quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Rooftop Beatles is Golden

Foi há 50 anos que o maior (falo de dimensão, de tamanho da influência) entre todos os actos musicais da História da Humanidade, uma banda de Rock britânica chamada The Beatles, se despediu formalmente (mas de forma muito pouco formal, como eu gosto) do público. Foi o último concerto dos Beatles, no topo dum edifício em Londres, que de legalidade teve muito pouco, mas o Movimento da Contracultura, esse que ostentou o mesmo símbolo que preenche o wallpaper deste blog, nunca se regeu necessariamente pelo tradicionalismo e pelas legalidades da autoridade... o que deu ao evento musical um toque mágico que para sempre ficará na posteridade. Das gravações que ficaram disponíveis, que permitiram ao mundo ouvir este curtain call, a minha parte favorita é quando os Fab Four tocam o Don't Let Me Down. É fantástico. Foi o primeiro concerto dos Beatles desde meados da década de 60 - mesmo antes de entrarem na sua fase experimental e psicadélica, aquela onde eles começaram a mexer com as fronteiras musicais, que se estenderia até à dissolução - e o último de sempre. Após isto, foi o lançamento do álbum Let it Be no ano seguinte (que já tinha sido gravado em 1968), com o qual John Lennon teve muito pouco a ver devido as já existentes querelas com o resto da banda - querelas essas que começaram a surgir com a morte prematura do manager Brian Epstein em 1967 -, e a dissolução da banda no mesmo ano em que o Let it Be é lançado. Pensar nos anos 70 e 80 com Beatles seria todo um outro "admirável mundo novo". Assistir, ouvir, uma reunião dos Fab Four, no novo Yankees Stadium por exemplo, ou simplesmente no topo de outro qualquer edifício, no século XXI, é um grande sonho inconcretizável de qualquer apaixonado pelo Rock clássico... infelizmente, foi-nos roubada a voz do John Lennon (e fará 40 anos no próximo ano) e o cancro privou-nos dos talentos musicais, na guitarra ou na voz, de George Harrison, em 2003 - por sinal, o triste ano da morte de Johnny Cash. Todavia, apesar deste vazio que foi deixado pela morte, apesar do fim efémero deste fenómeno mundial chamado The Beatles - nasceu com os anúncios da Contracultura, morreu quando esta começou a perder alento - há duas coisas que a mim me consolam: o facto do Paul McCartney continuar nos palcos, e melhor que meio mundo; e o facto de todos os dias ter a musicalidade deles os quatro ao alcance dos meus tímpanos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Crime na Fábrica da Robinson

Faz hoje uma semana que teve lugar, na Cidade de Portalegre, um crime contra o património e a cultura, não só da nossa cidade, mas também um crime contra um legado que diz respeito a toda uma nação, ainda que o Estado, para todos os efeitos, não o reconheça como tal. Sim!, é um crime, um atentado como colocou o Partido Comunista, sem meias palavras, sem eufemismos, sem esponjas por cima de assuntos.

Já tive hipótese, ao longo dos anos, de visitar a Fábrica da Robinson e de interagir com a Fundação, cuja obrigação é a defesa e promoção do legado cultural dessa mesma fábrica. Uma fábrica que foi um centro de desenvolvimento económico do Concelho. Uma fábrica onde esteve presente a luta e o sacrifício dos operários, pela cidade e sobretudo pelas suas famílias. Uma fábrica que foi o grande símbolo da Cidade Branca nos últimos 100 anos. E ruínas duma fábrica cujo potencial de perpetuação cultural, em benefício da memória histórica e dos portalegrenses, é tão evidente que só os mais intelectualmente brutos não compreenderão. A ideia de haver uma Fundação Robinson, que proteja este património histórico, só tem de fazer sentido - é algo que qualquer cidade desenvolvida, no país ou no mundo, tem a preocupação de fazer. O problema, quanto a mim, prende-se com a questão da tutela da Fundação. Ora, presentemente, é tutelada pela Câmara Municipal de Portalegre, e como temos tido a oportunidade de observar, os resultados - devido sobretudo aos sucessivos Executivos ruinosos da Câmara - foram tumulares para o património. A solução imediata que eu vislumbro, e que gente que já esteve ligada à fundação vislumbra, é a Fundação passar a ser tutela directa do Ministério da Cultura, retirando-a do jugo de interesses, esquemas e comprometimentos que assombram este Concelho. Mas é preciso que quem de direito, e os portalegrenses claro, promovam tal solução.

Há uma razão clara para as preocupações que exponho no parágrafo anterior. A razão é obviamente o crime de que falo: a demolição abrupta e danificadora de parte do edifício da Fábrica, segundo consegui saber, promovida pelo Presidente do Conselho de Administração da Fundação, José Manuel Faria Paixão, à revelia dos procedimentos democráticos do Conselho e dos seus membros. A situação não é grave, somente, pelo facto dos ditos procedimentos democráticos que estão inerentes à Fundação terem sido desrespeitados, é antes de mais grave pelo facto de ter sido demolido um edifício, e sem qualquer cautela para com o material arqueológico industrial - nomeadamente relíquias de máquinas, que representam um legado patrimonial. Eu duvido que o Sr. Paixão tenha consciência daquilo que fez. O Sr. Paixão é o grande responsável pelo dano causado a várias máquinas e ao património da Robinson, e por isso não reúne condições para se quer pisar aquele espaço. Mais: as demolições não tiveram a supervisão de uma única pessoa competente (um arqueólogo ou especialista do género), o que significa um total desprezo pela mão científica e conhecedora destes assuntos.

Noutro plano, também o Jornal Alto Alentejo esteve terrivelmente mal. Quem leu a edição de hoje terá tido hipótese de, antes de mais, enxergar a capa, que por si só já é uma vergonha jornalística, no domínio da mínima imparcialidade que tal profissão requer, e veja-se o exemplo seguinte, dizendo em destaque: "Polémica na Robinson - PEV acusa Fundação de «crime contra o património»... resta saber qual património". Qual património? O Alto Alentejo está a gozar com a cara dos portalegrenses? As históricas torres fumosas que se destacam sobre a cidade não significam nada para estes jornalistas? Eu peço paciência para com as considerações, não conheço o Presidente do Conselho da Fundação, não conheço um único jornalista do Alto Alentejo, mas isto é boçalidade cultural. Representa a cru a rudez intelectual que circunda todo este problema! Para não falar que o jornal nem se dignou a dar lugar, na capa, à menção do excelente e esclarecedor texto que o professor Gonçalo Pacheco escreveu... e conheço bem as intenções por detrás disso. 

Em notas informativas, asseguro que, ao contrário do que o Sr. Paixão já afirmou, as fotografias divulgadas pela ex arqueóloga na Fundação, Susana Pacheco, não são de há um ano, são sim de há uma semana, e sei-o porque estive nas imediações da Fábrica na noite seguinte, numa festa que tinha lugar no parque de estacionamento da Escola de Hotelaria, e pude ver o crime com os meus olhos - eu e as centenas que por lá passaram. Asseguro também que, ao contrário do que se possa pensar, o lugar de Susana Pacheco na Fundação em nada se deveu à presença do professor Gonçalo Pacheco no Conselho de Administração. A Susana Pacheco para lá entrou antes de todo o redemoinho das Eleições Autárquicas, antes do professor Pacheco ter alguma coisa a ver com a Fundação, e lá se manteve até há uma semana, depois da resignação do professor Pacheco. E há quem se pergunte porquê... pois bem, Susana Pacheco tem um mestrado em arqueologia industrial, pela FCSH, essa qualificação é suficiente! Desprezar o trabalho e lealdade ao património da Fábrica, de Susana Pacheco, é desprezar os jovens que tentam ajudar a erguer esta cidade. Desprezar o trabalho de Gonçalo Pacheco na administração da Fundação é desprezar qualquer trabalho honesto e contínuo ao serviço de Portalegre, e mais uma vez recomendo a leitura do seu texto, relativamente a este assunto - de facto escreve quem disto sabe -, que não só está disponível no Jornal Alto Alentejo, como também na página Facebook do mesmo. Para mais afirmo, e esta nota é especial para mentes mais paranóicas, que nem Susana ou Gonçalo Pacheco fazem parte duma conspiração comunista, nem eles têm algo a ver com o PCP... portanto, que morra de vez esse boato.

Toda esta situação é triste e desmoralizante. A forma como toda esta questão se tornou partidária, quando não tinha de o ser, é negativa para um esforço colectivo em prol do Património. Desde miúdo me lembro de contemplar, desde a janela do meu quarto ou da Praça da República, a majestade cultural daquelas chaminés-torres. Lembro-me de imbuir-me do legado e o potencial que pulsa nas raízes da minha cidade - quer seja em árvores, fábricas, escolas, poesias ou ruas -, do sítio que foi o meu início e que será o meu fim, e vê-lo ser desrespeitado por administradores e jornais é quase como me cuspirem na cara. O apelo que eu faço é ao salvamento do património de Portalegre, e se alguém de direito considerar que a minha modesta mas genuína ajuda é útil, não hesite em informar-me.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Terrorismo de Género, por Frederico Lourenço

Considerei escrever sobre o manifesto saloio, da actual Ministra da Família e dos Direitos Humanos de Bolsonaro, cujas intenções por trás de "menino veste azul, menina veste rosa" são bastante mais obscuras, bem mais ideológicas, e reveladoras, do que muitos pensam. Há uma boa franja da sociedade brasileira que não será contemplada na protecção deste Ministério. Não quero saber de estórias de embalar. Isto vindo da ministra dos direitos humanos é preocupante. A ameaça do Pensamento Único que integra a ordem social idealizada por esta gente aí está. Todavia, não vou escrever sobre isto. Considero antes mais útil a leitura duma publicação, sobre este tema, feita por um dos maiores especialistas no Helenismo e em traduções bíblicas do país, o Professor Frederico Lourenço, na sua página do Facebook, que aqui cito na íntegra:

"Terrorismo de género

Sim. O menino que vêem na fotografia sou eu [fotografia do Prof. Frederico Lourenço, em criança, apontando uma pistola à câmara, com um esgar sério]. Foi tirada no Portugal pardacento de Salazar, quando os rapazes estavam proibidos de ter comportamentos de menina.

Eu nunca fui um rapaz masculino: interessava-me mil vezes mais observar as minhas avós a fazer lindas colchas brancas em croché do que uma coisa que eu já na altura considerava acéfala e boçal (futebol, desculpem). Eu queria aprender a fazer croché, mas, nas férias que passávamos em Portugal, os mais velhos insistiam comigo para eu fazer coisas de rapaz. Ninguém me queria ensinar croché (muito menos tricô, que exigia o manejo genial de duas agulhas!) e deram-me um brinquedo de rapaz para as mãos: uma pistola.

Não me apaixonei pela pistola, mas ficou a fotografia - tirada pelo meu avô como espécie de comprovativo documental de que eu não era maricas. Mas eu era. E sou. E o pior para Salazares e Bolsonaros é que adoro ser homossexual. Não quereria ser heterossexual por nada deste mundo, porque a pessoa que eu sou é intrinsecamente gay. Não sinto culpa, não sinto vergonha de gostar sexualmente de pessoas do mesmo sexo. É algo que me define e que eu amo.

No entanto, chegar ao amor pela minha própria homossexualidade não foi um caminho fácil. Porque fui vítima do terrorismo de género. Fala-se (sem conhecimento) de «ideologia de género», mas muito pior é o terrorismo de género. Eu e tantos rapazes da minha geração (e de mais novas, infelizmente) fomos sujeitos a um autêntico terrorismo psicológico. «Não sejas maricas». «Não fales com essa voz apaneleirada». «Comporta-te como um homem». «Pareces uma menina».

O decurso da minha adolescência foi uma desaprendizagem relativamente à pessoa que eu verdadeiramente sou. Fiz tudo e mais alguma coisa para não parecer maricas - mas é claro que um pássaro não pode mudar de penas, como tão bem se diz em inglês. E eu nunca consegui deixar a 100% de ser «apaneleirado» na minha maneira de falar e de me mexer. O meu primeiro namorado, dez anos mais velho do que eu e ele próprio vítima de terrorismo de género bem pior do que todo aquele que eu sofri, dava-me dicas constantemente para eu «não parecer maricas». Era sempre: «não fales assim, não digas isso, não segures assim o cigarro, não pegues assim no copo, não te rias assim».

Por outras palavras: «não sejas tu».

Este terrorismo de género foi de tal modo marcante na minha psique que ainda hoje apanho um choque quando me vejo na televisão: eu que pensava ter conquistado a arte de ser «straight acting» vejo, com olhar crítico, o mesmo maricas que eu era em criança. Não consegui, com quase 56 anos, extirpar de mim o paneleiro. Paciência.

Triste triste é o que vejo à minha volta neste nosso Portugal de 2019: vejo ainda hoje gays armariados por toda a parte, a fingir desesperadamente que são heterossexuais; e não são só pessoas da minha geração. São rapazes novos, na faixa dos 20 e dos 30. A internet está cheia de recantos onde a comunidade gay afirma coisas como «não gosto de efeminados», «não gosto de passivos» e, mais espantoso ainda, «não gosto de versáteis» (os heterossexuais que me estão a ler que desculpem a terminologia técnica).

O ideal dentro da comunidade gay continua a ser o homossexual que se comporta como heterossexual, que é «masculino», que não tem «trejeitos». Continua o incentivo à não assunção da própria sexualidade - porque o terrorismo de género continua, vivo da silva, tão tóxico e pernicioso como era quando eu era um rapazinho português no fascismo de Salazar, a quem os adultos deram uma pistola para as mãos para se sentirem menos angustiados pelo facto de terem de educar um menino que olhava fascinado para as mulheres a fazer croché, que se entediava de morte com futebol e que não era capaz de falar com «voz de homem».

Menino esse cujas cores preferidas eram (e são ainda) cor de rosa e azul. Porque a realidade não é tão dicotómica como os fanáticos querem que pensemos. Não é uma questão de rosa ou azul; de futebol ou croché; de ballet ou andebol. A sensibilidade humana é mais subtil do que isso.

Combatamos é a tremenda desonestidade que está por trás do termo pejorativo «ideologia de género» e foquemos a nossa atenção em fazer frente àquilo que é verdadeiramente abominável: o terrorismo de género. Não me forcem a ser quem eu não sou. Cada pessoa humana tem o direito de ser quem é."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Machado na TV

A aparição do líder da Nova Ordem Social (o nome da organização até dá arrepios) Mário Machado, no programa matinal da TVI, Você na TV, causou vasta indignação entre uma franja da sociedade portuguesa, entre os quais está a minha corrente política. A indignação face à própria possibilidade de uma carreira política para Mário Machado é compreensível. O ideário desta nova organização - que reflecte a própria ideologia por detrás de Machado - assenta em pressupostos ultra-nacionalistas de racismo e xenofobia, nos quais a democracia, a liberdade social e a equidade meritocrática económica, entre os cidadãos, estão comprometidas. Uma síntese para esta organização de "ultras" da Direita política descreve-se em um nome: António de Oliveira Salazar.

Mário Machado e a sua Nova Ordem Social querem regressar a um Portugal fascista (a recusa da democracia por eles é clara quando se referem aos restantes como "os democratas") que espelhe a visão corporativista, ultra-conservadora social e ultra-nacionalista de Salazar. Evidentemente, ninguém que preze a democracia e a liberdade individual, no seu perfeito juízo, quererá algo deste género! Mas sabendo o que é a organização, e sabendo o que é o passado violento e criminal, de associação a grupos Nazis, de Mário Machado, que se aborde a questão ética do momento: foi correcto o Você na TV encenar aquela entrevista?

Eu confesso que, tendo em conta como Manuel Luís Goucha conduziu a conversa, essa tal indignação a mim não me assistiu. Poderá parecer mentira, mas terei mesmo que 
pela primeira vez tirar meio chapéu a Goucha, equacionando só aqueles minutos de conversa. Machado foi confrontado com factos históricos básicos e elementares, remontando ao Estado Novo e à 2ª Guerra Mundial e na prática encolheu-se, fazendo-se passar por um rapazinho simpático que apenas gosta muito do Professor Salazar. O jornalista que estava ao lado dele é um idiota revelado. Sendo ele um funcionário num órgão de comunicação social independente, afirmou que Salazar poderá ter tido um papel positivo na instauração da ordem e da autoridade no país. Pelos vistos também cá há malta que quer vender a liberdade por essa tal ordem. Todo aquele teatro de Machado não me convenceu, de qualquer das formas, ele dificilmente promoveu a sua imagem. O ambiente não esteve muito propício para isso. O coroar de todo este teatro foi quando o Goucha, afirmando que vivia com um homem há vinte anos, perguntou se Machado tinha algum problema com isso, e Machado respondeu: "Se tivesse não estaria aqui". Eu desmanchei-me à gargalhada! Eu também posso ser um camaleão se me apetecer. Qualquer um pode olhar para o passado recente do indivíduo Machado e achará a resposta, ou tão revoltante, ou tão hilariante como eu a achei.

Portanto, a TVI tem a liberdade de convidar indivíduos de toda a estirpe política. Liberdade de expressão em democracia é isso mesmo. Já expressei ponto de vista similar no texto A Web Summit é organizada por fascistas?. Em simultâneo, assistimos em televisão o quanto ridículo um fascista pode realmente ser, só com o intuito de parecer amigo de todas as minorias, desfazendo-se à pressa do seu traje nazi. Posso estar a parecer demasiado optimista, mas a entrevista deu-me genuína graça. E garanto a quem estiver a ler isto que os "ultras" da Direita não vão vingar neste país de Língua Portuguesa, mas isso será assunto para daqui a poucos meses.

E, claro, Bom Ano Novo 2019... de acordo com o calendário gregoriano. Bem que podia ser o ano 2771 e estarmos a pouco mais de três meses de fazer a passagem para o ano 2772, mas Cultura e História são isso mesmo.

Feliz Ano Novo, e aí estaremos

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Brexit in the Life - O Caso May... com outras coisas pelo meio

Nunca imaginei eu que a Faculdade me fosse consumir tanto tempo e energia, ao ponto de não conseguir manter este blog tão activo como gostaria. Adiante! O semestre já está no seu ocaso - comigo já cansado, todos os dias, pelas 16 horas - e o mundo continua a girar, como tem girado nos últimos 4 mil e 500 milhões de anos. Assim sendo, canalizo as palavras deste texto a um Estado que, historicamente, é bem próximo de Portugal, sob a representação da sua Primeira-Ministra.

Theresa May, por enquanto, líder do Partido Conservador inglês, e Chefe do Governo do Reino Unido, é possivelmente a política inglesa mais incapaz dos últimos anos. A situação aborrecida, chata, em que o Reino Unido se encontra - o Brexit - já se arrasta há mais de dois anos. Foi em 2016 que o povo britânico disse não, num referendo democrático, à União Europeia (e, diga-se, em legítimo direito próprio) e, aproximando-se 2019, ainda não foi produzido um derradeiro acordo político e económico entre o RU e a UE, face à nova (mas não tão nova quanto a comunicação social pensa) situação do Brexit. May, como emissária anglo-saxónica nesta "missão impossível", em abono da verdade, pouco tem feito, quer seja pelo seu Estado ou, até, pelo seu partido. Nem o próprio partido Theresa May é capaz de servir. Sabe o leitor que mais? Arrisco-me a dizer que nem a sua nonagenária Rainha, May tem sido competente em servir.

Dentro da sua casa - o seu partido - May enfrenta dois grupos de tories: os que não queriam o Brexit, e que agora têm de o comer, procurando estes uma saída leve, almofadada por muitos acordos e acordinhos; e os "hardliners", aqueles que querem sair, e a saída é para ser ontem, mais nada! De momento, May não consegue agradar nenhum destes. Na semana passada, May encaminhou-se para reunir com os líderes da UE, com a missão de extrair deles, e de vários estados membros, numa perspectiva bilateral, um acordo Brexit derradeiro e último, de modo a este ser submetido, com todas as renegociações, ante o Parlamento do RU, para ser aprovado ou chumbado. De Bruxelas saiu de mãos a abanar. Nem um modesto esboço de acordo Theresa May levou consigo. E, visivelmente, o Partido Conservador já vai perdendo a paciência (os criacionistas do partido norte-irlandês já a perderam há muito tempo, e claramente não personificaram essa virtude tão cristã, ou será budista?).

O outro problema que assombra May chama-se Jeremy Corbyn! Corbyn é não só o líder do opositor Partido Trabalhista (Labour), é também um republicano (o que o torna também um bicho-papão para a Rainha Elizabeth II, imagino). O primeiro líder trabalhista afecto ao socialismo marxista desde há várias décadas, e uma força revitalizadora para a oposição aos tories e aos revisionistas da Terceira Via. Ora, sabe-se que Corbyn, com o Labour em bloco, era um opositor do Brexit devido às suas motivações ideológicas euro-socialistas. Mas, perante uma nova realidade, diante de uma vocalizada vontade democrática de saída, Corbyn tem de se adaptar, e evidentemente a vontade do Labour é um acordo de saída razoável, e melhor será se forem os próprios, no governo, a negociarem um acordo - é ante isto que muita gente se pergunta "Mas do que é que o Corbyn está à espera para lançar uma Moção de Censura, no Parlamento?". 

Evidentemente, May tem lidado muito mal com a sua oposição, quer com o Labour, ou com o Partido Nacional Escocês. As suas intervenções na Câmara dos Comuns são um espectáculo triste, cheias de falácias e insinuações insultuosas. Na prática, são uma cassete riscada vazia de qualquer conteúdo. No dia 12, quando lhe perguntavam quando viria esse tal acordo, ela respondia outra coisa qualquer. E já adiou, à revelia da vontade parlamentar, a discussão e votação do acordo: ora, se a senhora não é capaz de negociar o acordo...

Um outro problema com o qual o RU tem de lidar é com a fronteira entre a Irlanda do Norte (súbdita da Rainha) e a República da Irlanda. O problema, em explicação, é simples, mas em resolução não tanto. Desde a década de 90, como parte integrante de resolver os conflitos na ilha irlandesa, acordou-se que a fronteira entre as 'duas Irlandas' seria de livre circulação. Com a nova realidade do Brexit, sendo a Irlanda do Norte parte do RU - que em Março já não será mais um estado-membro da UE - não poderá mais haver uma fronteira livre entre a Irlanda do Reino, e a Irlanda Republicana que é, indiscutivelmente, um estado-membro da UE. Isto levanta velhos problemas porque, juridicamente, seria impossível manter-se uma fronteira livre entre ambas as Irlandas, visto que, desta forma, através dessa fronteira, poderiam entrar na Inglaterra cidadãos europeus de qualquer lado, visto que a República da Irlanda está na UE - e o Brexit não significa esse género de libertinagem. Como há uns tempos May lembrou o mundo, "Brexit means Brexit". O desfecho, creio, é que se erguerá novamente uma fronteira física e fiscalizada na ilha irlandesa.

Theresa May tem em mãos imensos problemas, e a sua sobrevivência política é cada vez mais inverosímil. Eventualmente, o Governo Conservador irá encerrar portas e dará lugar, se a sociedade tiver essa sorte, a um Governo Socialista encabeçado por Jeremy Corbyn que lidará melhor, não só com o Brexit, como também com os demais problemas na sociedade britânica e internacional. Corbyn tem uma franja larga da sociedade no seu apoio: boa parte da classe trabalhadora, artistas, cientistas, minorias raciais, a comunidade LGBT, por aí fora, e qualquer pessoa que seja de Esquerda claro... (curioso, só não sou artista, nem cientista, assumindo que também não estou numa minoria racial). Só há um lobby, e este bem mais poderoso que o actual Governo, que tem perpetuado larga oposição, e oposição desleal, mentirosa, nojenta mesmo, a Corbyn. O lobby dos capitalistas sionistas. Há muitos judeus poderosos (entre outros grupos) que têm acusado Corbyn de anti-semitismo devido às suas críticas ao Estado de Israel, mas este tema abordarei noutra ocasião - e se alguém quiser também a mim acusar-me de anti-semitismo esteja à vontade, que eu tenho descendência judaica.

Voltando à conclusão, que era para onde me encaminhava, tudo isto valerá nada se agora fizessem a batotice de lançar um segundo referendo, ou a batotice ainda maior de voltar atrás no Brexit sem se quer um referendo, sem consultarem os cidadãos. Isso para mim é batota pura! Se isso vai acontecer? Bem, acertei que o Brexit ia ganhar no referendo, agora palpito que, mais cedo ou mais tarde, não vai haver uma volta de 180 graus e o Brexit irá mesmo ser consumado. Em todo caso, se quiserem tirar a prova dos nove e fazer um segundo referendo - e se isto acontecer a abstenção será baixíssima, agora que as pessoas já deram conta que a política afecta as suas vidas - quem sou eu para estar contra isso. Mas que não se cometa o acto ditatorial e fascista de voltarem atrás sem uma nova consulta popular!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

José Saramago

Nada devo acrescentar a palavras como as que José Saramago proferiu, há precisamente 20 anos, em Estocolmo, na recepção do Prémio Nobel da Literatura. Fazê-lo seria algo criminalmente vulgar. Devo dizer, contudo, que para sempre ficarei agradecido a alguém que nunca tive hipótese de conhecer, mas que ainda assim agradeço profundamente, pelos seus livros e pela lucidez com que sempre falou e escreveu ante aqueles que atentamente o escutavam... e ainda escutam, e sempre o lerão. E devo também agradecer-lhe por sempre se ter mantido fiel a causas que gritavam por liberdade (a material e a da consciência) e Democracia - tão actuais como hoje, neste dia que marca os 70 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Jamais Saramago vacilou, nem neste dia, em que teve de proferir um discurso solene perante elite e aristocracia, nem neste dia Saramago deixou de ser um anti-conformista, um ateu, um comunista, e homem, todo ele, levantado do chão pobre em que cresceu. Seja talvez pelo facto de toda a sua formação ter sido por si próprio feita, que Saramago nunca esqueceu de onde veio, nem esqueceu a realidade que o rodeava. E já vão longuíssimas as minhas palavras. Resta-me dizer, Obrigado. Aqui vai o Discurso de Estocolmo (que pode ser encontrado tanto no site da Fundação Saramago como no Último Caderno de Lanzarote):

"Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.

Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.

Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.

Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto." 

sábado, 8 de dezembro de 2018

Morrison (poema)

Em memória do 75º aniversário do vulto que personificou o que é uma rockstar, mas sobretudo dum poeta americano, como aliás Jim Morrison queria ser lembrado, partilho este poema que lhe dediquei no idioma que ele amava: a língua inglesa.

Amidst an unannounced death, your face,
Your marvellous body, succumbed restless,
As if it were an angel in darkness
Yet to obtain the Heaven's grace.

Though, my hedonistic Shaman, neither Heaven
Nor material immortality you quested for,
Pure and limitless mortality you wanted more,
And so your sanctuary came at age twenty seven.

But as you departed, you also had cradle
My beautiful poetic Peace Frog -
A fire lightened in musical fable.
A life moonlight-driven in mysterious fog.

You cleansed the Doors of Perception.
Through word and melody you found
The key to a literary consecration
And the notes to a deathless sound.

You're the Lizard King
You can do anything,
This you said.
I'm a poetic being
And I write verses darkling,
By your voice being led.

To you, Jim Morrison, I write. Even though I know it will never reach your existence, it might merge with your words.

8 de Dezembro de 2018

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Um Carro sem Travões num Tratado de Tratantes

"Julgava o ingénuo de mim que Afonso Domingues tinha sido arquitecto, Luís de Camões poeta, Camilo Castelo Branco romancista, Soares dos Reis escultor, Domingos Bomtempo compositor, e afinal não era verdade. Eles e todos os outros, de fora e de dentro, andaram a enganar-me com esses formosos títulos quando o que os práticos sujeitos fizeram em toda a sua vida foi investir: é pois investimento a Sala do Capítulo do Mosteiro da Batalha, são investimento as redondilhas de Sôbolos rios, é investimento A Brasileira de Prazins, é investimento O Desterrado, e é investimento, só investimento, a Missa de Requiem. Dentro de alguns anos é possível que apenas consigamos encontrar os nomes daqueles senhores nas páginas das revistas de economia e finanças, entre os resultados de Microsoft e as perspectivas de Champalimaud. De futuro, sirva este exemplo, não serão escritas Histórias da Literatura Portuguesa, mas sim Histórias do Investimento Literário em Portugal. E os estudantes usarão as suas calculadoras de bolso para comprovar o valor de mercado de Jorge de Sena, de Eduardo Viana ou de José Rodrigues Miguéis…"

Assim abre mais uma entrada, referente ao dia 22 de Fevereiro de 1998, presente no Último Caderno de Lanzarote, de José Saramago. Saramago refere-se, de forma excepcionalmente irónica, claro, ao Acordo Multilateral sobre o Investimento (AMI) que, à data em que este artigo foi escrito, estava na mesa das discussões, no âmbito da OCDE. Saramago, criticando o modo capitalista e insensível como até a cultura tem vindo a ser abordada, denuncia aquilo que ele vê ser um "tratado de tratantes". Saramago denuncia o AMI como nada mais que um mecanismo que pretende suplantar as obras artísticas e literárias como meras bagagens de investimento de capital, da mesma forma como qualquer saco de batatas o pode ser. O Nobel, neste artigo altamente elucidativo, que pode ser encontrado, na íntegra, no site da Fundação José Saramago, afirma que os efeitos deste acordo seriam a eliminação do "conceito de direito de autor em benefício do copyright", diluindo "num suposto multiculturalismo universal as identidades culturais próprias, até à sua extinção". Saramago também foi ao detalhe dos efeitos práticos e nefastos do AMI, no mundo cultural, afirmando que "o produtor que detiver os direitos de uma obra passará a poder explorá-la sem pedir autorização ao autor (pessoa física) e com desprezo do seu direito moral". Quanto a mim, é fantástico, mas em simultâneo desconcertante, como em 1998 o Nobel da Literatura estava completamente corrente do carro sem travões que cada vez mais assolava a sociedade de então, e que aí está, ante nós, nos dias do século XXI.

Finalizando, transcrevo o remate, digno de génio literário, que fecha este depoimento escrito tão precioso para os dias de hoje: "Antigamente, nas procissões religiosas indianas, quando o grande carro de Xiva passava, havia pessoas que se atiravam para debaixo das rodas e morriam esmagadas. O AMI também é um carro gigantesco, e sem travões. Mas o pior, o pior de tudo, é que estão a empurrar-nos para debaixo dele…"

sábado, 1 de dezembro de 2018

Morreu a Ilda

Concluí a uns dias a leitura daquele que, creio eu, será o último livro publicado por José Saramago, o Último Caderno de Lanzarote, lançado este ano (ainda que o Nobel já tenha falecido há oito anos). É o último volume de diários que Saramago escreveu entre 1992 e 1998, este, em específico, referente ao ano de 1998, o ano em que o génio foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura - até hoje o único escritor de língua portuguesa homenageado com tal distinção. Nos próximo dias, uma vez que nos aproximamos do 20º aniversário da recepção do galardão em Estocolmo, irei partilhar no Pensatório da Divisão várias passagens deste derradeiro volume. Aqui vai a primeira, escrita no dia 5 de Janeiro de 1998:

"Morreu a Ilda. A Ilda era a Ilda Reis, que nos tempos de rapariga começou a sua vida de trabalho como dactilógrafa dos serviços administrativos dos Caminhos de Ferro, e depois, obrigando um corpo demasiadas vezes sofredor, esforçando a tenacidade de um espírito que as advertências nunca conseguiriam dobrar, se entregou à vocação que faria dela um dos mais importantes gravadores portugueses. Gozou dessa felicidade substituta que o êxito costuma vender caro, mas tinha-lhe fugido o simples contentamento de viver. As suas gravuras e as suas pinturas foram em geral dramáticas, cindidas, auto-reflexivas, de expressão tendencialmente esquizofrénica (diga-se sem nenhuma certeza), como se teimasse ainda em procurar uma complementaridade para sempre perdida. Fomos casados durante vinte e seis anos. Tivemos uma filha."

Nesta altura, evidentemente, Saramago já era casado há vários anos com a Pilar del Rio, em todo caso, constatando a natureza destas palavras, transparece, quanto a mim, uma última homenagem de Saramago para com uma mulher que partilhou a vida com ele, mas que, num tom mais lúgubre, transparece também um ligeiro toque de amargura, de secura.... de tristeza, talvez?! Digo isto se tivermos em conta a colocação incerimoniosa da última frase. 

Seja como for creio que o pretenso biógrafo energúmeno, que há uns dias lançou a posta de pescada de que Saramago era um grande machista, ainda deve pertencer a essa minúscula tribo de frustrados que ainda conjuram - sem quaisquer bases literárias ou filosóficas - contra o nome de José de Sousa Saramago.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Da Teoria Utópica à Ciência Prática: o legado do pensamento de Karl Marx

Aqui deixo este texto, por mim escrito em 2016, com várias correcções no âmbito da sua sintaxe e da sua qualidade frásica (correcções essas feitas ao longo de todo o texto, para que a sua leitura possa ser menos tortuosa). Muitas considerações por mim escritas nesta altura já não fazem parte integrante do meu pensamento. Outras considerações e análises, inclusive, revelam-se ingénuas ou incompletas. Todavia, na óptica da evolução do meu ideário, dos meus valores filosóficos e do meu pensamento político, considero interessante e relevante partilhar este texto, escrito no âmbito da escrita criativa e argumentativa para o portefólio de avaliação da disciplina de Português (11º ano).


"Começo a escrever este texto no quinto dia de Maio, no ano 2016, de acordo com o Calendário Gregoriano, o dia em que é celebrado o 198º aniversário de Karl Marx.


Este é um texto que eu já há muito pensava em elaborar. Não é nenhum estudo exaustivo sobre o Marxismo, e não se trata de uma análise doutoral da corrente marxista, trata-se apenas de um humilde manifesto que, embora silencioso, é honesto daquilo que foram os contributos do génio de Karl Marx para a sociedade. No fundo é uma composição sintética que aborda a visão do Marxismo por parte do cidadão e aluno de 11º ano, Xavier de Bastos Mourato Nabo.


Karl Marx foi um sociólogo, filósofo, economista, historiador, jornalista, sindicalista e revolucionário político que nasceu em 1818 no Reino da Prússia, Confederações Alemãs, e faleceu em Londres, Inglaterra, em 1883, como um apátrida. Marx nasceu num período conturbado da História, onde o sistema capitalista estava cada vez mais forte e industrial, o que implicava que a classe operária fosse massacrada a trabalhar nas fábricas. Nesta altura, o trabalhador tinha de se adaptar à velocidade da máquina com a qual operava e, já nesta altura, a expressão "tempo é dinheiro" era incrementada e levada à letra. Os grandes magnatas queriam fazer a maior quantidade de capital possível, dependendo irremediavelmente da velocidade da produção, consequentemente, sem olharem a meios para atingirem os seus ricos fins, muitas vezes aceleravam a velocidade de trabalho. As consequências na mão-de-obra eram notoriamente deploráveis: o operário não tinha quaisquer condições de trabalho; muitos operários morriam, não havendo se quer seguros de vida em caso de acidentes graves; as horas de trabalho podiam, em certos casos, atingir 16 horas; os salários eram baixíssimos. Outro aspecto desumano no que concerne a era do Capitalismo industrial era o facto de serem utilizadas crianças nas fábricas. Enquanto maior parte da população vivia em condição operária, um pequeno grupo de magnatas industriais ia comprando as nações aos poucos, o pobre operário ficava cada vez mais moribundo, e o grande corporativo cada vez mais rico! Era dinheiro fácil e sujo - arranjavam muita mão-de-obra, pagavam-lhes mal (aos operários) e ainda trabalhavam ao ritmo que o senhor rico bem entendesse. Era esta a principal fonte de riqueza da burguesia!


Enquanto este circo de capital crescia, e a situação do cidadão comum piorava, as primeiras vozes de insurgência ouviam-se através das primeiras associações mutualistas e dos primeiros sindicatos locais. Entretanto, também uma nova onda política ganhava força - O Socialismo Utópico. Esta incompleta ideologia política defendia a divisão mais igualitária da riqueza. Defendia também o princípio do colectivismo no trabalho, e estava a favor da classe operária. Esta vertente política foi influenciada pelos movimentos iluministas da ala esquerdista da Revolução Francesa. O grupo mais proeminente foi o Clube dos Jacobinos liderado pelo "Incorruptível" Maximilien de Robespierre. Marx nasceu precisamente na altura em que estes movimentos socialistas começavam a ganhar força na luta contra o "dinheiro fácil e sujo" dos magnatas industriais. Contudo, no máximo, o Socialismo Utópico falava de uma sociedade sem classes onde tudo era de todos, mas não explicava como ou quando é que tal coisa era atingida. Os movimentos sindicalistas e mutualistas apoiavam-se nestas ideias que necessitavam de complementarização e tentavam apoiar a luta da classe operária por melhores condições de vida, luta esta que muito era refreada. Marx iniciou a sua actividade revolucionária na década de 30, e já nessa altura se considerava ateu. Uma das suas principais influências foi o filósofo iluminista Georg Hegel, autor do desenvolvimento da tríade: Tese, Antítese e Síntese - a Dialéctica Materialista, que iria ser muito relevante no desenvolvimento da teoria do Materialismo Histórico de Marx.


Eventualmente, Marx acabou por conhecer Friedrich Engels, um compatriota prussiano filósofo, sociólogo e empresário. Estes dois filósofos, inspirados nos princípios do Socialismo Utópico e no hegelianismo, iniciaram juntos um estudo sobre economia política. Karl Marx, provavelmente desde muito cedo, percebeu que o que estava errado com o sistema mundial era o próprio paradigma, o Capitalismo portanto. Então, Marx iniciou um estudo ao núcleo dos meandros do sistema capitalista, que iria perdurar até ao fim da vida de Marx, e culminaria nos variadíssimos volumes de "O Capital". À medida que Marx ia ficando mais velho, as ideias do revolucionário iam ficando mais claras e, progressivamente, Marx ia-se distanciando do Socialismo Utópico. Aliás, ia complementando esta teoria que até então não passava de meros ideais pré-comunistas e colectivistas. Entre o tempo em que Marx saiu das Confederações Alemãs e se estabeleceu em Londres, Marx residiu na França e na Bélgica. Durante este período, Marx dirigiu inúmeros jornais pró-socialistas onde expunha, em primeira mão, as suas visões, não só da miséria em que vivia a maior parte da população europeia, mas também da prestação dos socialistas e sindicalistas pela Europa fora. Segundo Marx, as organizações sindicalistas eram, na sua maioria, incompetentes, burocráticas, e não defendiam dignamente a classe operária. Marx era já nesta altura um ideólogo reputado no palco europeu e logicamente odiado pela maior parte da classe burguesa (uma minoria dos burgueses eram filantropos e acreditavam que as exigências dos sindicatos eram mais que justificáveis). Foi durante a década de 40 que Marx, aplicando a dialéctica hegeliana, com os seus grandes contributos para a corrente socioeconómica do Socialismo Científico (que estava a nascer) e o seu patenteado Materialismo Histórico, formou aquilo que iriamos mais tarde conhecer como Marxismo.


Em 1847, Marx e Engels iniciaram um projecto que viria a ser a mais famosa obra marxista. Os dois revolucionários elaboraram de 47 até 48 (coincide com as revoltas proletárias de 1848) o Manifesto Comunista, onde expõem a visão marxista da História mundial - o Materialismo Histórico - e foi este manifesto a directriz da Liga Comunista fundada por (entre outras pessoas) Karl Marx e Friedrich Engels. Eventualmente, Marx foi forçado a abandonar a Europa continental e também o seu estatuto de nacionalidade foi cancelado pelo Império do Kaiser. Por consequência, Marx estabeleceu a sua família, os seus estudos e a sede da Liga Comunista na Londres Vitoriana. Durante a década de 50, Marx aumentou o leque da sua influência (que já era grande) escrevendo para jornais norte-americanos, lançando livros expondo a doutrina marxista, e também como activista sindical. Em 1864, com o apoio financeiro de Engels, Marx protagonizou, com outros socialistas e anarquistas, a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, mais conhecida por 1ª Internacional (1864-1876). Este foi o primeiro sindicato global! A cerimónia de abertura teve lugar no St. Martin's Hall, em Londres, com um discurso do próprio Karl Marx. Nos anos seguintes, Marx foi decisivo na estruturação desta organização sindical que unia todo o tipo de esquerdistas, socialistas e anarquistas. A 1ª Internacional também conseguiu diminuir substancialmente as horas de trabalho de cada operário. Três anos após a fundação da 1ª Internacional, Marx lançou por fim aquela que era por fim a última peça que faltava no puzzle do pensamento marxista: o Volume I de "O Capital". Esta obra, que teria mais dois volumes, é a derradeira exposição do falhanço em que o Capitalismo se tornou, e apresenta um modelo socioeconómico que suplantaria, temporariamente, o Capitalismo - o Socialismo. É com o lançamento desta extensiva obra que podemos seguramente afirmar que Marx foi um economista.


Marx, infelizmente, só teve mais 16 anos de vida após o lançamento do Volume I d'O Capital, mas foi neste espaço de tempo que Marx alcançou fama mundial e que liderou os destinos da 1ª Internacional até 1876, com a ajuda do seu fiel seguidor Friedrich Engels. "No dia 14 de Março, a um quarto para as três à tarde, o maior pensador vivo deixou de pensar. Ele tinha sido deixado sozinho durante dois minutos, e quando regressámos, encontrámo-lo na sua cadeira, dormindo pacificamente - mas para sempre." - estas foram uma das muitas palavras proferidas por Engels no funeral de Marx em 1883. A vida privada de Marx com a sua família foi uma de algumas dificuldades financeiras. O rendimento de Marx provinha do seu trabalho sindical, dos artigos que escrevia para variadíssimos jornais e dos seus livros. Por conseguinte, Engels, homem herdeiro de uma fortuna milionária, deu apoio financeiro à família Marx. Karl Marx morreu com 64 anos, como um apátrida, pensando e escrevendo, sendo considerado na altura, um dos socialistas e sindicalistas mais reputados do mundo. As últimas palavras de Marx foram: "Vão, saiam! Últimas palavras são para tolos que nunca disseram o suficiente."


Tendo isto tudo dito sobre a vida e os tempos de Karl Marx, está na hora de demonstrar o porquê da minha esperança teimosa no modelo socialista. Falar de Marx não basta falar só no que ele fez. Convém explicar também, afinal, quais eram os seus muito revolucionários ideais. Comecemos então por explicar como está estruturado, do ponto de vista filosófico, sociológico, económico e historiográfico, o Marxismo. O Marxismo divide-se em três conceitos: Dialéctica Materialista, Materialismo Histórico e Socialismo Científico. O Materialismo Histórico é a visão colectivista da História e. na sua essência, diz que a História não se desenrola, essencialmente, pelo aparecimento de novas ideias mas sim devido a uma constante luta de classes. Na íntegra, a visão marxista da História afirma que o grande motor da História são as revoluções provocadas pelas classes dominadas. No Manifesto Comunista, Marx e Engels expõem esta teoria. Segundo o Materialismo Histórico, a luta entre duas grandes classes é, na verdade, uma constante na História. Temos por um lado a classe dominante que, apesar da sua minoria demográfica, detém os meios de produção, sendo, por isso, sempre esta classe aquela que detém o poder na sociedade. No lado oposto temos a classe trabalhadora que está em maioria demográfica e é a classe que efectiva a produção com o seu trabalho. Apesar destas duas classes assumirem várias formas ao longo a História, assumirem diferentes nomes, assumirem diferentes modelos e diferentes pontos de vista, os fins acabam sempre por ser os mesmo: a classe dominante quer sempre dominar, e as ‘massa’ tentam reivindicar sempre os seus interesses e direitos.


Durante longos séculos, o sistema de produção assentou sempre numa sociedade esclavagista, desde a antiga Mesopotâmia (há 7000 anos) até à queda do Império Romano Ocidental no ano 476. Aqui, a classe dominante era composta pelos monarcas déspotas, os líderes militares (porque eram tempos em que o poder central vivia, sobretudo, para a guerra) e os altos dignatários religiosos. A classe trabalhadora era composta por camponeses - que tinham de, por vezes, cumprir o obséquio de fazer um muito fatal serviço militar, e por escravos (que eram muitos). O sistema esclavagista durou milénios atravessando o Império Persa, o Egipto Faraónico, a Civilização Helénica e o Império Romano. Tomando proveito da segregação em duas metades do Império Romano, os povos ditos bárbaros, que pertenciam à classe trabalhadora, insurgiram-se com o escudo e a espada contra os Warlords de Roma. Esta revolta à escala europeia, a que foi dada o nome de "Invasões Bárbaras", fragmentou em vários reinos a metade ocidental do ‘super-império’. Esta alteração política, que também teve lugar no Norte de África, instaurou um novo modelo, e como acontece sempre com as alterações de paradigmas históricos, as duas grandes classes assumem diferentes e mais complexas formas, mas o propósito mantém-se o mesmo!


Com um novo poder a tomar conta de grande parte do mundo, o paradigma muda consequentemente. Os senhores bárbaros contra os romanos, eram, na sua maioria, monarcas reconhecidos pelos seus povos e vassalos, logo, a divisão da metade ocidental da Europa em reinos foi um dado mais que adquirido. Este novo sistema de produção e criação de riqueza tornou-se mais complexo que o simples, porém desumano, sistema esclavagista. Dá-se o nome de Feudalismo a este sistema! Em países como o Japão, este sistema deixou uma grande e duradoura marca na história do país. Qualquer pessoa minimamente interessada pela História já ouviu falar do "Japão Feudal". O feudalismo baseia-se na divisão de terrenos e senhorios pela classe dominante - nobres e clérigos, portanto, sendo que a nobreza descende dos senhores da guerra bárbaros, e o clero provém evidentemente da Igreja Católica, que já na altura dominava a Europa. A classe trabalhadora, de acordo com Marx e Engels, é o chamado Terceiro Estado - camponeses, artesãos, mercadores, burgueses. Esta relação entre estas duas classes traduzia-se num "automático" sistema de vassalagem, em que o Terceiro Estado (liderado pela burguesia) devia vassalagem à nobreza; dentro da nobreza haviam hierarquizações de vassalagem; os ricos-homens (altos nobres) deviam vassalagem directa ao monarca; o monarca por conseguinte só devia vassalagem ao Papa, e este deveria vassalagem a Deus, se este existisse claro. A classe trabalhadora era assalariada pelos Senhores Feudais, paga ao dízimo, evidentemente, com condições de trabalho tristes e desproporcionalmente pagas. O Materialismo Histórico defende, aqui, uma renovada luta entre classes, como a que sucedeu durante a História Pré-Clássica e Clássica. Para formular o eterno sistema de luta entre classes e a suplantação de um sistema por outro, Marx e Engels recorreram à Dialéctica Materialista, inspirada na teoria hegeliana (Georg Hegel). Pegando no exemplo da luta durante o período feudal: a nobreza e o clero (a classe dominante) representam a Tese; o Terceiro Estado, liderado pela burguesia (classe trabalhadora) representa a Antítese; o resultado desta luta de classes que iria concretizar, por completo, por volta dos séculos XVI, representa a Síntese. A síntese da luta entre estas duas classes do Feudalismo deu origem a um novo paradigma: o Capitalismo comercial!


No sistema capitalista, que é o sistema em que hoje vivemos (e não é necessário ser-se marxista para concordar com isto) a sociedade é regida pela circulação do capital e pelas desatualizadas ‘leis’ da oferta e da procura. É regida pelos movimentos de uma entidade abstrata denominada Mercado. No Capitalismo, apesar de vivermos em países supostamente sincronizados através da união dos povos, é o sucesso individualista que conta - uma contradição flagrante. Nos dias da democracia capitalista, não se vive no final de contas em democracia, mas sim numa plutocracia disfarçada de democracia. Numa plutocracia, são as corporações económicas privadas que dominam, e é na prática o que acontece: são estes grupos que financiam campanhas e partidos; são eles que regulam os bens básicos das pessoas por conta e risco deles, mesmo que nós não votemos neles; toda a legislação das grandes organizações internacionais é feita à medida das corporações; tudo isto com interesses que giram à volta de um bem - o grande capital! No sistema capitalista, os princípios iluministas de eleição popular de líderes e da tripartição dos poderes de Montesquieu foram refreados de cima a baixo. Ideais iluministas estes que Marx e Engels sempre fizeram questão de citar e respeitar. Mais especificamente, no Capitalismo industrial, o tal ambiente reinante aquando do nascimento de Karl Marx descrito na página 1, onde o operariado era tratado de forma que nem se devem tratar animais, era o sector secundário que fazia movimentar a economia e o capital, ao sabor do sacrifício diário humano nas fábricas. Hoje em dia, o Capitalismo não é só mercantil ou industrial, são estes dois conceitos, com os mercados e os bancos à mistura. No que diz respeito à Luta de Classes neste paradigma civilizacional, esta é tão real hoje como era no século XIX, ou no século XVI quando a Burguesia tomou controlo. Desde os séculos XVI-XVII que a Tese é representada pela Burguesia, e a Antítese é representada pela classe manufactureira, que evoluiu, aquando da Revolução Industrial, para classe operária graças à urbanização dos países de todo o mundo - é o Proletariado (maioria)!


Hoje, século XXI e 149 anos depois de ter sido lançado "O Capital", a mesma luta continua a ter lugar, embora tenha evoluído de complexidade: o Capitalismo é mais complexo, a demografia aumentou, o capital cresceu, os sectores de actividade diversificaram-se e descentralizaram-se do sector secundário. Contudo, apesar destes se terem dispersado, assim deixamos de falar no sacrifício da classe operária apenas, passamos então a falar do sacrifício dos funcionários públicos (professores, médicos, etc.), do sacrifício do agricultor, do sacrifício do operário, claro (ainda existem muitos), do sacrifício do empregado privado. Deixa de ser apenas o operariado o centro das atenções, passa a ser um leque populacional cada vez maior. Em última análise, o proletariado subiu em número (embora de forma discreta) e o Marxismo nunca esteve tão corrente, dados os efeitos do Capitalismo no mundo de hoje. Esta última observação não é uma observação de Karl Marx, não é uma observação de Vladimir Lenine nem de Leon Trotsky, não é uma observação da Rosa Luxemburg, é uma observação de comunistas e socialistas contemporâneos como José Saramago, Bernie Sanders, Yanis Varoufakis. Até Noam Chomsky faz uma análise com certas semelhanças, apesar de outras divergências com Marx. Também esta é uma análise da IMT (International Marxist Tendency). Até o Warren Buffett já admitiu que existe de facto uma luta entre duas grandes classes!


Voltando ao Materialismo Histórico e à solução socialista, o Marxismo previa, e ainda prevê, uma futura revolução proletária, uma síntese conclusiva desta longa luta entre Burguesia e Proletariado. Marx e Engels nunca foram específicos quanto ao espaço de tempo que levaria até que essa revolução tivesse lugar, mas falharam quando disseram que o primeiro país a tentar esta revolução seria a Alemanha. Acabou por ser a Rússia, com a Revolução Bolchevique de Lenine. O Materialismo Histórico diz que, a dada altura, o proletariado iria triunfar sobre a classe burguesa, iniciando assim um novo sistema, o Socialismo ou Ditadura do Proletariado (ou da maioria), que é no fundo o que a democracia é - a vontade da maioria popular. Marx disse que, em qualquer período histórico, fosse qual fosse o poder imposto, o Estado cumpriria sempre com os interesses da classe dominante, e de facto é verdade. Não é necessário ser-se marxista para concordar com isto. Uma vez a classe trabalhadora tornando-se a classe dominante, também seria pela primeira vez na História que teríamos a verdadeira maioria a governar, e o Estado, como representante dos interesses da classe que detém os meios de produção, iria sistematizar-se a favor do proletariado. A Ditadura do Proletariado seria o cumprir prático e real do Socialismo Científico - colectivização do trabalho produtivo; abolição progressiva das corporações privadas, unilaterais ao Estado; detenção dos meios de produção e da riqueza por parte do Estado - que representaria o proletariado.


Socialismo Científico é a complementarização do Socialismo Utópico, criado e desenvolvido teoricamente por Marx, como parte do pensamento marxista. É a guia de como pôr em prática um modelo socioeconómico socialista, abordando aspectos como a Luta de Classes e os meios de produção, e também o papel do Estado. Coisas que o Socialismo Utópico não considerava.


O Comunismo seria o novo e final paradigma da civilização humana após a Ditadura do Proletariado - uma fase – o socialismo - meramente transitória. Segundo o marxismo, não é certo quanto tempo é que o regime socialista (que não deixaria de ser democrático) poderia durar. Poderiam ser décadas ou séculos. Contudo, Marx afirmava que seria a fase final da derradeira revolução que punha um fim às injustiças e desigualdades sociais. A razão para haver diferença entre Socialismo e Comunismo é muita. Muito mais do que a diferença entre um funeral e um enterro! Enquanto no Socialismo existe um Estado, um Governo, e duas grandes classes, embora só uma detenha os meios de produção, e produza com o trabalho, directamente, tudo em simultâneo - uma definição possível desse modelo socioeconómico -, o Comunismo, todavia, não se trata meramente de um modelo socioeconómico. O Comunismo é um novo mundo onde não existem nações, não há religião, não há Estado ou Governo, não há propriedades privadas (grandes fragmentos de terra com uma única entidade possuidora), não há leis governamentais. Toda a gente produz para toda a gente, o trabalho é cooperativo, não há classes ou crispações de riqueza. É uma sociedade ideal sem dinheiro, onde tudo é de todos. De acordo com o Marxismo, isto sucederia naturalmente, quando as pessoas já se tivessem habituado espontaneamente ao propósito colectivo, numa sociedade nova, com um espírito novo, com um novo homem: o Homem Comunista - um indivíduo altruísta que produz para os outros sem intenção de lucro, sabendo que terá recompensas do próximo em troca.


Isto foi o que Karl Marx escreveu e previu que aconteceria. Concordo com quase tudo o que defende o Marxismo, com a excepção de um pormenor muito importante. Não deveria ser necessário ser-se marxista para reconhecer a veracidade da teoria do Materialismo Histórico, nem deveria ser necessário ser-se marxista para concordar que o Capitalismo é um sistema apelativo à corrupção de espírito e que a iminente alternativa é um modelo socialista. Mas visto que o número de pessoas que concorda com esta visão, mundialmente, não é muito grande, então eu declaro-me como um marxista. O ponto do qual eu discordo com Marx é a ideia de Comunismo! Não é que seja uma péssima ideia, mas pelo facto de ser impossível atingir esse mundo quase perfeito, onde seria possível combinar conhecimento, organização genuína quase natural e prosperidade colectiva numa sociedade sem dinheiro ou Estado. Não passará de uma utopia. Infelizmente, a nossa consciência biológica não permite tal mundo. Para mim, Marx estaria muito mais correcto se se tivesse limitado a afirmar que o estádio final seria o paradigma socialista, mas Marx era um verdadeiro sonhador, e queria acreditar no instinto colectivo biológico dos homens, já há milénios suprimido pelo próprio homem. Diria até que é impossível ter tantas pessoas num planeta com quase 13 mil quilómetros de diâmetro a cooperar numa sociedade perfeita como essa.


Após Marx e Engels, muitos sociólogos, historiadores, politólogos, economistas, filósofos, escritores, jornalistas, professores, sindicalistas, empresários, militares, políticos e uma boa dose de energúmenos interpretaram ou tentaram interpretar a teoria marxista escrita pelos mestres do Marxismo (Marx e Engels). Muitos deles, de facto, tentaram subverter a ideologia, com muitas falácias à mistura. O primeiro país a implementar um sistema socialista foi a Rússia, com a Revolução Bolchevique, após o derrube do Absolutismo dos czares, renomeando a nação para URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Esta revolução teve como protagonistas Nikolai Bukharin, Grigori Zinoviev e o Comandante-General do Exército Vermelho, Leon Trotsky. Contudo, ninguém mais brilhou na revolução de Outubro que Vladimir Lenine. Lenine foi o impulsionador do Marxismo-leninismo: a interpretação da teoria de Marx e Engels pelo próprio Lenine. Sem dúvida nenhuma, nada melhor do que ver o que é a teoria marxista do que ler o Manifesto Comunista ou O Capital, mas Lenine é talvez um dos melhores interpretadores práticos do modelo socialista científico.


As agendas dos partidos marxistas são fiéis aos dictames socioeconómicos do Socialismo Científico, consistindo em: combater as privatizações; taxar os empresários da classe dominante; apostar no emprego; reduzir fortemente a carga fiscal aos mais pobres; acabar com as remunerações extra aos abastados; proibir os paraísos fiscais; intervenção e planeamento da economia combatendo assim a especulação e os jogos capitalistas das Bolsas; derrotar a influência dos Mercados e dos plutocratas; terminar com o financiamento e intervenção estatal no ensino privado; intervenção pública no sistema bancário, quer os bancos sejam privados ou do Estado; cooperatividade e colectividade do trabalho sobre forma de associativismo e sindicatos; legislações proteccionistas ante o investimento privado. Estas medidas, aplicáveis nos dias de hoje, estão inspiradas nos textos de Marx e Engels, e, posteriormente, nos projectos soviéticos do 1º Secretário-Geral, Vladimir Lenine, transpostos das ambições e bases económicas do Marxismo para a prática. Sem dúvida alguma o Socialismo começou por funcionar na URSS. É a prova de que a teoria socioeconómica evoluiu da utopia para a ciência aplicável. É a prova de que Marx não escreveu disparates. Mas então, o que afinal falhou na URSS?


Em primeiro lugar, como acontece em qualquer nação, os efeitos de uma guerra civil - sendo que neste caso milhões de vidas foram ceifadas - são duradouros. A misteriosa morte prematura de Lenine também prejudicou imenso a Revolução Socialista, uma vez que as entidades que suplantaram os marxistas-leninistas não queriam saber tanto dos direitos do povo russo, estando antes mais preocupados com um corporativismo estatal que iria até aos dias de hoje prejudicar o legado de Marx. De quem falo então? Falo de Estaline, o novo Chefe de Governo da URSS após Lenine! Este é uma das principais figuras por detrás da danificação do marxismo, e por detrás da destruição da Revolução Socialista no Leste. Com Estaline, e aqueles que vieram a seguir a ele, a URSS deixou de defender os direitos do proletariado, refreando tudo aquilo que eram iniciativas sindicais marxistas. Os campos de concentração na Sibéria foram reactivados e a opressão militar aos próprios cidadãos soviéticos foi praticada. Os membros do Comité Central eram indivíduos que tomavam controlo privado de muitas corporações de armamento. A URSS de Estaline tornou-se numa nação fechada, deixando no esquecimento as ambições de revolução proletária internacional de Lenine. A URSS acabou por ser nada mais do que uma máquina totalitarista capitalista militar. Pior que tudo, Estaline ordenou a execução de vários membros do partido e do Comité Central. Pessoas a quem Lenine confiara a revolução. Para além de mais, Estaline orquestrou um dos mais infames assassinatos do século XX. Falo do vil e cobarde atentado à vida de Leon Trotsky. Seria, de acordo com a vontade de Lenine, Trotsky a guiar a URSS no futuro. Não só era um excelente analista da sociedade e da obra de Marx, como também era uma personalidade carismática, imponente e intelectual. Pior que qualquer outra coisa, foram as circunstâncias em que Estaline tomou conta da URSS: não só Lenine tinha deixado claro em testamento que queria Estaline fora do partido devido a achá-lo perigoso e subversivo, como também designaria Leon Trotsky como o próximo Premier Soviet. Apesar disso, Estaline e seus seguidores foram capazes de influenciar o partido a ignorar este apelo do Líder quando este adoeceu. Também a majestosa cerimónia fúnebre de Lenine, sob a tempestade russa, presidida por Estaline, na qual Trotsky foi dissimulado de modo a não estar presente, não correspondeu aos apelos da família de Lenine. Aliás, a esposa de Lenine viu no comportamento de Estaline a derradeira falta de respeito, uma vez que Lenine nunca quereria um Mausoléu onde permaneceria embalsamado para sempre! Enquanto Trotsky andava fugido pelo México à KGB, Estaline e os partidos estalinistas da Europa lançavam uma horrorosa campanha de associação de Trotsky com o Fascismo. Foi eventualmente em 1938, com acérrima participação, embora forçadamente à distância, do próprio Trotsky, que se fundou a IV Internacional: uma organização trotskista que consistia em desmascarar o estalinismo e relembrar ao grande público qual a doutrina do Socialismo Científico, escrito por Marx e Engels, e qual o significado de Comunismo.


Após o assassinato de Trotsky, a URSS alterou-se completamente, destruindo as aspirações do proletariado sem este compreender. A China de Mao Tsé-Tung, e a Coreia de Norte de Kim Il-Sung seguiram a doutrina totalitária de Estaline, e que também seria seguida na URSS pelos seus governantes posteriores (e o mesmo sucederia nos países, supostamente socialistas, que seguiram o mais proveitoso estilo estalinista). Também na América Latina, os líderes ditos socialistas revelaram ser antes corruptos interessados no empobrecer do seu próprio povo em prol da sua riqueza pessoal.


Eventualmente, com a morte do Presidente Franklin Roosevelt, um socialista que resgatou o mundo da Grande Depressão, através do New Deal, foi lançada por todo o Ocidente a Doutrina Truman que procurava antagonizar o Leste e fazer dos EUA os grandes heróis do mundo. A doutrina do Presidente Harry Truman fixava-se no incondicional ataque às políticas da URSS, e, para isso, era necessário antagonizar o Marxismo em primeiro lugar, visto que era o suposto elo de ligação entre os países ditos socialistas. No fim, parece um pouco a caça às ‘bruxas’ do século XX. Na minha íntima conclusão, foi uma diabolicamente genial manobra da Burguesia moderna para destruir um movimento que ameaçava demolir os alicerces do sistema capitalista. Afinal, a plutocracia estaria em risco com uma eventual "Revolução Bolchevique" à escala internacional.


Nos dias de hoje, apesar da imensidão de partidos alegadamente socialistas, movimentos marxistas e sindicatos, a projecção destas instituições tem vindo a decrescer nestas últimas décadas. Por entre as razões por detrás de triste fenómeno político, está o facto destes movimentos se terem alienado de outras organizações, ou por terem perdido membros, porque entretanto esses desertores tinham arranjado "tachos" noutra associação - o que indica que não eram membros ideológicos. Também alguns dos líderes desses movimentos talvez não tivessem força suficiente para resistir à alienação, profetizada por alguns como iminente. Mesmo que alguns destes movimentos se tenham misturado nos costumes conformistas do status quo, muitas organizações mantiveram-se fiéis à sua ideologia e aos seus propósitos originais, resistindo ao teste do tempo. Exemplos são: o Partido Comunista Português, o Partido Trabalhista Inglês (com uma renovação graças ao seu novo líder, Jeremy Corbyn), o Partido Comunista Brasileiro, o Partido Comunista Japonês, o Sinn Féin na Irlanda, o Partido da Esquerda sueco, o Partido Comunista dos EUA e o Partido Socialista da República da Irlanda; só para nomear alguns. Também Bernie Sanders, nos EUA, tem lutado contra o estabelecimento metálico de Wall Street. Também a IMT (International Marxist Tendency), sediada em New York, tem feito um bom trabalho na defesa do Marxismo puro, e na defesa de figuras danificadas como Vladimir Lenine e Leon Trotsky. O IMT também se tem focado a denunciar os regimes e partidos estalinistas e maoistas como falsos socialismos.


Apesar de todos os turbulentos acontecimentos do século passado, e apesar de todos os tiranos que se imiscuíram na revolução proletária, factores esses que serviram como carrasco de Marx, ainda hoje há milhões de marxistas por esse mundo fora. 


Não escolhi ser socialista. Quando comecei a descobrir a política, e comecei pela portuguesa naturalmente, sempre achei que os que estavam no poder não faziam nada mais do que aplicar políticas não benéficas para o povo. Depois, mais tarde, após ter defendido as políticas das potências nórdicas, porque julgava que o mal residia somente no Sul da Europa, percebi que de facto existe uma ordem mundial que ao longo dos tempos tem gerido o sistema a seu belo proveito, colocando a população sob o manto da ignorância. Com isso, evidentemente, descobri que a política não tem só "maus", e identifiquei-me com os valores dos partidos esquerdistas: colectivismo, liberdade social, autoridade férrea na economia, defesa do serviço estatal, abolição do Mercado Livre, etc. Até que evoluí na estrutura das minhas ideias ao descobrir o Marxismo. Agora, mais do que nunca, o Socialismo faz sentido. Outra coisa importantíssima que aprendi com o Marxismo foi que são as massas revoltosas, bradando pelos seus direitos, os motores da mudança na História. O legado poderá ter sido refreado no século XX, mas cá estaremos no século XXI para retornar, sobretudo, o bom nome de Karl Marx à memória colectiva e alterar o paradigma mundial.


Por fim, gostaria de mencionar 12 grandes socialistas pioneiros, revolucionários e contemporâneos (ordem crescente consoante os contributos à ideologia, segundo a minha cabeça e jovem humilde opinião, claro): Jerónimo de Sousa, Jeremy Corbin, Bernie Sanders, Rosa Luxemburg, Franklin Roosevelt, José Saramago, Friedrich Engels, Álvaro Cunhal, Leon Trotsky, Vladimir Lenine, Noam Chomsky, Karl Marx."