terça-feira, 18 de junho de 2019

Recomendações Musicais neste Pride Month

Na estrada, em rota da celebração dos 50 anos das Stonewall Riots, deixo aqui uma "rebuscada" recomendação musical, dentro da temática da Luta LGBT por uma sociedade igual entre todos os seres humanos. Criei esta playlist há poucos meses, e esta poderá ter algumas inclusões consideradas controversas por alguns. Tal deve-se ao facto de uma pequena parte das músicas terem um significado ainda hoje muito subliminar, sobre as quais eu tomei minhas próprias liberdade de inclui-las numa playlist em que um dos conceitos dominantes é a homossexualidade (e as suas lutas internas e/ou externas). Outro pequeno conjunto, ainda, das músicas presentes, está presente por se terem tornado hinos adoptados pela gay subculture. Também devo referir que esta é uma playlist orientada, essencialmente (salvas excepções), no Rock Alternativo - feita por mim, não poderia ser de outra forma, uma vez que aquilo que foi feito na onda Pop, dentro desta temática, nunca teve grande consideração pela minha pessoa. Por último - e porque faz sentido - boa parte dos músicos autores destes temas não são heterossexuais... e olhando para as datas, pode ser que haja aqueles que tomem a liberdade de constatar que estas não são "novas questões do século XXI". Sobretudo, esta é uma playlist sobre amor. E são questões antigas tornadas novas.

Under Pressure - Hot Space (1982) - Queen & David Bowie

This Charming Man - The Smiths (1984) - The Smiths

Walk On The Wild Side - Transformer (1972) - Lou Reed

Arnold Layne - The Piper at The Gates of Dawn (1967) - Pink Floyd

Boys Keep Swinging - Lodge (1979) - David Bowie

Cemetry Gates - The Queen is Dead (1986) - The Smiths

Billy Budd - Vauxhall and I (1994) - Morrissey

Average Guy - The Blue Mask (1982) - Lou Reed

I Want to Break Free - The Works (1984) - Queen

Queen Jane Approximately - Highway 61 Revisited (1965) - Bob Dylan

Ziggy Stardust - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (1972) - David Bowie

Andy's Chest - Transformer (1972) - Lou Reed

Don't Make Fun of Daddy's Voice - You Are The Quarry (2004) - Morrissey

... o corpo é que paga - Anjo da Guarda (1982) - António Variações

The More You Ignore Me, The Closer I Get - Vauxhall and I (1994) - Morrissey

Changes - Hunky Dory (1971) - David Bowie

What Difference Does it Make - The Smiths (1984) - The Smiths

Last Goodbye - Grace (1994) - Jeff Buckley

Don't Stop Me Now - Jazz (1978) - Queen

Heavenly Arms - The Blue Mask (1982) - Lou Reed

Dracula Teeth - Everything You've Come to Expect (2016) - The Last Shadow Puppets

Handsome Devil - Hatful of Hollow (1984) - The Smiths

Canção de Engate - O Melhor de António Variações (1997) - António Variações

Spring-Heeled Jim - Vauxhall and I (1994) - Morrissey

Rape Me - In Utero (1993) - Nirvana

Take Me to Church - Hozier (2014) - Hozier

Rock 'N' Roll Suicide - The Rise and Fall of Ziggy Stardust (...) (1972) - David Bowie

The Blue Mask - The Blue Mask (1982) - Lou Reed

Bohemian Rhapsody - A Night at The Opera (1975) - Queen

I Know It's Over - The Queen is Dead (1986) - The Smiths

Word on a Wing - Station to Station (1976) - David Bowie

Miracle Aligner - Everything You've Come to Expect (2016) - The Last Shadow Puppets

Cowboys are Frequently Secretly Fond of Each Other - Lost Highway (2009) - Willie Nelson

Make Up - Transformer (1972) - Lou Reed

The Passenger - Lust for Life (1977) - Iggy Pop

Five Years - The Rise and Fall of Ziggy Stardust (...) (1972) - David Bowie

Suedehead - Viva Hate (1988) - Morrissey

Everyday is Like Sunday - Viva Hate (1988) - Morrissey

Jealous Guy - Imagine (1971) - John Lennon

Perfect Day - Transformer (1972) - Lou Reed

Moonage Daydream - The Rise and Fall of Ziggy Stardust (...) (1972) - David Bowie
  • sugestão para ouvir, em alternativa, a versão ao vivo dos Last Shadow Puppets, em 2016.
There is a Light that Never Goes Out - The Queen is Dead (1986) - The Smiths

How Soon is Now? - Hatful of Hollow (1984) - The Smiths

"Heroes" - "Heroes" (1977) - David Bowie

terça-feira, 11 de junho de 2019

Recomendações Cinematográficas para este Pride Month

A propósito do mês de Junho ser o mês internacional de celebração dos direitos LGBT - até porque este ano se comemora meio século desde as Revoltas de Stonewall - aqui deixo, ordenados, segundo a minha apreciação, do melhor até ao menos bom, todos os filmes que já visualizei cuja temática central (ou uma das temáticas centrais) é a homossexualidade. Não ligue muito o leitor à ordem dos filmes - mas também pode ligar, se assim entender -, isto no fundo é nada mais que uma recomendação cinematográfica. Devo dizer que os primeiros 21 são filmes que eu considero serem, de facto, de uma qualidade enorme. Quanto aos últimos dois filmes na lista, quem nunca os viu, sinceramente, não perdeu nada. Por último, o nome, em itálico, entre parêntesis rectos, é o realizador. A classificação, entre traços, é do IMDb. Os nomes no final, são os actores principais, com os protagonistas sublinhados.

1 – Call Me by Your Name (2017) [Luca Guadagnino] – 8.0 - Timothée Chalamet/Armie Hammer

2 – A Single Man (2009) [Tom Ford] – 7.6 – Colin Firth/Nicholas Hoult/Julianne Moore

3 – Kinsey (2004) [Bill Condon] – 7.1 – Liam Neeson/Laura Linney/Peter Sarsgaard

4 – Brokeback Mountain (2005) [Ang Lee] – 7.7 – Heath Ledger/Jake Gyllenhall

5 – Milk (2009) [Gus Van Sant] – 7.6 – Sean Penn/James Franco

6 – Wilde (1997) [Brian Gilbert] – 6.9 – Stephen Fry/Jude Law

7 – Gods and Monsters (1998) [Bill Condon] – 7.5 – Ian McKellen/Brendan Fraser

8 – Philadelphia (1993) [Jonathan Demme] – 7.7 – Tom Hanks/Denzel Washington

9 – Pride (2014) [Matthew Warchus] – 7.8 – Ben Schnetzer/Bill Nighy/Imelda Staunton/Andrew Scott

10 – My Own Private Idaho (1991) [Gus Van Sant] – 7.1 – River Phoenix/Keanu Reeves

11 – Maurice (1987) [James Ivory] – 7.7 – James Wilby/Hugh Grant/Rupert Graves/Denholm Elliott

12 – Holding The Man (2015) [Neil Armfield] – 7.3 – Ryan Corr/Craig Scott

13 – Prayers for Bobby (2009) [Russell Mulcahy] – 8.1 – Ryan Kelley/Sigourney Weaver

14 – Those People (2016) [Joey Kuhn] – 6.4 – Jonathan Gordon/Jason Ralph

15 – J’ai Tué ma Mére (2009) [Xavier Dolan] – 7.5 – Xavier Dolan/Anne Dorval/François Arnaud

16 – Alex Strangelove (2018) [Craig Johnson] – 6.4 – Daniel Doheny/Antonio Marziale/Madeline Weinstein

17 – Love, Simon (2018) [Greg Berlanti] – 7.7 – Nick Robinson/Jennifer Garner/Keiynan Lonsdale

18 – The Death and Life of John F. Donovan (2018) [Xavier Dolan] – 6.1 – Kit Harington/Jacob Tremblay/Natalie Portman/Ben Schnetzer

19 – Handsome Devil (2017) [John Butler] – 7.1 – Nicholas Galitzine/Fionn O’Shea/Andrew Scott

20 – Little Ashes (2008) [Paul Morrison] – 6.5 – Robert Pattinson/Javier Beltrán/Matthew McNulty/Marina Gatell

21 – Tom of Finland (2017) [Dome Karukoski] – 6.8 – Pekka Strang/Lauri Tilkanen

22 – Boy Erased (2018) [Joel Edgerton] – 7.0 – Lucas Hedges/Joel Edgerton

23 – Stonewall (2015) [Roland Emmerich] – 5.1 – Jeremy Irvine/Jonny Beauchamp/Jonathan Rhys Meyers

24 – God’s Own Country (2017) [Francis Lee] – 7.7 – Josh O’Conner/Alec Secareanu

25 – The Favourite (2018) [Yorgos Lanthimos] – 7.7 – Olivia Colman/Rachel Weisz/Emma Stone/Nicholas Hoult

26 – Jongens (2014) [Mischa Kamp] – 7.4 – Gjis Blom/Ko Zandvliet/Ton Kas

27 – The Happy Prince (2018) [Rupert Everett] – 6.3 – Rupert Everett/Colin Morgan/Colin Firth

28 – Weekend (2011) [Andrew Haigh] – 7.7 – Tom Cullen/Chris New

29 – Shelter (2007) [Paul Bettany] – 7.8 – Trevor Wright/Brad Rowe

30 – Kiss Me, Kill Me (2015) [Casper Andreas] – 4.8 – Matthew Ludwinski/Gale Harold

31 – Freak Show (2018) [Trudie Styler]  – 6.3 – Alex Lawther/Ian Nelson

32 – Tama hetki Kaislikossa (2017) [Mikko Makela] – 7.0 – Janne Puustinen/Boodi Kabbani

33 – Beach Rats (2017) [Eliza Hittman] – 6.4 – Harris Dickinson/Madeline Weinstein

34 – Moonlight (2016) [Barry Jenkins] – 7.4 – Ashton Sanders/Mahershala Ali

35 – Edward II (1991) [Derek Jarman] – 6.9 – Steven Waddington/Andrew Tiernan

Em todo caso, como menção honrosa - uma vez que não é filme - recomendo também a série Queer as Folk (versão US), classificada em 8.3 no IMDb, que considero ser uma das coisas mais extraordinárias que alguma vez vi nas artes cénicas. 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Notas sobre o Contrato Social de Rousseau

Deixo aqui algumas notas e citações do Volume I d'O Contracto Social (1762), autoria de Jean-Jacques Rousseau, que retrata e critica a sociedade do Antigo Regime, e que tem seguimento com um Volume II, que é a visão mais radical do Iluminismo para o que, de facto, deveria ser a sociedade - um dos mais importantes vultos do Iluminismo e da construção da Democracia - que fui extraindo enquanto o lia na Biblioteca da minha Faculdade.

"O mais forte nunca é suficientemente forte para ser sempre o Senhor se não transformar a sua força em direito e a obediência em dever."- pág. 14

"Os combates particulares, os duelos, os recontros, são actos que não constituem nenhum Estado; e, a respeito das guerras privadas, autorizadas pelas ordenações de Luís IX [r. 1226 - 1270], Rei de França, e suspensas pela Trégua de Deus, devem ser consideradas abusos do Regime Feudal, sistema absurdo como nunca houve outro, contrário aos princípios do direito natural e a toda a boa política"- pág. 17
  • Em Roma nenhum soldado era obrigado a voluntariar-se na guerra "sem ter abertamente comprometido contra o inimigo" - idem
  • Guerra é uma relação Estado com Estado, nunca entre homens livres. - idem
Nenhum escravo ou povo tem dever de obedecer a seu Senhor conquistador. - pág. 19

"Cidadãos, como participantes da autoridade soberana, e súbditos, porque submetidos às leis do Estado" - pág. 23

"Em vez de destruir a igualdade natural, o pacto fundamental [entre Homem e Estado] substitui, pelo contrário, por uma igualdade moral e legítima, o que a natureza tinha produzido como desigualdade física entre os homens, e que, apesar de poderem ser desiguais em força ou em génio, se tornam todos iguais por convenção e de direito" - pág. 29
  • Com governos tiranos, este contrato só serve os poderosos em detrimento dos ricos. - idem
Direito e dever de eliminar os inimigos do Estado Republicano, visto que estes passam a representar um perigo para o cidadão. - pág. 39
  • Cabe, contudo, à República e não ao Soberano, exercer esse direito.
  • Estará isto no origem directa de justificação à decapitação do Rei Luís XVI de França?
Formas de Governo - pág. 67
- Democracia: Soberano confia Poder ao Povo, ou à sua maioria.
- Aristocracia: Concentração de Poder num pequeno número de cidadãos
- Monarquia: Concentração de Poder num Magistrado único

"Os melhores Reis querem poder ser cruéis se lhes apetecer, sem deixar de ser os Senhores (...) O seu interesse pessoal reside em que, primeiramente, o povo seja fraco, miserável, e em que jamais lhes possa resistir"- pág. 73

"Só do facto de se pôr deus à cabeça de cada sociedade política se conclui que havia tantos deuses quantos os povos. Dois povos estranhos um ao outro, e quase sempre inimigos, não podiam durante muito tempo reconhecer um mesmo senhor: dois exércitos travando batalha não poderiam obedecer ao mesmo Chefe. Assim, o politeísmo resultou das divisões nacionais [Rousseau usa o termo nacional, todavia, tal coisa não existia nos tempos em que sociedades politeístas vigoravam], e daí se originou a intolerância teológica e civil, que é naturalmente a mesma, como se dirá depois." - pág. 126

[A propósito do virar de página do Cristianismo passar de vítima a opressor] "O que os pagãos tinham receado aconteceu; então tudo mudou de facto, os humildes cristãos mudaram de linguagem, e depressa se viu este pretenso Reino do outro mundo tornar-se, sob o domínio dum chefe visível, no mais violento despotismo neste mundo" - pág. 128

A Pátria dos cristãos não é terrena, mas sim do céu, como tal, não têm preocupações com assuntos concretamente materiais. - pág. 132-133
  • "[cruzados] longe de serem cristãos, eram soldados do Padre, eram cidadãos da Igreja; batiam-se pelo seu país espiritual, que ela tinha tornado temporal." - pág. 133
Rousseau, Jean-Jacques (1981). O Contrato Social. s. l.: Publicações Europa-América. [publicação original de 1762]

Esta é a verdade: As ditas novas questões - como a libertação do homem, do jugo do Estado, para o meio natural, ou o problema da Religião, e outras "novas questões" - não o são, de todo. No Século XVIII, antes de cair a Monarquia Absoluta dos Bourbon, em França, já Rousseau falava imenso destas alegadas, e para alguns pestilentas, novas questões. Há problemas velhos que se pensa serem novos... e curiosamente estamos no mês de Junho. O que vale é que há sempre quem se disponha a trazer ao novo aquilo que já é velho.

domingo, 2 de junho de 2019

Game of Thrones (livre de spoilers)

A minha relação com o mundo fantástico de George R. R. Martin, vivido numa série literária e televisiva intitulada Game of Thrones, é algo atípica e peculiar. É-o, essencialmente, pela forma como me foi introduzida a série, pela forma como decidi ver a série (neste texto só abordarei a série, uma vez que nunca li os livros), e pela quantidade de tempo em que estive em contacto com a série, enquanto ela durou.

Fui introduzido a Game of Thrones no ano 2016, altura em que, precisamente, estava a decorrer a 6ª Temporada, pelo meu amigo Miguel Carvalho, e então já a série era um fenómeno mundial, e muita gente no meu círculo a via. Eu confesso não ter ligado a mínima importância a Game of Thrones, infelizmente. Com os Beatles aconteceu o mesmo. O facto de algo ser um fenómeno mainstream a nível mundial, sempre me 'protegeu' contra certo tipo de literatura, música ou cinema. Por vezes protegendo-me mal. Foi durante este semestre, que findou há poucos dias, que eu decidi ver a série, coincidindo com a altura em que foi lançada a última temporada. O meu raciocínio - exactamente o mesmo raciocínio que eu formulei para começar a ouvir Beatles, há três anos - foi o seguinte: "Se tanta gente, de todo o mundo, de tantas idades e sensibilidades ideológicas, adora isto, eu tenho de lhe dar uma oportunidade. Verei o primeiro episódio da 1ª Temporada. Se gostar, continuarei. Se não, logo se vê." E assim foi. Certa noite, durante a semana de interrupção da Páscoa, quando a nenhum dos meus amigos e amigas apetecia sair de casa, decidi ver o primeiro episódio. Afirmo que não tenho forma para explicar o quanto arrependido fiquei por não ter entrado neste Universo mais cedo. Em duas semanas tinha devorado as 7 temporadas e estava a acompanhar a 8ª em tempo real. Ainda vi os três últimos episódios em tempo real. Sem presunção, ainda hoje não consigo conceber como é que, no ano 2019, há tanta gente a adorar algo que faz tanto o meu género. Não quero dizer que a série me pertence a mim primeiro. Tal coisa seria um disparate. Quero antes dizer que a verdade é que muitas das coisas e temas que gosto e adoro não são apreciadas por tantas pessoas - mas, felizmente, Game of Thrones é. Nunca pensei que, nos meus 20 anos, me visse tão entusiasmado por um Universo alternativo.

Chega de mim. Quanto à série em si, há tanta coisa que posso considerar como pontos altos. Os diálogos são extraordinários (até ao final da 5ª temporada, após isso passam apenas a ser bons). O elenco, apesar de não estar carregado de estrelas internacionais, é impecável. Kit Harrington (Jon Snow), Emilia Clarke (Daenerys Targaryen), Sean Bean (Eddard Stark), Charles Dance (Tywin Lannister), Conleth Hill (Lord Varys), Lena Headey (Cercei Lannister), Michelle Fairley (Catelyn Stark), Richard Madden (Robb Stark), Jack Gleeson (Joffrey Baratheon), todos eles são digníssimos de menção, pelo brilhante serviço que prestaram à Cultura e às Artes Cénicas. Também todo o enredo, que espelha a luta por poder e por domínio territorial - que, no final de contas, é a História da Humanidade - é desenhado num pormenor soberbo. Inclusive, as reminiscências que espaços de Westeros, e além de Westeros, têm com espaços históricos do mundo real, estão representadas de forma singular. Meereen fez-me lembrar o Egipto Faraónico. Braavos fez-me lembrar Rodes. Os Dothraki fizeram-me lembrar a horda mongol de Gengis Khan. O Norte fez-me lembrar a Grã-Bretanha Medieval. Os Lannister fizeram-me lembrar, um pouco, a cultura do Império Romano. A conquista lendária de Aegon Targaryen I fez-me lembrar (e, de facto, segundo o próprio Martin, em tal é inspirada) a Conquista de Inglaterra e Gales pelo Rei fundador de Inglaterra, William I, The Conqueror. As cenas de acção estão também feitas magistralmente (embora a última temporada esteja excessivamente dependente em efeitos especiais). Os diálogos que mais me marcaram foram sem dúvida aqueles que envolviam Robert Baratheon, Ned Stark, Tywin Lannister, Jamie Lannister, Varys, Olenna Tyrell, Daenerys ou Oberyn Martell. Também temáticas, como a separação entre a Igreja e um Estado, ou o preconceito para com aqueles que são diferentes (as perseguições a Tyrion Lannister ou a Loras Tyrell são disso exemplo), são exemplarmente abordadas. Em suma, poderei afirmar que um dos grandes temas de Game of Thrones é "as acções têm consequências".

Concluindo, podia falar em como houve um decréscimo na qualidade da série, mas são poucas as coisas perfeitas. Deixo-me por aí a esse respeito. Ao contrário de outras pessoas, não fiquei desiludido de todo com o destino que o Trono de Ferro teve (em sentido polissémico). No final, ficou com o mais puro indivíduo de Westeros. Ainda que os acontecimentos que levaram a isso tenham sido desenrolados demasiadamente rápido.

Claro que um agradecimento a Ramin Djawadi também vem a propósito. Game of Thrones não seria a mesma coisa sem a sua épica banda sonora.

Por fim, quem ainda não viu, mesmo que já esteja inundado de spoilers, por favor, veja. Vale mesmo a pena! Felizmente, só fui exposto a três, e só um é que era relevante.

"Fire and Blood"

"Winter is Coming"

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Numa nota pessoal

Numa nota pessoal - à semelhança de outras que virão, brevemente, com data marcada -, quem aqui escreve tem, de momento, muitas poucas certezas. Sem certezas sobre o que aí vem. Sem certezas sobre o altruísmo humano (e o seu em particular). Sem certezas se está bom ou mau tempo. Todavia, a falta de certezas que aqui traz quem escreve, a esta nota pessoal, é a incerteza sobre o ofício da escrita. Quem aqui escreve, portanto, está sem certezas se aquilo que escreve tem inteligência, ou tem eficácia a chegar à mente de quem lê, ou, até, se tem valor estético e/ou literário.

Quem aqui escreve tem pensado nos últimos dias se tem, se quer, competência para conduzir este blog que já viu meses mais dinâmicos. Quem aqui escreve não consegue ter certezas, na raiz das suas capacidades, se tem as aptidões literárias e comunicativas bastantes, conduzidas pela sua paixão pela Língua Portuguesa, que lhe valha a consideração de cidadão português que tem domínio pelo próprio idioma. Quem escreve já teve mais certezas quanto a isto. Para alguém que adora ler, escrever, comunicar com outras pessoas, são dúvidas que, quando surgidas, provocam uma grande agitação intelectual e um grande complexo de incerteza e de auto-crítica, que tornam o próprio adormecimento um acto ainda mais complicado do que já é. Então quem aqui escreve dá por si a pensar: será que José Saramago, o Nobel da Literatura, que nunca necessitou de frequentar o Ensino Superior (eventualmente gostaria, mas na juventude nunca reuniu as condições financeiras para isso) para ser um colosso da Língua Portuguesa, alguma vez colocou as suas aptidões literárias e comunicativas em causa? Será que George Orwell, ou Christopher Hitchens, enquanto escreviam os seus ensaios, construídos por imensa vivência e investigação, alguma vez puseram os seus talentos, e as suas canetas em causa? Não estou a ver Hitchens, no pináculo da sua irreverente presunção saudável, a colocar em causa a construção das suas frases. E Fernando Pessoa? Será que ele se quer algum dia parou para pensar que escrever não era para ele? Eu, caminhando sobre os ombros destes gigantes, tenho de me colocar em causa.

E de onde vem isto? De onde vem esta epifania de interrogações ante a própria essência estética desta escrita em português? Estas questões são pulsadas por quem, de estatuto mais elevado, dita sentenças sobre que estilo de escrita entra, ou não entra, nos portões da Academia. São questões postas eventualmente ao longo da estrada. Há palavras duras. Há palavras suaves. Há palavras cujo único desígnio, nem destrutivo, nem construtivo, queira ou não queira o seu transmissor, é implantar a dúvida. É semear a estática. Remete-me a esta extraordinária frase do Professor Albus Dumbledore: "Words are, in my not so humble opinion, our most inexhaustible source of magic, capable of both inflicting injury and remedying it". Por irónico que seja, este que aqui escreve, que, apesar da jovem idade, faz de tudo para continuar a escrever em português e não em acordês, coloca dúvidas à sua própria escrita - e já houve tempos em que ousou sonhar que poderia aqui estar o novo grito da Literatura Portuguesa -, através de alheios terceiros que nunca ousaram um segundo para o conhecer.

E agora um par de olhos observa o que aqui está escrito, e pensa: "isto não está mau de todo"... mas já não tem certezas a esse respeito.

Talvez, numa escala de 0 a 4, isto não valha mais que um -1, ou um -2... talvez.

domingo, 26 de maio de 2019

Eleições Europeias 2019

Qual é o problema destas Eleições? Qual é o problema do Parlamento Europeu? Qual é o problema da União Europeia? Quanto à última questão, bem que valia uma dissertação enorme, desde o Euro, o sistema altamente burocrático, a Comissão Europeia, até ao Banco Central Europeu. Quanto às outras duas questões, existe um problema grave e comum, que é um dos entraves à democracia na União Europeia (talvez o problema mais grave da própria UE). O Parlamento Europeu, que devia ser o todo do Poder Legislativo de toda a UE - à semelhança do funcionamento dos demais sistemas ditos democráticos -, não representa, na UE, nem metade desse Poder. A razão para tal deficiência democrática prende-se no facto do Parlamento Europeu não ter qualquer iniciativa legislativa. Quem avança com legislação é a Comissão Europeia, e o Parlamento Europeu limita-se a aprovar ou negar legislação. De resto, pouco mais pode fazer. Portanto, o problema destas eleições reside exactamente aí. A única intervenção real dos cidadãos europeus no funcionamento desta UE é na eleição do corpo legislativo que nem corpo legislativo é.

E porquê tamanha abstenção nestas eleições? A verdade é que boa parte dos cidadãos europeus - e poderei falar, em concreto, dos cidadãos da República Portuguesa, visto que é o caso mais perto da minha pessoa - não sentem qualquer proximidade por parte do poder político da União nas suas comunidades, muito menos têm qualquer género de impressão de qual é a relevância que esta União tem nas suas vidas. No meio de toda esta confusão, há duas partes que aqui falham. Falha a UE - talvez até propositadamente - porque não se esforça para se aproximar, universalmente, de toda a sociedade europeia, porque tem dirigentes cheios de uma prepotência e arrogância, que vivem na fantasia de que os 28 estados-membros têm de lhe pertencer invariavelmente, e porque tem (propositadamente, certamente) um sistema político não democrático. Quem manda nesta UE são os burocratas, as corporações económicas, e dois estados-membros que são capazes de submeter quase todos os outros à sua vontade socioeconómica. Mas também falham as pessoas que estão mais preocupadas em ficar em casa e não votar naqueles que propõem uma alteração a este estado de coisas. Há descontentamento? Percebo perfeitamente. Mas quem se abstém porque não encontra qualquer razão de ser nestas Eleições, que vote naqueles que querem expandir a democracia da UE aos cidadãos europeus. Todos eles!

Quanto a mim. Claro que já fui votar, sem grande esperança, evidentemente. Quando olho para a Europa e tudo o que vejo é o ódio de ultra-nacionalistas ou a prepotência de liberais e conservadores, tal paisagem não permite grande esperança para futuros romantizados como aqueles que Pedro Marques e Paulo Rangel querem vender às pessoas. Os debates neste país foram, em grande parte, conquistados por assuntos que morrem de importância, em comparação com os assuntos que realmente importam nesta Europa: a desigualdade económica; o poder desmesurado do sistema bancário face ao poder democrático e político; as alterações climáticas; as crises humanitárias; o fundamentalismo religioso; o racismo; a misoginia; a homofobia; e a falta de democracia na UE. O CDS, o PS, o PSD, os partidos que controlam a nossa cena política, preferiram continuar a discutir a baixa política deste país. O André Ventura, como se espera de gente como ele, preferiu a destilação de veneno e o seu contínuo debate pseudo-desportivo na pior televisão que esta Nação já viu - o que, felizmente, não o vai levar a lado algum. A minha decisão de voto também não foi fácil. Havia três partidos à Esquerda que me fizeram pensar. Com a CDU excluída - graças ao candidato demasiadamente moderado e vazio ideologicamente (cada vez se esquece mais o marxismo no PCP, infelizmente, pois talvez mais valia ser o PEV a lançar os candidatos principais nesta coligação), e também graças ao próprio conservadorismo social e à política externa do mesmo, que deixa muito a desejar -, o Bloco de Esquerda, o Partido Livre, do Professor Rui Tavares, e o Movimento Alternativa Socialista, foram o leque da minha escolha. Acabei por excluir o MAS devido à falta de bases dum partido muito bem intencionado, no qual eu também não conheço as pessoas. A decisão final seria entre o Livre e o BE. Ambos defendem mudanças profundas no sistema da UE, incluindo no Parlamento. O Livre, partido eco-socialista e libertário, tinha os pontos a favor por eu ter maior confiança no Rui Tavares do que na Marisa Matias (apesar de eu respeitar e ter apreciação pela eurodeputada). O BE tinha os pontos a favor pela dimensão do partido e por defender os meus valores ideológicos e políticos. Uma pessoa, um voto, e no final, com toda a consideração por outros partidos, aos quais desejo sorte, a cruz foi assinalada no Bloco de Esquerda.

O que é que vai mudar na UE? Os liberais e conservadores vão manter a sua prepotência, e vão continuar a tomar conta da União. Aí, tudo na mesma. Mas os ultra-nacionalistas da Direita vão formar uma enorme família política no Parlamento. Que a Razão nos ajude.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Afinal, a carreira dos professores jaz na gaveta

Atingimos, por fim, através das poeiras da dissimulação e da névoa da hipocrisia, a síntese do mais recente conflito social neste país, inserido numa conjuntura maior a que os marxistas, e eu, chamamos de Luta de Classes. É isso precisamente o que se passou nos últimos dias. Assistimos ao funcionamento duma pequeníssima engrenagem desta Máquina que há milénios marca a evolução da Civilização Humana. E a sujidade do desfecho desta tensão só pode ser rivalizada pela completa ausência de honestidade por parte de duas entidades políticas, com assento na Assembleia da República, envolvidas neste evento. Para o leitor que ainda não apanhou sobre o que escrevo eu, falo do triste circo a que a carreira dos professores foi sujeita.

Um sumário do que se desenrolou ao longo de todo este processo: Há mais de três décadas que o corpo docente de Portugal está em luta, sai às ruas, exige maior consideração e respeito, exige melhores salários, e mais recentemente (com o Governo desse grande crápula impune que é José Sócrates), um descongelamento na progressão das suas carreiras, com vista aos seus anos de precioso serviço à Sociedade serem reconhecidos. Quer no Governo de Sócrates, ou no Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, ou no actual Governo de António Costa, a luta dos professores tem sido incansável. Portanto, há de facto, nesta nação, uma desvalorização daquilo que significa ser professor, e essa desvalorização reflecte-se sob formas variadas: nos salários baixos comparados com o trabalho que os professores exercem, no respeito por parte da sociedade, no prestígio não reconhecido, e na ausência de evolução das suas carreiras enquanto profissionais. Aqueles que isto negam não têm a mínima ideia sobre o porquê do Ensino e Formação. E para esses já escreverei adiante. Relativamente ao que se desenrolou nos últimos dias. Tivemos, numa Comissão Parlamentar, a aprovação por parte da Esquerda - PCP, PEV e BE - e da Direita - PSD e CDS - uma proposta de lei que determinava o reconhecimento dos famosos 9 anos, 4 meses e 2 dias de carreira dos professores, proposta essa pronta a ser votada na generalidade perante todo o Parlamento. A bancada parlamentar do PS e o Governo (PS) estavam rigidamente contra, apelidando a proposta de inconsequente, irresponsável, etc. Logo a seguir, o Primeiro-Ministro de Portugal, num número que só pode ser comparado a uma grande birra, a 5 meses da Eleições Legislativas, ameaçou com a demissão do Governo. Os Media, em êxtase com a estória, perguntaram a todos os partidos o que se estava a passar - falou-se inclusive numa Crise Política - e o PSD e o CDS garantiram que não iam mudar o sentido de voto que já tinham anunciado para o generalidade. Neste ponto convém chamar a atenção para quatro coisas: (1) a probabilidade grande que havia para se convocarem Eleições Legislativas antecipadas; (2) o facto dos sindicatos e da Esquerda estarem finalmente a ter uma importante vitória política; (3) a total incoerência da Direita, uma vez que jamais defendeu tais propostas políticas (e toda a gente sabe que aquilo foi puro oportunismo político, com vista ao derrube do Governo), ainda assim a Esquerda e os Professores agradecem; (4) os professores finalmente iam ver justiça, dando esperança a todos os trabalhadores. Quero também chamar a atenção para a sincera felicidade em que eu estava embrulhado. É muito raro ver nem que seja um 'quase' da concretização duma fantástica proposta como esta. Mas tudo isto era bom demais para ser verdade. Tudo começou com tímidos anúncios, e revelou-se hoje, quando o PSD e o CDS esclareceram que afinal vão mudar o sentido de voto, e que a progressão nas carreiras dos professores pode jazer numa qualquer gaveta. A verdade é que eu não devia ficar surpreendido com isto, com estas manobras da Direita, com o status quo a funcionar. Nas questões de fundo, o Arco do Governo regressa sempre à acção. E assim, nem o Governo se vai, nem a Direita me consegue impressionar, nem é feita Justiça aos professores.

Abordando um sujeito que escapou aos pingos da chuva: a pessoa do Presidente da República. Calado se mostrou, calado se manteve. Raríssimo, devo dizer. Só faltou dizer, em voz de múmia, "não faço comentários sobre aquilo que quer que seja" para parecer o Professor Cavaco Silva. Bem, não conhecemos de facto o que Marcelo pensou sobre tudo isto, e assim se manteve, pseudo-indiscortinável, para com nada se comprometer. Mas, caso a Direita nunca tivesse ido para a barricada do costume, e a proposta tivesse sido aprovada na AR, Marcelo, no seu poder de Chefe de Estado, teria dado um veto à Lei, e mesmo que a proposta lhe regressasse às mãos, já teria alterações. Iria justificá-lo com a alegada inconstitucionalidade da proposta, mas as suas motivações seriam puramente políticas. E nem se iria preocupar muito com a perca de popularidade. Nunca foi entre os professores que Marcelo recolheu o sumo da sua base de apoio.

Então, e porque é que os professores são assim tão importantes? Alguns trabalhadores - num vício a que o próprio Karl Marx fez questão de analisar durante o século XIX - até afirmam que "se para nós não há, para os professores também não", demonstrando uma impressionante falta de solidariedade laboral na Luta contra um mal comum. Relativamente à importância dos professores na sociedade, eu até responderia "vão perguntar aos Nórdicos e vejam como lá, na Escandinávia, um docente é tratado", mas até poderei responder, de facto: Sem professores não há formação intelectual e cívica na Sociedade, e quando não temos escolas e faculdades, somos todos reduzidos à improdutividade, à ineficiência e à barbárie. É o respeito e investimento no Ensino um dos denominadores comuns entre os Estados pacíficos e socialmente mais igualitários e justos. Basta olhar para os números. Para além do mais, o professor do Século XXI chega a ser mais do que "só" isso, é também psicólogo de jovens, e administrador burocrático. 

Claro que eu não estou a dizer que toda a docência é perfeita. Há profissionais mais ou menos competentes (já me cruzei inclusive com um ou outro professor terrível), mas é por isso que também a formação de professores e a criação duma sociedade mais civilizada são elementos essenciais. E que ninguém se iluda. Possivelmente por ter havido gente que se considerou massacrada pelos Lusíadas, ou pela Mensagem, ou pela Matemática, ou pela História, a docência está entre as profissões mais odiadas deste país.

E nem vale a pena o leitor, que não concordar com isto e me conhecer pessoalmente (ou não, uma vez que vai ler o que se segue), ripostar com argumento "só dizes isso porque a tua mãe é professora e tu pensas exercer a profissão durante alguns anos". Digo desde já: as minhas convicções quanto a questões laborais são universais para todos os trabalhadores, mas podemos começar por algum lado, por uma das profissões mais mal tratadas deste país, e ao mesmo tempo, uma das mais protestantes quanto a essa realidade. Como Marx e Engels sugeriram em 1848, na Luta por uma vida melhor, os trabalhadores de todo o mundo devem unir-se.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Regresso às Lutas Antigas: a cavalo das considerações de Bento XVI

Referente à revolução cultural da década de 60 - na qual havia uma nova forma das massas olharem para a sexualidade -, o ex-Papa Bento XVI (que se lhe chame agora Joseph Ratzinger) tem a dizer que "os padrões vinculados à sexualidade colapsaram", num documento de 18 páginas por si escrito, no qual o antigo pontífice reflecte sobre estas questões e os massivos casos de pedofilia que têm sido descobertos nas últimas décadas na Igreja Católica. Isto foi notícia do Jornal Público, dia 11 de Abril. De acordo com a notícia, Ratzinger, jamais desarmando da sua investida, afirmou que o fenómeno da "total liberdade sexual" da Contracultura está "fortemente relacionado a esse colapso mental". Ratzinger também prosseguiu com umas ladainhas sobre a teologia da Igreja ter sido refreada por esta demoníaca mudança cultural e, como diriam os americanos, throwing caution to the window, decidiu, descendo a pico - qual ave de rapina -, num golpe torpe, cercado de analogia e comparação falaciosa, lançar esta tirada: "em vários seminários foram estabelecidos grupos homossexuais que actuavam mais ou menos abertamente, o que mudou completamente o clima que se vivia".

Ratzinger consegue ser bem mais sinistro que isto. Como fundamentalista católico que é, dois grandes alvos sempre estiveram na mira do ex-Papa - assim como estão na mira de demais correlegionários do clérigo reformado: os marxistas, e a sua visão satânica sobre a Economia e a História; e, claro está, o bode expiatório deste esclarecedor ensaio, os homossexuais (ou qualquer coisa relacionada com isso). O raciocínio de Joseph Ratzinger, que é altamente similar a outros tantos argumentos ainda usados - quer seja em congressos restritos ou nas belas caixas de comentário de jornais, na web -, passa por uma analogia entre: aquilo que foi a liberação da sociedade de dogmas morais religiosos - dogmas esses que banem não só a homossexualidade como também o simples uso do preservativo, ou até mesmo diversas posições sexuais -, liberação essa que de facto começou a ter lugar na sociedade internacional, em força, nos anos 60; e o 'surto' de pedofilia que, segundo o senhor padre, invadiu a Igreja Católica. Ratzinger argumenta que a suposta degeneração da Contracultura deu origem à actual crise de valores da Igreja.

Os anos 60, e o seu Movimento da Contracultura (que ainda se estende nos 70), são uma das razões de ser deste blog devido a imensas razões. Mas não será necessário ir mais longe que o símbolo que representa este blog, para se notar uma ligação entre os anos 60 e o Pensatório da Divisão. Assim sendo, convém afirmar que os anos 60 trouxeram mudanças profundas, e desde já elenco selectas: a liberação sexual de que falei; protestos globais contra a guerra - caso mais famoso, a Guerra do Vietname - e as armas nucleares (John Lennon, Albert Einstein e Bertrand Russell foram activista proeminentes nestas causas); consciência ambientalista, que ainda era muito esmorecida na altura; e todo um grande número de movimentos artísticos, entre os quais principiam os Beatles, o Bob Dylan, o David Bowie, os Pink Floyd ou os Doors, por exemplo; o Movimento dos Direitos Civis nos EUA, no qual Martin Luther King, Malcolm X e as Stonewall Riots são ícones. Só coisas boas, devo dizer! Limpando assim a sujidade, prevaricada pelo ex-Papa, do nome da Contracultura, abordo, finalizando, os argumentos concretos de Ratzinger.

A homossexualidade, para além de sempre ter sido uma realidade presente na Humanidade, sempre esteve presente no seio católico. O historiador medievalista francês Jacques Le Goff, faz questão de clarificar, na sua História do Ocidente Medieval, a existência de práticas homossexuais nesse tempo histórico, dentro da Igreja inclusive. Também sabemos que o abuso de crianças é, infelizmente, tão recuado quanto tudo isto. Portanto, quando Ratzinger vem a público afirmar que a homossexualidade é uma doença que se massifica nos anos 60, e que contamina a saúde do Catolicismo, introduzindo esta prática na Igreja, perpetuando a pedofilia, falando duma actuação de grupos homossexuais (quase como se fossem uma máfia), está não só a ser intelectualmente desonesto quanto à História, como também está a usar um grupo social como bode expiatório a ser culpado pelos crimes que se praticam na Igreja Católica. Como se homossexualidade e pedofilia fossem conceitos idênticos. Sabemos que a pedofilia não é uma questão de orientação sexual, é antes um estado psicológico grave, e que surge tanto num formato heterossexual ou homossexual. Será desnecessário dizer, mas eu digo-o ainda assim: estes argumentos, que revelam que o ex-Papa não quer encarar o núcleo do problema, e que prefere antes prosseguir com a sua sanha persecutória, são típicos dum fascista, e é isso mesmo que esse indivíduo sempre foi.

O que vemos confirmado com isto? O medo que o Catolicismo enquanto instituição - e todas as três religiões abraâmicas em especial - sempre teve do sexo e da sexualidade. Confirma também a ainda existente mentalidade de algumas cabeças. Se o pastor incita na direcção do precipício da ignorância, o mais certo é ovelhas irem atrás. Felizmente, tais ovelhas são cada vez menos. Reconheço a dureza das minhas palavras, mas usar todo um grupo social como carne para canhão, influenciando de forma irresponsável a cabeça de muita gente, não só incita ao ódio como também é um ataque a uma das melhores coisas que aconteceram na História Contemporânea: o Movimento da Contracultura da Década de 60.

Disclaimer: quando me refiro a instituições em geral, falo da sua cúpula. Há certamente elementos que fogem às tristes vicissitudes.

(Quando a poeira acalmar - ainda há muita no ar, levantada propositadamente por muita gente - escreverei sobre a questão dos 9 anos, 4 meses, 2 dias.)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Missas que fazem Escola

Pelos vistos, há direcções de escolas e associações de pais, por esse Portugal fora, que ainda não compreenderam o princípio da laicidade do Estado na República. Apesar das constantes e suscitantes dúvidas relativamente a este princípio estar presente na Constituição Portuguesa (o actual Presidente da República parece não o compreender, com os seus números protagonizados em Fátima), a Fonte Fundamental é bem clara. Diz o Artigo 41º: "As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto"[4ª alínea]. Que significa isto? Efectivamente, que as instituições religiosas, embora livres, não são parte orgânica do Estado. Significa que o Estado é imparcial quanto a todas as religiões, não tendo nenhuma, nem reconhecendo oficialmente a existência de um deus.

Esta achega à Constituição vem a propósito dumas situações, das quais obtive conhecimento através do Diário de Notícias, no qual é relatado que em concelhos como Vieira do Minho, Famalicão, Bragança, Viana do Castelo e Vila Real, há dirigentes escolares que, sob o aval dos respectivos conselhos gerais, promovem, no âmbito da própria escola, a realização de missas católicas, com óbvia vista à catequização dos próprios alunos. É assegurada, na própria notícia, que estas cerimónias religiosas não são de assistência obrigatória, todavia, o Presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Carlos Esperança, ao DN, "garante já ter recebido queixas de pais cujos filhos se sentem pressionados a matricular-se em Educação Moral e Religiosa". A disciplina de Educação Moral Religiosa e Católica, oferecida pela escola pública como opcional, é o lobby interno que promove este género de digressões. Confesso que, por deliberada vontade, frequentei a disciplina do 5º ao 9º ano. Duas razões se prendem com tal, uma vez que, já na altura (efectivamente a partir do meu 6º ano), eu era ateu (embora só me viesse a cruzar com o conceito concreto por volta do meu 7º/8º ano): tinha, pelo menos, mais uma visita de estudo garantida, e passava 45 minutos bastante engraçados com os meus amigos. Devo dizer também que o professor Paulo Neves foi sempre uma pessoa impecável. Apesar dos meus tempos bem passados em EMRC, não me tranquiliza ver esta disciplina a ser utilizada como forma de "instrumentalização da escola pública", como afirma Ricardo Alves, Presidente da Associação República e Laicidade, ao DN. E quando a escola pública tem uma visão oficial em favorecimento duma religião, tal me remete a tempos mais fascizantes da História de Portugal.

Poderá o leitor afirmar, "mas isso é a sua opinião, que a escola não pode promover os bons valores católicos. Portugal é um país católico!". Nesse caso eu digo: Portugal até podia ser um país de gente que acredita no Monstro do Esparguete Voador, a Constituição da República - dos melhores exemplos de bom senso neste quase milenar país - é, outra vez, claríssima! Afirma o Artigo 43º: "O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas"[alínea 2ª]; "O ensino público não será confessional"[alínea 3ª]. Qualquer pessoa minimamente letrada, lendo estas alíneas d'ouro, compreenderá a machadada inconstitucional que tem sido perpetuada nestes concelhos (e noutros, possivelmente). Aliás, muito tenho pensado, e cheguei à conclusão que nem a própria existência da disciplina de EMRC na Escola Pública é constitucional. Ou seja, eu, e muitos, temos andado a participar em inconstitucionalidades, e ninguém me foi capaz de avisar... Ante estas missas de escola, PS, PSD, CDS (óbvio) e Governo da República, nada fizeram. A justificação que deram é que estas promoções religiosas estão contidas  dentro do princípio da autonomia das escolas. Uma coisa é a autonomia legal, e tais são bastante saudáveis. Outra é dirigentes escolares quebrarem a Constituição. Outra, contida nesta última, é, dentro do espaço do ensino público intelectual, beatos andarem a lavar a cabeça de menores segundo uma cartilha religiosa estabelecida, em detrimento doutras confissões, promovida pelo Estado. Isto não pode ser! Alguém tem de ser chamado à justiça. Com a laicidade do Estado não se brinca. Esta nação não se pode assimilar aos EUA, onde a laicidade também existe, mas é violada a todo o santo minuto.

Ora, é verdade! Mais um texto a achincalhar a religião, e com toda a razão, diga-se. Mas não me fico por aqui. O próximo capítulo será sobre as mais recentes actividades dum decano entre os medievalistas (não no sentido do estudo historiográfico) - o ex Papa, Joseph Ratzinger.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Reminiscências da Inquisição

Foi noticiado por vários órgãos de comunicação social que a Igreja Católica praticou mais outro crime intelectual. Em causa está um grupo de padres católicos, na Polónia, que, ora por mau gosto, ora pela patologia que lhes é inerente, decidiram que deviam queimar livros considerados "impróprios e ofensivos à moral cristã". Neste Index do Santo Ofício dos tempos modernos, encontram-se livros da série literária Harry Potter, escritos pela J.K. Rowling. Antes de mais, fazendo uma declaração de interesse, acho que a Joanne merecia todo o género de honras literárias, desde 2007. Também quero afirmar que, no domínio da literatura (e de muitas outras coisas) nada me é mais querido que estes livros. Todos os Verões, desde o de 2016, faço questão, com grande delícia (porventura ofensiva e imoral para estes neo-medievalistas), de arrumar com as 3000 páginas dos 7 volumes... o que costuma levar um mês. Certo. Dito isto, o leitor compreenderá o quanto sentimental sou perante esta Obra da Literatura imensa, que toca em tantos pontos da vida e da sociedade, tão bem escrito e pensado, tão divertido e tão sério... e só de pensar que ao queimarem aqueles livros estão a queimar o próprio Albus Dumbledore - não tenho habilidade suficiente para colocar em prosa o que me vai na mente.

Para essa gente sinistra, cujas vidas são vividas em torno de preconceito, ódio, medo e obscurantismo, que se divertem com estes espectáculos, para esses padres católicos e para toda a cúpula que lhes presta vassalagem, compreendam uma coisa: livros não se queimam. Nenhum livro deve ser queimado. Nenhum! Não se queima o Mein Kampf, é um testemunho dos tempos. Não se queima o Malleus Maleficarum (que certamente adorarão), é um documento histórico imprescindível para se estudar a Era Medieval. Não se queima o Código de Hammurabi. Não se queima o Alcorão. Não se queima o Tora. Não se queima a Bíblia. Não se queima Camões, Cervantes, Shakespeare, Platão, Sun Tzu, Byron, Allan Poe, Tolstoy, Pessoa, Saramago, Orwell, Huxley, Hitchens, Chomsky. Também não se queimam obras marxistas... ou fascistas. Não se queimam livros, são conhecimento, padres, sabem o que isso é? E certamente não se queima uma obra literária que atingiu o coração de tanta gente, de tantas nacionalidades e demografias, desde os 10 aos 80 anos de idade. Que vergonha... o que irá dizer um hipotético futuro mundo civilizado deste circo?

Terminando. Acho que estes padres deveriam estar mais preocupados com os reportados 400 casos de pedofilia na Igreja Católica polaca, levantados desde os anos 90. Acho que Francisco I deveria tomar medidas, mas quer-me parecer que há mais uma desilusão a caminho. Um Papa Francisco semelhante àquele que o mundo pinta excomungá-los-ia. Mas isso não vai acontecer. A capela católica - a matilha, como dizia José Saramago -  que lá manda é toda una, infelizmente, e Francisco I jamais os irá enfrentar.

Pedindo desculpa aos meus pais, à minha madrinha e ao meu padrinho (a culpa nem se quer é totalmente deles, mas enfim, continuo a adorar-vos, e de qualquer das formas o meu pai é agnóstico), por esta, e por incontáveis outras razões, tenho tanto asco em estar baptizado na Igreja Católica. Tenho nojo do próprio número que represento como membro do Catolicismo e da Cristandade. Uma Igreja que, sejamos claros, efectivamente me odeia. Assim como o seu Deus me odiaria... se existisse claro.

(Disclaimer, à precaução: Este texto não afirma que eu tenho repugnância pelos católicos em geral, ou que odeio todos os padres, ou que todos os católicos me odeiam, não é isso o que lá está escrito. Estou a falar da matilha que manda, e do ideário claro... há coisas que não se deviam esquecer tão depressa.)

Será que João Paulo II aplaudiria estes espectáculos inquisitoriais?