata nem dá vida a quem quer que seja. Há questões de maior importância, contudo, julgo importante que esta verdade seja dita, e a razão para a facto da opinião pública ter esta convicção - em boa parte culpa dos Media, por outro lado por culpa da influência mundial dos EUA - reside no enorme desconhecimento dos assuntos historiográficos por parte das pessoas. As pessoas celebram o calendário sem terem grande consciência daquilo que celebram. Paciência. Não é grave. Só na última semana têm acontecido coisas piores...

sábado, 14 de dezembro de 2019

Desmistificações do Marxismo Cultural

Em Defesa do Intelecto

O tema do marxismo cultural chegava perfeitamente para uma tese de doutoramento, quer seja sobre as suas origens, quer seja sobre o impacto que a ideia tem na Extrema-Direita dos nossos dias (ou Alt-Right, se for preferível). A pessoa, não familiarizada com o específico conceito, tem toda a legitimidade para se achar confusa com uma equação desta natureza, que junta Direita e Marxismo. A realidade é que foram movimentos reaccionários que deram vida ao conceito. Mas qual é o seu significado?

Como digo, um estudo colossal a propósito disto poderá um dia ser feito, mas muitas introduções já foram feitas, e para lá do mar obscuro de mistificações, já muita luz foi incidida sobre o assunto. Há um artigo conciso, escrito para o jornal inglês The Guardian há quase cinco anos, autoria de Jason Wilson, que pode iniciar-nos no conceito. Marxismo cultural é, portanto, uma teoria da conspiração - quero afirmar que, a este respeito, há aquelas que têm fundamentos, e há outras que não têm um único, como é esta exemplo - que afirma que existe uma conspiração mundial, promovida por marxistas, com o objectivo de minar a civilização ocidental, chamando-nos Wilson à atenção para o facto de que esta teoria da conspiração grosso modo envolve sempre a participação dos judeus como sendo esses marxistas conspiradores. Não o afirmo só porque Wilson o afirma. Eu próprio tive oportunidade, inúmeras vezes, de constatar a existência dessa crença, quer seja nas mirabolantes secções de comentário dos jornais, no Facebook, ou até em determinado conteúdo publicado no YouTube. Isso para não falar dos inúmeros sites e blogs dedicados a garantir a continuidade futura desta teoria. A procura na Internet é rápida e simples.

Indo ao cerne da questão, Wilson diz-nos que os antecedentes directos desta teoria remontam ao início do século passado. Segundo ele (e devo dizer que juntando o puzzle tem todo o sentido) a Alt-Right forjou o conceito a partir da seguinte circunstância histórica: "Quando a revolução socialista falhou em materializar-se para lá da União Soviética [eu digo que nem aí se materializou, mas isso é outra história], pensadores marxistas como Antonio Gramsci e Georg Lukacs [nomes que neste blog não são estranhos] tentaram explicar porquê. As suas sugestões foram que a cultura e a religião enublaram o desejo do proletariado por revolta, e que a solução passaria pelos marxistas que fariam a 'longa marcha pelas instituições' - universidades e escolas, administração governamental e media - para que os valores culturais fossem transformados desde o topo" [trad. própria]. Desde aqui, Wilson leva-nos até aos intelectualmente produtivos tempos da Escola de Frankfurt (que surgiu como resposta duma Nova Esquerda, aos três fenómenos políticos internacionais da sua época, a Grande Depressão nos EUA, o Fascismo na Europa, e o Totalitarismo na URSS, sinteticamente falando), na qual os seus académicos teorizaram que "a chave para destruir o capitalismo seria fazer uma mescla de Marx e Freud, uma vez que os trabalhadores não estavam só oprimidos economicamente, mas arregimentados ordeiramente através da repressão sexual e outras convenções sociais. O problema não era só o capitalismo enquanto sistema económico, mas também a família [no que à sua concepção tradicional e abraâmica concerne], hierarquias de género, sexualidade normal [entenda-se normatividade exclusiva da heterossexualidade] - em suma, toda a panóplia de valores tradicionais ocidentais" [trad. própria, Wilson]. 

Convém explicar que, aquando da ascensão de Hitler e do III Reich, Max Horkheimer, Herbert Marcuse e Theodor Adorno - citando apenas alguns entre os proeminentes da Escola de Frankfurt - tiveram de rapidamente abandonar a Alemanha - pois não só qualquer pensamento marxista como também o simples facto de ser judeu, ou ter descendência de judeus como era o caso dos três, era suficiente para justificar a encarceração e liquidação - e instalaram-se nos EUA, em New York, local para onde transferiram o Instituto para Pesquisa Social, a Academia dos frankfurtianos. E é neste ponto que tudo começa! Os indivíduos que desenvolveram esta teoria da conspiração afirmam que, uma vez a Escola de Frankfurt estando instalada nos EUA, minaram as instituições norte-americanas, a todos os níveis, desde as universidades até ao cinema de Hollywood, promovendo e instaurando, nas sombras, ideário que tinha como objectivo "destruir valores cristãos tradicionais e liberdade empresarial", e tal ideário circunscreve-se ao "feminismo, multiculturalismo, direitos gay e ateísmo" [trad. própria, Wilson]. Devo neste ponto chamar atenção para a tremenda ignorância dos promotores desta teoria, cujo objectivo nunca foi olhar para a realidade como ela é, mas sim, desenhar um quadro maquiavélico de conspiração mundial perpetuada pelos defensores das ideias antagónicas às posições totalitárias dos fascistas. Vejamos: apesar de ser verdade que os valores há pouco citados ganharam enorme poder de reivindicação, durante a Contracultura dos anos 60 (com o esmagador movimento dos Direitos Civis e do desarmamento nuclear), nenhum deles é uma invenção do Século XX. O Feminismo foi um conceito de igualdade de género, fundado no Século XIX, pelo socialista utópico Charles Fourier. O multiculturalismo, visto enquanto fenómeno positivo, já tem largos séculos, sendo muito difícil localizar o seu alvor - não obstante ter ganho grande dimensão com os séculos XVIII e XIX. Os direitos para a homossexualidade, enquanto surgimento político, remontam ao pensamento hedonista dos iluministas radicais - como Rousseau - tendo sido a Revolução Francesa (1789) o primeiro fenómeno histórico a entrar em tais domínios. O ateísmo remonta, pelo menos, até à Grécia Antiga, tendo ganho os contornos argumentativos dos nossos tempos, através de inúmeros pensadores, quer socialistas, anarquistas ou iluministas, no Século XIX. Em todo caso, é totalmente verdade que a visão neo-marxista da Escola de Frankfurt promoveu tais premissas no Século XX. Aos frankfurtianos há que agradecer a riqueza científica e argumentativa que trouxeram à mesa da defesa de tais direitos, assim como sendo um dos responsáveis pela aurora da New Left (Nova Esquerda), todavia, a ideia de que tudo fazia parte dum plano maquiavélico, por parte dum punhado de intelectuais, para subverter a ordem mundial, é alucinante. Wilson, no seu artigo, coloca a seguinte proposição na mesa que, quanto a mim, somente no campo da Lógica, faz desmoronar qualquer aspiração (por parte dos desgraçados que inventaram a rocambolesca teoria, claro) da veracidade do marxismo cultural: "Se as faculdades humanísticas estão realmente engendradas para lavar o cérebro dos estudantes a aceitarem os postulados da ideologia da extrema-esquerda, a composição dos parlamentos ocidentais e presidências e o sucesso tonitruante do capitalismo corporativo sugerem que eles estão a fazer um impressionante mau trabalho. Quem quer que enxergue as últimas três décadas de política vai considerar bizarro que alguém possa interpretar tal como o triunfo de uma esquerda omnipotente" [trad. própria, Wilson].

Sobre este assunto, Wilson chama-nos à atenção para outro aspecto que, para além de eu achar pertinente, também acho sombrio. A lógica do forjamento e aproveitamento do falso Protocolo dos Sábios de Sião - documento congeminado por proto-fascistas, que justificou a perseguição do Nazismo aos judeus, que falava duma conspiração mundial dos judeus para subverter o Mundo - é similar ao forjamento desta teoria de marxismo cultural. E a primeira teoria tresloucada está associada com a segunda. Ambas implicam anti-semitismo. Ambas propagam o medo do Anticristo, que, efectivamente, não existe. Tudo o que existe são tentativas do mais absoluto Totalitarismo fazer vingar a sua retórica e praxis. Tudo o que existe é a tragédia a pairar nestas cabeças, repelentes à própria intelectualidade, vendo o mundo a transformar-se, apercebendo-se que o medo do Inferno é cada vez menos vivo. Vendo que o controlo sobre os povos da Terra está cada vez mais distante do pulso dos seus desígnios tirânicos e inquisitoriais (embora os povos da Terra estejam sujeitos a outro tipo de circunstâncias, não conspirativas, palpáveis sim, orgânicas, natureza do próprio sistema de produção económica). E quem são eles? Eles têm rosto e nome! Ao contrário da ordem de pensamento deles, não joga aqui nenhuma ciência oculta. Um deles é o guru da Alt-Right, e um dos maiores divulgadores desta teoria. O seu nome é Olavo de Carvalho.

Em Defesa da Cultura

O Olavo, nascido no Brasil, é um pobre frustrado no meio intelectual. Nunca produziu obra académica significativa. Nunca foi convidado para uma grande universidade. Vive da sua influência junto dos seus seguidores, como é exemplo o actual Presidente do Brasil. Vive também do vilipendiar de grandes nomes da Ciência, como Dawkins, Hawking, Kinsey, Einstein, Darwin ou Newton. Por sinal, o Olavo considera que os defensores da proposição de que a Terra é plana e não redonda (porque ainda há crackpots deste estilo) têm razão em muitos pontos - mais um hino à sua santa ignorância. Vive também da astrologia e da miríade infindável de disparates escritos e ditos... Enfim, em tempos um jovem comunista arrependido (imagine-se onde já ouvi eu isto), que sucumbiu aos deleites da cidade de Richmond, na Virginia, EUA.


Ora, a pessoa leitora, na eventualidade de aqui ter chegado, perguntar-se-á, para quê tamanha hostilidade da minha parte, para com esse senhor já idoso? Por tudo o que já foi aqui escrito. É suficiente... e, todavia, por mais uma coisa. Para o Olavo, a Esquerda só não se combate com o cárcere porque tal faria de nós esquerdistas mártires, o que lhe seria inconveniente. O Olavo, após uma vida de raciocínio a motor de carvão, entendeu que a Esquerda se deve combater mediante a simples e rudimentar humilhação, para que nem os passeios sejam abrigo seguro para nós, esquerdistas. O plano de génio do Olavo é o princípio do ódio. Promover o ódio para que o hipotético esquerdista nunca mais queira aparecer à rua. É só impressão minha ou este texto tem mesmo um fio condutor?

Bem, acontece que muitos já foram alvo deste indivíduo, que nunca se dignou a apresentar-se em debate público (wonder why). Um grupo de quatro rapazes foram há bem pouco tempo vilipendiados por um insignificante qualquer, nomeado para um lugar qualquer ligado à cultura, pelo Capitão Bolsonaro. Acontece que as críticas que a pobre alma expressou - devo avisar que o coitado é compositor - já tinham sido papagueadas em ata do evangelho pelo mestre Olavo. E de que falo eu? Falo das atrocidades ditas sobre os Fab Four e o Theodor Adorno.

De marxismo cultural já está tudo dito (na generalidade), mas o que diz o Olavo especificamente sobre a improvável relação entre o músico e sociólogo frankfurtiano, Adorno, e a histórica banda dos anos 60, The Beatles? Já se está a ver onde é que o raciocínio desta gente vai dar... Pois bem, o Olavo afirma que John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr eram analfabetos musicais. Pela parte que lhes toca, os álbuns Sgt. Pepper's (1967) e White Album (1968), per se, irão perdurar na História da Humanidade muito para lá do Olavo. Da qualidade e complexidade musical destas duas obras nem falo, que nem o notável e por vezes obtuso Hans Keller se propôs a dilacera-las, na altura. O McCartney nem se vai dar ao trabalho de responder, porque a primeira coisa que ele perguntaria seria "Quem é o Olavo de Carvalho?", e claro, está ocupado em dar concertos fantásticos constantes na flor dos seus 77 anos de idade. Portanto, tudo o que um jovem como eu pode fazer, que adora a música que os Beatles e todo o movimento da Contracultura nos trouxeram - e que o Olavo classifica como apelo explícito ao satanismo -, e que recusa a ideia de que a criação cultural e artística deve seguir um Pensamento Único, é expor ao ridículo os raciocínios ilógicos de broncos como o Olavo. Explicando sinteticamente o que o indivíduo defende a este respeito, ele afirma que, pelo facto dos Beatles serem analfabetos musicais, foi Theodor Adorno, na sua suposta cruzada frankfurtiana para subverter a ordem mundial, que compôs todos os álbuns da autoria dos Beatles, entre 1960 e 1970, de modo a incutir os tais valores conspiratórios no cânone da cultura popular ocidental. Nas suas palavras, "Se você pega toda essa música drogada que se espalhou pelo mundo, desde a década de 60, tudo isso foi a Escola de Frankfurt, gente. Woodstock foi a Escola de Frankfurt. LSD é a Escola de Frankfurt. Rock paulera é a Escola de Frankfurt. Tudo o que veio na Indústria da música de massas - eles são a favor da Indústria da música de massas? Não, eles falam horrores dela, e ao mesmo tempo trabalham para ela - que é isso aí: Dialéctica Negativa, destruição, destruição, destruição". O que dizer disto? Nem Olavo alguma vez ouviu falar de George Martin (o quinto Beatle), nem algum dos Beatles se quer alguma vez conheceu Adorno pessoalmente. Portanto, o Olavo pode atribuir a genialidade a Adorno, de ter composto toda a música dos Fab Four, mas o Adorno - não obstante ser um sociólogo brilhante - não fez tal proeza. As letras foram da autoria de Lennon e de McCartney, a produção musical foi do George Martin, e a composição foi de toda uma equipa, que não se circunscreve somente aos Fab Four, que durante uma década deu a vida pela Música. Lennon, por exemplo, acabou mesmo por, literalmente, dar a vida às causas humanitárias em que acreditava. E quanto ao facto do Olavo, para todos os efeitos, afirmar que Harrison mal sabia tocar guitarra, há uma coisa muito simples que se faz, como resposta a tão primária provocação: mete-se a tocar While My Guitar Gently Weeps. Tudo isto tem uma razão de ser: o Olavo nunca ouviu com atenção Beatles, ou outra banda da época para todos os efeitos, não sabe do que está a falar - o que também não é novidade - e toda esta palhaçada tem um único fim político que, de acordo com a ordem de ideias deste texto, já é muito claro.

Quanto à questão da Dialéctica Negativa, esta é uma das principais teorias de Theodor Adorno. Eu confesso que nunca li o texto de Adorno, datado de 1966 (embora queira muito lê-lo, apesar da dificuldade em neste momento encontrar o texto disponível), contudo, garanto que o Olavo também não o leu, antes tresleu. Dialéctica Negativa não implica um processo filosófico de destruição de tudo o que existe, é antes uma oposição ao formato positivo da Dialéctica de Hegel. Em suma, o Olavo argumenta que, usando a teoria da Dialéctica Negativa, entre muitas coisas como o Cinema e a Literatura, os frankfurtianos usaram a Música dos anos 60 para minarem a cultura ocidental com o Feminismo, o Ateísmo, a oposição ao Capitalismo, e entre outras coisas tão elementares como a esperança na Ciência como fonte de progresso, aquilo como ele e outros classificam como homossexualismo - como já anteriormente foi evidenciado. Bem, efectivamente, nada disto tem razão de ser, e não vale a pena chover mais no molhado.

Muito mais será escrito no futuro. Gostava que a Esquerda internacional se pronunciasse, em uníssono, a este respeito. Gostava que o Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda, por exemplo, se erguessem, gozando das plataformas das quais dispõem ao passo que eu, enquanto mero estudante universitário de 20 anos, não disponho. A literatura que poderia ser lançada para expôr esta gente ao ridículo, não só pela natureza das declarações desta gente que, a olhos vistos, ganha uma influência cada vez maior, mas, sobretudo, porque o próprio marxismo cultural tem de ser desmistificado como uma farsa e um ardil sinistro, congeminado por aqueles que eu classifico como os inimigos da Civilização, teria um potencial de esclarecimento intelectual, avassalador para a Alt-Right. Imaginemos um mundo onde esta gente reinasse. Quantos séculos iria a Humanidade regredir? Não é só a Esquerda, ou os Direitos Humanos, ou a livre criação artística e cultural, que são afectados pelo vingar deste ideário. O próprio Capitalismo - pelo menos na sua acepção libertária, social-democrata ou agnóstica, esquecendo a ala mainstream de neoliberais - está ameaçado, e os defensores do Capitalismo nem isto conseguem compreender, antes preferindo apontar lanças aos socialistas e comunistas. Imaginemos que também os liberais nos quisessem auxiliar nesta defesa da cultura e do intelecto. Poderei estar a ser demasiado sonhador, mas o nível de debate público poderia ser aumentado sevenfold. Nada poderá ser pior que um retorno da Teocracia e do Totalitarismo civilizacional. E é por isso que me sinto na obrigação de escrever isto. Lennon viveu por um mundo melhor, acabando alvejado, há 39 anos, e os seus famosos óculos ficaram inundados do seu sangue. Seria criminalmente vulgar se eu ignorasse esta farsa do marxismo cultural, ou se ignorasse a influência que o Olavo de Carvalho detém sobre o pensamento da Alt-Right, cada vez mais presente na política dos vários estados do mundo. Só no Parlamento português, há uma offspring dos seus pensamentos, e no CDS há toda uma ala meio marginal que segue o mesmo trilho. Quem me disser que não há motivos para a preocupação, para além de me tentar enganar, engana-se a si próprio. 

Aos que caminham entre este tipo de ideário, não peço que concordem comigo - advogar o Pensamento Único seria contraditório com as minhas ideologias -, peço só que definam aquilo de que a Humanidade precisa e, por favor, jamais ignorem a História. O Olavo, descaradamente, ignora-a.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Sexta-Feira Negra com os mamíferos

Se é verdade que o consumismo exausta os alicerces da sustentabilidade do Planeta, se é verdade que o alento para este mesmo consumismo é a própria dinâmica dos mecanismo de produção capitalista - onde a Economia é por natureza desregulada (apesar da Classe Dominante nos fazer transparecer a ideia de que, magicamente, o Mercado reorganiza as coisas, quando a História prova o contrário) -, e se é verdade que o proletário - ou, se o leitor preferir, o cidadão comum dos nossos dias - é intimado e organicamente obrigado a entrar nesta lógica de relações de poder e civilização, então todas estas verdades (assumindo que de facto o são) se afiguram tragicamente assustadoras quando vistas, em tempo real, numa moção de histeria e frenesim consumista.

Adianto já o que alguns poderão pensar, lendo esta alegadamente pedantesca frase: "Ah, aí vem o dono da moral, ladrando às pessoas aquilo que elas devem e não devem fazer! Deve ter a mania que é diferente." Pois bem, quanto à moral, não é uma 'virtude' que me assista, quanto às pessoas, elas que façam o que entendam (só espero que num futuro, próximo ou longínquo, não uivem surpreendidas com as consequências deste paradigma civilizacional em que vivemos), diferente, dumas formas sou, doutras nem por isso.

O ónus deste texto é, claro está, a Black Friday. Peço então ao leitor que imagine uma horda de mamíferos, galvanizados e frenéticos, à entrada dum supermercado, esperando, ou que as portas se abram, ou que lhes seja dada ordem para entrarem. É dada ordem, e a horda de mamíferos invade o local, atropelando, puxando, placando, berrando, sendo que em certas latitudes do globo brigam e esmurram, inclusive. Em pouco tempo, o stock do supermercado foi encolhido, os mamíferos estão satisfeitos, e regressam mais ou menos ordeiramente para os seus habitats particulares. O rasto deixado por estes mamíferos difere, de local para local, país para país, continente para continente, havendo comportamentos para todos os gostos. Em algumas geografias, vídeos trazem-nos imagens impressionantes por parte destes mamíferos, em que os supermercados ficam do avesso, e alguns surgem aleijados, de mãos a abanar, enquanto outros saem satisfeitos do centro comercial, levando nos membros superiores coisas que, pouco tempo antes, nem se quer se tinham apercebido de que precisavam. Estes mamíferos são convocados pelo seu pastor, que se chama Saldo, e os grão-pastores do Saldo são senhores engravatados que, puxando os cordelinhos, mandam nisto tudo, inclusive no que sucede durante a Black Friday. O grande problema nisto tudo é que o mamífero em questão é o único racional: chama-se homo sapiens, e está no topo da cadeia alimentar. Nós somos mamíferos, e a Evolução da Espécies legou-nos a dádiva, através da Natureza, de com a nossa massa cinzenta fazermos coisas extraordinárias, inventos para lá da imaginação dos nossos ancestrais de há dez séculos. Mas a humanidade ainda teima em não ser mais que uma horda (altamente organizada e inteligente, é verdade) de mamíferos...

A Black Friday é nada mais que um mecanismo, que as grandes superfícies encontraram, para puxar a massa dos consumidores - outro termo tristemente usado para designar o cidadão - para as catedrais no mundo contemporâneo que são os centros comerciais, como uma vez disse, numa aula, a Professora Ana Isabel Buescu. Em remotos tempos, eram as catedrais o sítio de deambulação cultural da sociedade ocidental, hoje são os centros comerciais. Mudam-se os deuses, o objectivo mantém-se o mesmo. As pessoas são incitadas a comprar, a consumir, e acabam por adquirir muita coisa de que, na realidade, não precisavam. Quem perde é o bolso do cidadão. Quem ganha é o magnata, rindo-se a bandeiras despregadas do quão fácil é ludibriar esta horda de mamíferos. É consumismo por ordem velada, "Venham todos que nós temos aqui óptimos preços", e lá vão eles.

Nada disto é um apelo ao Minimalismo - embora também pudesse ser. É sim um apelo à sustentabilidade económica e ao Espírito Crítico. Quanto ao Minimalismo, eu próprio tento, quanto possível, ter aquilo de que estritamente necessito, embora sem radicalismos minimalistas ao ponto de transformar a minha vida num Ascetismo pegado, tendo em conta que eu sou um hedonista, e tal seria incompatível comigo. Defendo que o ser humano deve não só ter acesso, por direito, às suas necessidades básicas, mas também àquilo que lhe traz felicidade individual. Contudo, o que vemos na Black Friday é uma corrida desvairada a coisas supérfluas, que não trarão felicidade, e corrida essa guiada pela necessidade de consumo, accionada pela Classe Dominante. Tudo isto para não falar que esta coisa da Black Friday é simples mímica do que se começou a fazer nos EUA... E em cima disto, surgem as associações em defesa dos magnatas afirmar que o consumidor é inteligente e que não é manipulável. Se o consumidor fosse assim tão inteligente, ou tinha dado ouvidos à DECO, ou não trovejava pelos supermercados adentro como se o mundo estivesse nas iminências de acabar. 

É um atropelo de ansiedades sem necessidade nenhuma. E se para isto restarem dúvidas, consultem o YouTube e visualizem as milhentas de amostras deste comportamento admirável de mamíferos.

sábado, 9 de novembro de 2019

A Nightmare

The night was eerie and darkened by a starless sky. The trees, that decorated the threatening landscape, striked any observing eye, as if they were never kissed by a morning Spring, lacking of leaves, haunted by an aurea of long forgotten, immemorial times. Noises - whose endeavour to comprehend was fruitless - of an eerie kind, impresions, in the deep shadow of the forest, of slythering wraiths, which were frosting to the merrow the Walker in this dark scene, sounded as if they were ghosts of fallen souls, of a fiendish battle. Another sound was running through the windless air. The Walker found its source unknown, despite having the awful feeling it was blood travelling through veins and arteries. If, nearby, there were any animals, creatures, a mammal beast or reptile dragon of any sort, it did not seem likely, for the only noises heard were the above described (effortlessly so, for this realm was so mystical and obscure that mere phrases written aren't sufficient to draw a truthful picture), with exception for the steps of the walker's feet, echoing through the deathly space. The soil was rock and unruly dirt, sadly flowered by sporadic appearences of some grey grass. The sky did not look like sky, at all, for the clouded atmosphere could only signify that the sky itself had been split open by the deities who rule over the Universe. Fearful night reigned over this forsaken site.

The Walker journeyed deep into the forest, with his handsome features being turned to specter like ones, reflected by the icy and blackening mist, which grew thicker and thicker, hidding the surroundings from the Walker's scared blue eyes. He did not understand why he kept on walking forward, expecting to discover any hidden secret that could lie at the end of that directionless road. His breath expelled vapor, his skin trembled, his eyes moved side to side in its sockets, at warning to any ghastly encounter, that would surface amidst the overwhelming fog of icy hydrogen. The Walker looked up, searching for a star, a moon, a sign which would confirm that he was not yet taken to an unworldly place. He wished a hundred depressions, to being environed in such location, and by a condition, a will, he could not explain, his curiosity still drove his body on. The Walker could not say if he was a herd, insisting on advancing to the edge of the cliff, or a soul depressed, insisting to adventure on the limits of sanity. He tried to smell the air, the leaves, the mist, but all he felt, or sensed, was cold alienation from himself. He tried to hear more than eerie vibrations, but all he recieved was deafening silence. He then tasted the very matter his lips and tongue could blow or lick, desperate for something warm or familiar, but only absence he did kiss.

Only the trees knew for how long he wandered, walking a line he could not see. And then came to his sight a vision, which undoubtly was real: the source of the blood running sound - a river. A calm and motioning river like any other, cutting the road on which he had been wandering. The Walker stopped walking when he approached the margin of that river, observed and felt with all his being the waterly peace, contemplating on diving and letting himself be taken by that endless motion of life. However, before any resolve, in an instant, the mist softned, and, to his surprise, the walker saw a line of flame moving in the river. He quickly understood that the light was not in the river, and was, instead, a reflection of sky, above, which was now clean and cloudless. He beheld that track of light, travelling fiercely through the sky, illuminating the atmosphere. Then, another phenomenon, high in the sky, summoned his attention, for a big and shinning Moon was also visible near the horizon. The Walker moved to a better spot, leaning to a black trunk of a nearby tree, contemplating the wonder of light, forgetting, momentarily, the fireball that was moving, but the moments of peace were soon to be curbed.

All of a sudden, the fireball drew a arc in the sky and struck the Moon, incinerating it with violent fire. A beacon of destruction and chaos was lit in the peaceful darkness of the firmament, and despite the singular spectacle, for which the Walker had a front row sit, he felt terror, and all he wished was that all was just a dream... or a nightmare. A ferocious windstorm followed, as if the Cosmos had begun to spin at absurd velocity, and electric lights flashed in the sky - some were crimson red, others blindingly white. Even the river ceased its stoic cycle, tormenting its margin and the trees in proximity. The Walker decided to walk or stay still no more - it was time to run. He ran on the same straight line, amongst the now unstable trees, which had taken him to the site near the river. He reached the outer rim of the forest, moving against the very absurdity that could only characterize that hellish location. He stopped and gazed into the horizon, and what he saw frizzed his brain with fear and burned his eyes with hellfire: the moon, which, at that state, resembled the Sun, was engulfed in flame, and from it, comets were raining down, far on the edges of the planet. Armageddon was making its journey into the Earth.

Then, another phenomenon called for the Walker's attention. A beacon of solace, shinning on golden, materialized  in the middle of the ground. The Walker ignored what it meant or how it came to be, all he hoped was that it signified shelter and salvation from the calamity which was devastating the land. He rushed into the golden light, and while approaching it, he beheld a ark of gargantuan dimensions, made of pure gold, enclosed, toppled by two birds, next to one another, united by an open wing of each. Inscriptions of an unknown kind decorated the ark, and snakes, fashioning their devilish teeth, were present in the basis of the ark. The Walker, throwing all caution to the wind, proceeded to climb the very ark, desperate for protection, but no avail came from it. He was now standing on the ark's cover, all in plain gold, his eyes gazing at the astronomical spectacle, and all his hope had parted his mind. By now the only thing left was to wait. However, an undefining voice was heard, echoing through the chaos - a surprise how such voice could be heard amidst desolation of that kind -, summoning the Walker's attention, who was still standing over the ark, and he glanced, instead, at the very cover in which he stood still. The whispers - the voice - were, indeed, being brought by the ark, and words materialized at the Walker's feet: "Death is only the beginning". At that moments notice of such eerie phrase, a otherworldly explosion, an uproar of galactic proportions, filled the environment, just after the very Moon started crumbling down, in rivers of lava, falling on the very horizon, like a curtain call at a theater. The Walker closed his eyes, embracing himself. Armageddon had arrived.

He screamed, filling the moist of hot weather all over his body. He dared oppening his eyes. All was just a dream... or a nightmare, he did think. He looked around, in panic, and realised he was, still, in the same place where he had fallen asleep. His panic and desperation flew from his mind, rapidly, as if those were sentiments of another mind and another life.

An environment of obscurity covered his sight, once again, but a warm and familiar one. Terror had met its end. The room had regular dimensions. The wall was populated by a few paintings - some were surrealist replicas (such as Dali's Persistance of Memory), others contained political figures such as Marx, Nietzsche, Rousseau or Bertrand Russell, others were of rock paintings and musicians (Pink Floyd, Jim Morrison, Leonard Cohen, Beethoven, Holst) -, and a bookcase - full of Philosophy, Cosmology, History and Literature - was leaned imponently against it. The door to the corridor was closed, and the glass door to the balcony was partially open, permiting the soft breeze of a late night californian Summer to touch and float through the room. He rose his torso and set on a king-sized bed, watching the waving curtain, animated by the wind, entering through the balcony door, and then looked to his left, contemplating a book closed at his bedside table - Childe Harold's Pilgrimage, by Lord Byron. He reached out with his arm, not to grab the book - which would require him to turn on the light, and such would awake Michael, laid at his right -, but to grab a cigarette and light it on. Never did he do such thing - smoking at the middle of the sleep - but his nerves remained uneasy.

"Sunshine." Michael had awaken. "What are you doing?"

"What does it seem." He responded. "I'm just smoking a cigarette. Do you want me to turn it off?" He asked softly.

"Why would you? It's already lit. The matter is that you never smoke at the middle of the night." Michael said, with an inquiring face, looking at his lover's aspect.

"Everything's fine, Michael." He said, unconvincingly. "I was just thinking..."

"You're clearly troubled by something, Dennis." Michael approached himself to Dennis' side. "Are you telling me, or am I allowed to sleep?"

"Nobody's impinding you." Dennis replied, and, looking at Michael's piercing gaze, added in low tone. "I had a most eerie nightmare you wouldn't believe."

"You had a nightmare..." Michael smiled, faintly.

"Laugh all you want." Dennis spoke louder. "But it was really dreadful. There was a black forest, then there was a river, and then an enormous explosion which melted down the Moon."

"Sunshine, your dreams are more thrilling than some of my working days." Michael jested.

"I can only imagine." Muttured Dennis, extinguishing the cigarette. Michael laid his head against the pillow, readying his eyes to fall in his unperturbed sleep once more.

"I believe I saw the Ark of the Covenant." Dennis threw this information, expecting a dramatic effect from it. "And words appeared in there."

"Were those the directions for the Holy Grail's resting place?" Michael sarcastically spoke, with eyes shut still. Before Dennis could utter an answer of protest, in a mellow low toning voice, Michael added. "Look, sugar, I think you're troubling your mind with that damn book you're reading on. It might be too sickening for sweet blue eyes to look at." Michael said in a condescending way.

In a stage theater like manner, Dennis grabbed Byron's Pilgrimage. "Byron?" He waved the book. "What's wrong with romanticism?"

"It's not the Pilgrimage, thick head." Michael hit his own forehead with his palm. "Whatever Denny, I have to sleep. The city of San Francisco waits me tomorrow."

"Right, there shall be millions of fairies in attendance." Michael ignored Dennis' caustic irony, raised to kiss him goodnight, and laid back, pretending to be asleep again.

Dennis had one remaining troublesome thought, hoovering over his mind, concerning the ultimate chaos which he witnessed in his nightmare. He got out of bed, dressed only in his boxers, with the moonlight hitting his lean and ballet dancer like anatomy. He stared at the balcony, outside, well knowing that Michael was observing him.

"Do you think Mei and Saji are doing well?" Dennis' question had a shadow of concern, which himself could not explain.

"Doing just fine, those two. Gazing, over the edge, in the westernmost part of the Old Continent."

Dennis heard his lovers remark, as if they issued the most fundamental logic and common sense. He slightly opened the balcony door, feeling the soft wind of Summer, observing the nearby palmtrees, outside in the street. He glanced at a closed book, marked in the middle, with contempt. Dennis wondered if it was really worth the endeavour, to continue to read it - words which were left by a specter of obscurantism -, Dennis thought. Product of the twisted mind of Julius Evola.

Dennis rather decided to observe, instead, the horizon. The full Moon partially illuminated the nearby firmament, uncovering, in the dark of sky and stars, the small pieces of cloud, typical of the West Coast, that suspended in the air here and there. Was anything worse than sleeping, and not having domination over one's thoughts, in this he was thinking.

Almost in silent voice, he blew to the quiet and silent night, reanimating, in his head, the sight of a crumbling Moon and of a mystical ark, "Death is only the beggining..."

At that instant, a detonation of a flaming mushroom was about to craft a cancer on the very land, where the winds of Winter often blew, in the westernmost part of the New World.

Michael Maximiliano