sexta-feira, 12 de abril de 2019

Missas que fazem Escola

Pelos vistos, há direcções de escolas e associações de pais, por esse Portugal fora, que ainda não compreenderam o princípio da laicidade do Estado na República. Apesar das constantes e suscitantes dúvidas relativamente a este princípio estar presente na Constituição Portuguesa (o actual Presidente da República parece não o compreender, com os seus números protagonizados em Fátima), a Fonte Fundamental é bem clara. Diz o Artigo 41º: "As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto"[4ª alínea]. Que significa isto? Efectivamente, que as instituições religiosas, embora livres, não são parte orgânica do Estado. Significa que o Estado é imparcial quanto a todas as religiões, não tendo nenhuma, nem reconhecendo oficialmente a existência de um deus.

Esta achega à Constituição vem a propósito dumas situações, das quais obtive conhecimento através do Diário de Notícias, no qual é relatado que em concelhos como Vieira do Minho, Famalicão, Bragança, Viana do Castelo e Vila Real, há dirigentes escolares que, sob o aval dos respectivos conselhos gerais, promovem, no âmbito da própria escola, a realização de missas católicas, com óbvia vista à catequização dos próprios alunos. É assegurada, na própria notícia, que estas cerimónias religiosas não são de assistência obrigatória, todavia, o Presidente da Associação Ateísta Portuguesa, Carlos Esperança, ao DN, "garante já ter recebido queixas de pais cujos filhos se sentem pressionados a matricular-se em Educação Moral e Religiosa". A disciplina de Educação Moral Religiosa e Católica, oferecida pela escola pública como opcional, é o lobby interno que promove este género de digressões. Confesso que, por deliberada vontade, frequentei a disciplina do 5º ao 9º ano. Duas razões se prendem com tal, uma vez que, já na altura (efectivamente a partir do meu 6º ano), eu era ateu (embora só me viesse a cruzar com o conceito concreto por volta do meu 7º/8º ano): tinha, pelo menos, mais uma visita de estudo garantida, e passava 45 minutos bastante engraçados com os meus amigos. Devo dizer também que o professor Paulo Neves foi sempre uma pessoa impecável. Apesar dos meus tempos bem passados em EMRC, não me tranquiliza ver esta disciplina a ser utilizada como forma de "instrumentalização da escola pública", como afirma Ricardo Alves, Presidente da Associação República e Laicidade, ao DN. E quando a escola pública tem uma visão oficial em favorecimento duma religião, tal me remete a tempos mais fascizantes da História de Portugal.

Poderá o leitor afirmar, "mas isso é a sua opinião, que a escola não pode promover os bons valores católicos. Portugal é um país católico!". Nesse caso eu digo: Portugal até podia ser um país de gente que acredita no Monstro do Esparguete Voador, a Constituição da República - dos melhores exemplos de bom senso neste quase milenar país - é, outra vez, claríssima! Afirma o Artigo 43º: "O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas"[alínea 2ª]; "O ensino público não será confessional"[alínea 3ª]. Qualquer pessoa minimamente letrada, lendo estas alíneas d'ouro, compreenderá a machadada inconstitucional que tem sido perpetuada nestes concelhos (e noutros, possivelmente). Aliás, muito tenho pensado, e cheguei à conclusão que nem a própria existência da disciplina de EMRC na Escola Pública é constitucional. Ou seja, eu, e muitos, temos andado a participar em inconstitucionalidades, e ninguém me foi capaz de avisar... Ante estas missas de escola, PS, PSD, CDS (óbvio) e Governo da República, nada fizeram. A justificação que deram é que estas promoções religiosas estão contidas  dentro do princípio da autonomia das escolas. Uma coisa é a autonomia legal, e tais são bastante saudáveis. Outra é dirigentes escolares quebrarem a Constituição. Outra, contida nesta última, é, dentro do espaço do ensino público intelectual, beatos andarem a lavar a cabeça de menores segundo uma cartilha religiosa estabelecida, em detrimento doutras confissões, promovida pelo Estado. Isto não pode ser! Alguém tem de ser chamado à justiça. Com a laicidade do Estado não se brinca. Esta nação não se pode assimilar aos EUA, onde a laicidade também existe, mas é violada a todo o santo minuto.

Ora, é verdade! Mais um texto a achincalhar a religião, e com toda a razão, diga-se. Mas não me fico por aqui. O próximo capítulo será sobre as mais recentes actividades dum decano entre os medievalistas (não no sentido do estudo historiográfico) - o ex Papa, Joseph Ratzinger.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Reminiscências da Inquisição

Foi noticiado por vários órgãos de comunicação social que a Igreja Católica praticou mais outro crime intelectual. Em causa está um grupo de padres católicos, na Polónia, que, ora por mau gosto, ora pela patologia que lhes é inerente, decidiram que deviam queimar livros considerados "impróprios e ofensivos à moral cristã". Neste Index do Santo Ofício dos tempos modernos, encontram-se livros da série literária Harry Potter, escritos pela J.K. Rowling. Antes de mais, fazendo uma declaração de interesse, acho que a Joanne merecia todo o género de honras literárias, desde 2007. Também quero afirmar que, no domínio da literatura (e de muitas outras coisas) nada me é mais querido que estes livros. Todos os Verões, desde o de 2016, faço questão, com grande delícia (porventura ofensiva e imoral para estes neo-medievalistas), de arrumar com as 3000 páginas dos 7 volumes... o que costuma levar um mês. Certo. Dito isto, o leitor compreenderá o quanto sentimental sou perante esta Obra da Literatura imensa, que toca em tantos pontos da vida e da sociedade, tão bem escrito e pensado, tão divertido e tão sério... e só de pensar que ao queimarem aqueles livros estão a queimar o próprio Albus Dumbledore - não tenho habilidade suficiente para colocar em prosa o que me vai na mente.

Para essa gente sinistra, cujas vidas são vividas em torno de preconceito, ódio, medo e obscurantismo, que se divertem com estes espectáculos, para esses padres católicos e para toda a cúpula que lhes presta vassalagem, compreendam uma coisa: livros não se queimam. Nenhum livro deve ser queimado. Nenhum! Não se queima o Mein Kampf, é um testemunho dos tempos. Não se queima o Malleus Maleficarum (que certamente adorarão), é um documento histórico imprescindível para se estudar a Era Medieval. Não se queima o Código de Hammurabi. Não se queima o Alcorão. Não se queima o Tora. Não se queima a Bíblia. Não se queima Camões, Cervantes, Shakespeare, Platão, Sun Tzu, Byron, Allan Poe, Tolstoy, Pessoa, Saramago, Orwell, Huxley, Hitchens, Chomsky. Também não se queimam obras marxistas... ou fascistas. Não se queimam livros, são conhecimento, padres, sabem o que isso é? E certamente não se queima uma obra literária que atingiu o coração de tanta gente, de tantas nacionalidades e demografias, desde os 10 aos 80 anos de idade. Que vergonha... o que irá dizer um hipotético futuro mundo civilizado deste circo?

Terminando. Acho que estes padres deveriam estar mais preocupados com os reportados 400 casos de pedofilia na Igreja Católica polaca, levantados desde os anos 90. Acho que Francisco I deveria tomar medidas, mas quer-me parecer que há mais uma desilusão a caminho. Um Papa Francisco semelhante àquele que o mundo pinta excomungá-los-ia. Mas isso não vai acontecer. A capela católica - a matilha, como dizia José Saramago -  que lá manda é toda una, infelizmente, e Francisco I jamais os irá enfrentar.

Pedindo desculpa aos meus pais, à minha madrinha e ao meu padrinho (a culpa nem se quer é totalmente deles, mas enfim, continuo a adorar-vos, e de qualquer das formas o meu pai é agnóstico), por esta, e por incontáveis outras razões, tenho tanto asco em estar baptizado na Igreja Católica. Tenho nojo do próprio número que represento como membro do Catolicismo e da Cristandade. Uma Igreja que, sejamos claros, efectivamente me odeia. Assim como o seu Deus me odiaria... se existisse claro.

(Disclaimer, à precaução: Este texto não afirma que eu tenho repugnância pelos católicos em geral, ou que odeio todos os padres, ou que todos os católicos me odeiam, não é isso o que lá está escrito. Estou a falar da matilha que manda, e do ideário claro... há coisas que não se deviam esquecer tão depressa.)

Será que João Paulo II aplaudiria estes espectáculos inquisitoriais?

sexta-feira, 15 de março de 2019

Neverland

Há sempre quem diga que vivemos numa altura em que não há heróis. Eu por vezes tenho a melancólica sensação de que esta é uma máxima definitiva... talvez nunca os tenha havido! Assim me sinto eu, após assistir às 4 horas dum documentário, promovido pela HBO e pelo Channel 4, realizado por Dan Reed. Terminei de vê-lo ontem, pouco antes da uma da manhã, absolutamente mal disposto, triste, desiludido, desconsolado pela crueza dos factos. O nome do documentário é Leaving Neverland. O tema do documentário: dois jovens que orbitaram a vida de Michael Jackson, cujas vidas mudaram para sempre desde então...

Antes de mergulhar no documentário em si, gostaria de afirmar que conheço as alegações de abusos sexuais a menores, perpetuados por MJ, desde que conheço o próprio astro musical - o que significa, desde pouco antes de MJ ter falecido (há uma particularidade quanto a mim, o facto de eu ter conhecido certos músicos muito pouco tempo antes deles terem falecido, o mesmo se passou com David Bowie ou com Leonard Cohen, que hoje valorizo muito mais, musicalmente). Já há vários anos tinha lido sobre as denúncias da década de 90, e a subsequente detenção de MJ na década passada. Devido à defesa judicial, efectiva, de MJ em tribunal, e devido a certas (aparentes) incoerências vindas do lado das alegadas vítimas, sempre fui céptico relativamente às estórias de abusos sexuais relatadas. Ontem, esse cepticismo foi demolido.

Durante 4 horas assisti a dois relatos, centrados na vida de dois homens que foram muito próximos de MJ, durante a infância e a pré-adolescência, e que durante vários desses anos mantiveram relações sexuais com MJ. Em suma, enquanto MJ lhes proporcionava portas fantásticas para uma carreira artística, juntamente com temporadas maravilhosas no rancho privado do músico - a Neverland -, de forma progressiva e calculada (sem nunca ter usado violência expressa ou ter sido psicologicamente agressivo com os jovens), MJ aproveitou-se sexualmente das vítimas. Os dois homens que vieram a público, e que, por questão de lealdade a MJ, tinham encoberto as alegações da década de 90, idolatravam numa dimensão apoteótica o astro, e por conseguinte nunca se tinham, de facto, sentido mal com as tais experiências durante a juventude. Mas, evidentemente, na idade adulta, tal sentimento de relativo apaziguamento não resistiu a uma idade mais madura. O que aqueles jovens receberam de MJ foi um admirável mundo novo, no qual conseguiram construir uma carreira e uma vida assegurada, mas também uma profunda sequela psicológica, fruto dum acto criminoso.

A pedofilia, não sendo um crime devido, exclusivamente, a um acto violento, é também um crime devido ao simples (mas crucial) facto de que jamais se deve submeter uma criança a tais actos sexuais - mesmo que o músico nunca tenha obrigado ninguém. Fazê-lo trará para sempre condicionantes psicológicas sérias para as vítimas, e ninguém tem o direito de fazê-lo a uma criança! Após assistir ao documentário, restam-me dúvidas quanto à veracidade dos relatos? Não, nem compreendo como é que ainda há tantos fanáticos que têm a certeza do contrário... as histórias são demasiado coerentes, francas e conclusivas para serem ignoradas.

Relativamente ao legado de Michael Jackson. É a terceira entidade musical comercialmente mais bem sucedida da História da Música Universal. Marcou de forma indelével a década de 80, e as Popstars em geral. É um ícone cultural, tendo também derrubado barreiras raciais nos EUA. Era um músico do qual eu não era um fã hardcore (como sou dos Doors ou dos Led Zeppelin, por exemplo) mas pelo qual sempre tive um grande apreço. Isto destrói a imagem dele? Bem, tenho pensado que, no final do dia, Michael Jackson não será diferente do que um qualquer padre pedófilo... será isto verdade? Wade Robson, uma das vítimas, discordará de mim. Até ao fim dos dias de MJ, Robson amou profundamente o seu ícone, tendo jantado com ele, na Neverland, poucos meses antes de MJ falecer, em 2009. Mas sabe melhor que ninguém o quanto ficou marcado. Há coisas que são certas: nunca deixarei de ficar maravilhado com o groove do Billie Jean, nunca deixarei de achar o álbum Thriller uma das melhores produções musicais dos anos 80, nunca deixarei de vibrar energicamente com o Smooth Criminal - isso seria impossível, a música em si é imortal - mas, enquanto as ouço, ficarei com um cão negro, nas minhas têmporas, lembrando-me de uma verdade obscura.

Há uma pergunta restante: MJ nutria mesmo carinho por crianças? O documentário nunca desmente isso... mas algo nele, clinicamente, nunca esteve bem. Se houve coisa, no meio disto tudo, que me deixou absolutamente destroçado, foi quando a mãe duma das vítimas afirmou que tinha festejado o dia da morte de Michael Jackson (lembrando-me eu que até a minha avó ficou triste nesse dia). Para tal sentimento de felicidade não há descrição, tal como também não há discrição - pelo menos eu sinto-me frustrado por não as encontrar - para os sentimentos que me correm o peito enquanto escrevo isto.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Análises e Previsões para as Legislativas 2019

O texto que se segue foi concluído neste dia, não sendo de todo da minha autoria. Trata-se de uma análise geral dos quadros legislativos portugueses, ao longo do actual regime português, rematando numa previsão dos destinos do executivo da República após terem lugar as Eleições Legislativas deste ano, e é da autoria de Afonso Mourato Nabo, estudante finalista de Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH, e meu irmão. Numa nota breve, pessoal, saliento o brilhantismo de toda a análise, e subscrevo absolutamente a conclusão.

"Faltam menos de 7 meses para a 15ª Eleição Legislativa (excluindo a Constituinte) da História do actual regime. Das 14 realizadas até hoje, o Partido Socialista venceu 6 e o Partido Social Democrata venceu 8, três destas em alianças com o Centro Democrático e Social – Partido Popular. A única maioria absoluta que o PS conseguiu até hoje foi com José Sócrates, em 2005. O PSD, por outro lado, obteve maiorias absolutas em 50% das suas vitórias. As duas primeiras vitórias do PSD foram, precisamente, maiorias absolutas conseguidas em 1979 e 1980 em alianças com o CDS, lideradas por Francisco Sá Carneiro. O PSD conseguiu mais duas maiorias absolutas na segunda e terceira vitórias de Aníbal Cavaco Silva nas eleições legislativas, em 1987 e 1991.

Desde o estabelecimento do I Governo Constitucional em 1976, liderado por Mário Soares, o PS encabeçou oito, dois deles em coligações maioritárias, um com o CDS, outro com o PSD. Em 1999, António Guterres renovou o seu mandato depois do PS evoluir de uma minoria parlamentar para um empate (o único até hoje), em que ficou a um deputado da maioria absoluta. Já o PSD encabeçou 10 Governos Constitucionais, seis deles em coligações maioritárias, todas com o CDS-PP, e outro, uma curta coligação minoritária com o CDS-PP. Este foi o último Governo chefiado pelo PSD.

Cavaco Silva assumiu o cargo de Primeiro-Ministro durante praticamente 10 anos, mais tempo do que qualquer outro Primeiro-Ministro do actual regime. Foi o primeiro a chefiar governos maioritários unipartidários durante o actual regime, principalmente devido ao facto de ter sido também o primeiro a obter maiorias absolutas sem coligações nas eleições, desde a Revolução de Abril. Os seus governos foram, também, os únicos governos do PSD a não necessitar de coligações, mesmo apesar de apenas ter conseguido uma maioria simples nas eleições legislativas de 1985. Por outro lado, os governos de Mário Soares foram os únicos governos do PS a necessitar de coligações, mesmo apesar de António Guterres e António Costa não terem conseguido maiorias absolutas, e de José Sócrates ter falhado esse objectivo em 2009.

O CDS-PP é o único partido, para além de PS e PSD, a providenciar um Chefe de Governo, Diogo Freitas do Amaral, no VI Governo Constitucional liderado pelo PSD, após a morte de Francisco Sá Carneiro.

O dado mais interessante, talvez, é aquele que nos diz que o PSD cumpriu cerca de 20 anos e 9 meses à frente de vários governos e o PS, admitindo que o Governo de António Costa continuará em funções pelo menos até às próximas eleições legislativas, cumprirá pelo menos 21 anos. Se as vitórias em eleições legislativas e a chefia de governos parecia destacar o PSD em relação ao PS no que toca à liderança dos destinos do país durante quase 43 anos, este dado mostra-nos que não é bem assim e que ambos os partidos têm liderado o país durante a mesma quantidade de tempo, com tendência para o PS se destacar em relação ao PSD.

É precisamente para esta tendência que é importante olhar agora, já que as próximas eleições legislativas vão realizar-se no dia 6 de Outubro de 2019 e o actual Governo, liderado pelo PS e apoiado pelos partidos à Esquerda no Parlamento, parece ter ultrapassado os maiores obstáculos desta legislatura, contra todas as expectativas. O PS tornou-se o primeiro partido na história do país a formar Governo após não ganhar as eleições. Um Governo sem coligações, o que torna tudo ainda mais inédito.

Na verdade, o facto de haver um Governo minoritário não é novidade, já que o PS havia liderado 3 antes e o PSD havia liderado 2. A diferença está nos contornos e duração desses governos. O I Governo Constitucional, liderado pelo PS, era minoritário, tendo apenas durado 1 ano e meio devido ao chumbo por parte do Parlamento de uma moção de confiança. O primeiro Governo liderado por Cavaco Silva também era minoritário e durou menos de 1 ano e 9 meses, após ver aprovada uma moção de censura por parte do Parlamento. O segundo governo liderado por José Sócrates durou 1 ano e 8 meses, após a rejeição por parte do Parlamento de um dos programas de combate à dívida pública. O segundo Governo de Pedro Passos Coelho, o único Governo de coligação minoritária até hoje, teve a mais curta duração desde a Revolução, tendo durado menos de 1 mês.

O primeiro Governo de António Guterres, do PS, foi o único Governo minoritário a cumprir a legislatura, até hoje. Contudo, também é verdade que apenas faltavam 4 deputados ao PS para ter maioria absoluta no Parlamento, o que torna tudo um pouco mais fácil, mas ainda assim não deixou de ser um Governo minoritário. O Governo liderado por António Costa é apoiado por menos deputados do PS no Parlamento, em comparação com o Governo de Guterres, o que torna a missão ainda mais difícil à primeira vista. Tem valido ao Governo o apoio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português ao longo de praticamente 3 anos e meio, algo inédito. Mas voltando aos governos de António Guterres, precisamente quando o PS quase atingiu a maioria absoluta no Parlamento em 1999, dando mais segurança ao Governo de Guterres, este cai 2 anos e meio depois, após Guterres se afastar do cargo de Primeiro-Ministro, tendo em conta o fraco resultado alcançado pelo PS nas eleições autárquicas de 2001.

Isto para dizer que a insegurança parlamentar pode ser reforçada através de eleições, dando a palavra aos cidadãos, mas a instabilidade sempre paira no ar. Foi o que aconteceu com Guterres e é o que pode acontecer com António Costa, que parece estar a seguir-lhe as pisadas no que toca à sobrevivência do seu primeiro Governo minoritário e a um provável reforço do contingente do PS no Parlamento, em 2019.

As sondagens e os resultados das eleições autárquicas de 2017 dizem-nos que os cidadãos portugueses (que votam), não só renovarão, como aumentarão a sua confiança no PS e no Governo, podendo o partido chegar muito perto da maioria absoluta. Nem o roubo de armas de Tancos, nem os incêndios de 2017, nem a renovação na liderança do PSD, nem a controversa substituição da Procuradora-Geral da República, nem os quatro Orçamentos de Estado difíceis de aprovar derrubaram este Governo, pelo contrário, o PS avança forte para as próximas eleições legislativas. A principal questão que se coloca neste momento é a seguinte: como vai o PS formar Governo?

Atinge a maioria absoluta e governa sozinho, sem necessidade de acordos à Esquerda ou Direita? Pouco provável. Fica aquém da maioria absoluta, necessitando apenas do apoio ou de um acordo de coligação com um dos partidos no Parlamento? Muito provável.

Para esta última pergunta, falta responder com quem fará acordo o PS. O PSD não aceitará um acordo ao Centro se não houver uma coligação governativa, ou seja, se não ocupar cargos no Governo, tal como aconteceu no terceiro Governo de Mário Soares de 1983-85. Parece pouco provável um acordo entre o PS e o PCP, já que o BE parece melhor posicionado para estabelecer um acordo à Esquerda, e também não sabemos que resultado terá o PCP. Poderá não ser suficiente, é uma incógnita. O BE parece, à primeira vista, o partido mais bem posicionado para estabelecer um acordo com o PS após as eleições, quem sabe até formar Governo, o que seria inédito.

O PS e o Governo estabelecerão um acordo com o partido que fizer menos exigências e que garantir a sustentabilidade do Governo até 2023. O PS tem mais poder para fazer acordos em 2019 do que tinha em 2015, e o facto de ter sobrevivido todo este tempo com o apoio de outros dois partidos só dá mais força à posição do PS. O PSD vai ter de oferecer mais contrapartidas e fazer menos exigências do que o BE se quer estabelecer algum tipo de acordo, mas parece pouco provável que o PSD peça menos do que cargos no Governo, ao passo que o BE, não possuindo experiência governativa nem espírito “lobbyista”, pode satisfazer as suas necessidades declarando apoio a um novo Governo do PS por mais 4 anos, mas com um papel mais preponderante na política portuguesa em termos de fiscalização do Governo.

Tudo dependerá do resultado das Legislativas 2019, que darão a segunda maioria absoluta na história do PS, o segundo Bloco Central ou o inédito acordo entre o PS e um único partido de Esquerda."

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Democracia Venezuelana

República Socialista Bolivariana da Venezuela. O nome do Estado é, em si, muito revelador, muito gráfico, do ponto de vista político, de qual a corrente política que conduz a nação venezuelana (ou deveria conduzir). Os índices sociais deste país, embora não estando entre os casos mais catastróficos do mundo, são ainda assim preocupantes - cerca de 10% da população não tem acesso a água potável ou saneamento básico, por exemplo. A Venezuela é também o local, em todo o globo, com maior índice de criminalidade homicida, fruto da cultura gangster e mafiosa que conduz as ruas venezuelanas, num negócio ilegal centralizado na cocaína e outro tipo de drogas. Apesar de tudo, deve ser afirmado que a esperança média de vida venezuelana não está muito longe dos níveis portugueses (o que é bom), resultado do trabalho de um outro executivo que já liderou a Venezuela. Juntando a estes factos gerais, disponibilizados pela ONU, a Venezuela não vive uma situação interna pacífica - longe disso, aliás. A Venezuela vive uma situação de caos social, na qual a inflação é insustentável para o cidadão comum, e onde os géneros alimentares não chegam a muita gente. As imagens da televisão são retrato disto mesmo! Claro que onde não há bens básicos de sobrevivência a criminalidade aumenta. Não aumenta por nenhuma outra razão, e não é preciso estudar muita geografia ou sociologia para sabermos isto. E não são só os crimes que aumentam, também a revolta social plenamente justificada alastra em toda a nação. No epicentro desta Luta de Classes em tempo real, visível e indiscutível para qualquer indivíduo, está o governo militar da Venezuela chefiado por Nicolás Maduro.

Julgo ser quase unânime a consideração de que Maduro é um Chefe de Estado altamente incompetente, pouco inteligente, intelectualmente rude e algo paranóico - muito à semelhança, na verdade, do seu homólogo brasileiro. O funcionamento das instituições democráticas, de aposta na participação directa do cidadão, asseguradas por Hugo Chavez, estão de joelhos, e a eleição de Maduro para a presidência é universalmente contestada pelos vários órgãos internacionais que atestam essas questões. No meio do palco cai um novo protagonista - mas um tão demagógico como o camarada Maduro - de nome Juan Guaidó que, certamente, já terá cativado boa parte da opinião pública mundial com o seu charme latino de Presidente da Assembleia... bem, eu não me deixei enganar. Guaidó não se acanhou em autoproclamar-se Presidente Interino, afirmando que Maduro não é mais o Presidente, e para solucionar esta crise, Guaidó apela à intervenção internacional militar no país - entenda-se, por favor, ocupação territorial pelos EUA - dizendo que, se for caso disso, o país tem de ser mergulhado numa guerra civil. Guaidó abriu um precedente, com o seu apelo, que muda a paisagem destes eventos. Será oportuno lembrar que a Venezuela é um país riquíssimo em recursos naturais, possuindo as maiores reservas de petróleo em todo o Mundo... pois, novamente uma equação com EUA e petróleo - os ciclos repetem-se. Tanto o Presidente Trump nos EUA como o Presidente Bolsonaro no Brasil estão a tremer de ansiedade, esperando uma justificação para uma intervenção militar, no qual possam arrumar com o camarada Maduro e meter lá um novo presidente politicamente vergável às vontades da alta economia mundial. Já foram muitas as especulações quanto à eventualidade dos EUA fazerem mais um número típico. Eu só acredito que tal aconteça se o número de mortes diárias, no meio da contestação social, escalar por aí acima.

Noutro plano temos a minha querida e velha Europa que, francamente, anda às moscas no meio desta confusão. A UE é a típica instituição que faz peitos aos EUA e que insinua não simpatizar com Donald Trump, mas que na prática faz precisamente aquilo que os EUA querem que se faça. Trump reconheceu Guaidó como presidente, Bolsonaro, o novo fiel cão de Trump, também. Que faz a Europa? Toma uma decisão original? Pensada pela própria cabeça? Não!, já foram uns quantos estados europeus, entre os quais o Reino Unido de Espanha, reconhecer Juan Guaidó. Estrategicamente, é uma manobra que nada significa porque, o de facto presidente continua a ser Maduro, tendo o complexo militar do lado dele, e Guaidó nada fez para ser o interino Chefe de Estado. Ao longo da estrada, os EUA já enviaram ajuda humanitária - ao que parece acordaram agora para as necessidades daquilo a que chamam de Terceiro Mundo - e Maduro, temendo uma qualquer conspiração que venha dentro das caixas dos géneros alimentares, afirmou não receber a dita ajuda... e assim foi. Maduro, todavia, não querendo ajudas norte-americanas ou brasileiras, deu ao mundo uma boa notícia quando apelou à ajuda humanitária da UE. Seria oportunidade para a Europa varrer os EUA para fora desta questão, com vista a uma resolução civilizada da crise humanitária.

Por incrível que pareça, eu tenho ideias para a resolução disto tudo. Antes de mais afirmo que Maduro, Trump e Bolsonaro são males da mesma raiz: e não, não é o Socialismo, é o poder sujo e a ganância! Assim sendo, a solução não passa pela guerra mas sim por eleições democráticas e livres, na qual o povo venezuelano possa afirmar quem afinal deseja como Presidente da República. Para tal acontecer, é preciso que haja total cooperação por parte de todos os sectores sociais venezuelanos. Como é que tal se consegue? Não é prometendo porrada nem afirmando à boca cheia que uma guerra civil é necessária. Consegue-se através do diálogo e do acordo. Consegue-se através da inclusão internacional, sem ingerências de estado, ingerências essas que o Pentágono tem feito nas últimas décadas. Sendo eu mais objectivo, seria necessário a sociedade internacional assegurar que o Brasil e os EUA não metem o nariz nisto (e já agora o mesmo vai para a Rússia e a China, que nada acrescentam a esta questão), e deixar a liderança de possíveis acordos com os Presidentes do Uruguai e do México, Tabaré Vazquéz e Lopez Obrador, que, quero crer, são indivíduos política e estrategicamente apropriados para conduzir estas hipotéticas diligências. Acredito que é isto que vai acontecer? Claro que não. O mundo só faz aquilo que a política norte-americana manda, sob ameaça da arma financeira, para não falar que o Conselho de Segurança da ONU é um órgão minado à nascença, no qual é muito difícil atingir uma única resolução boa para o mundo.

Por último, uma pequena nota circunscrita ao território português. É muito importante que o governo não se meta em aventuras como aquela que teve lugar neste país em 2003. Para vergonhas nacionais, que intoxicam o legado da República Portuguesa, já nos basta aquilo que temos. Quanto às posições dos três partidos de Esquerda na Assembleia da República: a posição do PEV é a posição do Partido Comunista, vergonhosa portanto. É trágico assistir à subserviência do PCP perante não sei eu o quê... como é que um partido que defende o Proletariado na Luta de Classes, um partido que defende a filosofia marxista, pode tomar o partido da Classe Dominante na Venezuela? Estão certamente desnorteados... Enfim, não contem comigo. Por outro lado, apesar de não ter sido muito noticiada pela comunicação social, a posição do Bloco de Esquerda é totalmente diferente. Basicamente afirmam que Maduro é uma tragédia, mas também a perspectiva do Guaidó e dos EUA não é mais acolhedora. Por último, citando o Professor Francisco Louçã, gostaria de dar ênfase à hipocrisia dos EUA: um país que 'benevolentemente' cede ajuda humanitária à Venezuela, mas que, devido às sanções económicas vintage, não permite à Venezuela a compra de medicamentos. Não se trata de apoio humanitário, trata-se, infelizmente, de imperialismo. E se os EUA querem policiar os regimes do mundo, porque não começam com o regime partidário da casa deles? Porque não vão chatear a cabeça do Rei da Arábia Saudita? Porque petróleo?!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Rooftop Beatles is Golden

Foi há 50 anos que o maior (falo de dimensão, de tamanho da influência) entre todos os actos musicais da História da Humanidade, uma banda de Rock britânica chamada The Beatles, se despediu formalmente (mas de forma muito pouco formal, como eu gosto) do público. Foi o último concerto dos Beatles, no topo dum edifício em Londres, que de legalidade teve muito pouco, mas o Movimento da Contracultura, esse que ostentou o mesmo símbolo que preenche o wallpaper deste blog, nunca se regeu necessariamente pelo tradicionalismo e pelas legalidades da autoridade... o que deu ao evento musical um toque mágico que para sempre ficará na posteridade. Das gravações que ficaram disponíveis, que permitiram ao mundo ouvir este curtain call, a minha parte favorita é quando os Fab Four tocam o Don't Let Me Down. É fantástico. Foi o primeiro concerto dos Beatles desde meados da década de 60 - mesmo antes de entrarem na sua fase experimental e psicadélica, aquela onde eles começaram a mexer com as fronteiras musicais, que se estenderia até à dissolução - e o último de sempre. Após isto, foi o lançamento do álbum Let it Be no ano seguinte (que já tinha sido gravado em 1968), com o qual John Lennon teve muito pouco a ver devido as já existentes querelas com o resto da banda - querelas essas que começaram a surgir com a morte prematura do manager Brian Epstein em 1967 -, e a dissolução da banda no mesmo ano em que o Let it Be é lançado. Pensar nos anos 70 e 80 com Beatles seria todo um outro "admirável mundo novo". Assistir, ouvir, uma reunião dos Fab Four, no novo Yankees Stadium por exemplo, ou simplesmente no topo de outro qualquer edifício, no século XXI, é um grande sonho inconcretizável de qualquer apaixonado pelo Rock clássico... infelizmente, foi-nos roubada a voz do John Lennon (e fará 40 anos no próximo ano) e o cancro privou-nos dos talentos musicais, na guitarra ou na voz, de George Harrison, em 2003 - por sinal, o triste ano da morte de Johnny Cash. Todavia, apesar deste vazio que foi deixado pela morte, apesar do fim efémero deste fenómeno mundial chamado The Beatles - nasceu com os anúncios da Contracultura, morreu quando esta começou a perder alento - há duas coisas que a mim me consolam: o facto do Paul McCartney continuar nos palcos, e melhor que meio mundo; e o facto de todos os dias ter a musicalidade deles os quatro ao alcance dos meus tímpanos.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Crime na Fábrica da Robinson

Faz hoje uma semana que teve lugar, na Cidade de Portalegre, um crime contra o património e a cultura, não só da nossa cidade, mas também um crime contra um legado que diz respeito a toda uma nação, ainda que o Estado, para todos os efeitos, não o reconheça como tal. Sim!, é um crime, um atentado como colocou o Partido Comunista, sem meias palavras, sem eufemismos, sem esponjas por cima de assuntos.

Já tive hipótese, ao longo dos anos, de visitar a Fábrica da Robinson e de interagir com a Fundação, cuja obrigação é a defesa e promoção do legado cultural dessa mesma fábrica. Uma fábrica que foi um centro de desenvolvimento económico do Concelho. Uma fábrica onde esteve presente a luta e o sacrifício dos operários, pela cidade e sobretudo pelas suas famílias. Uma fábrica que foi o grande símbolo da Cidade Branca nos últimos 100 anos. E ruínas duma fábrica cujo potencial de perpetuação cultural, em benefício da memória histórica e dos portalegrenses, é tão evidente que só os mais intelectualmente brutos não compreenderão. A ideia de haver uma Fundação Robinson, que proteja este património histórico, só tem de fazer sentido - é algo que qualquer cidade desenvolvida, no país ou no mundo, tem a preocupação de fazer. O problema, quanto a mim, prende-se com a questão da tutela da Fundação. Ora, presentemente, é tutelada pela Câmara Municipal de Portalegre, e como temos tido a oportunidade de observar, os resultados - devido sobretudo aos sucessivos Executivos ruinosos da Câmara - foram tumulares para o património. A solução imediata que eu vislumbro, e que gente que já esteve ligada à fundação vislumbra, é a Fundação passar a ser tutela directa do Ministério da Cultura, retirando-a do jugo de interesses, esquemas e comprometimentos que assombram este Concelho. Mas é preciso que quem de direito, e os portalegrenses claro, promovam tal solução.

Há uma razão clara para as preocupações que exponho no parágrafo anterior. A razão é obviamente o crime de que falo: a demolição abrupta e danificadora de parte do edifício da Fábrica, segundo consegui saber, promovida pelo Presidente do Conselho de Administração da Fundação, José Manuel Faria Paixão, à revelia dos procedimentos democráticos do Conselho e dos seus membros. A situação não é grave, somente, pelo facto dos ditos procedimentos democráticos que estão inerentes à Fundação terem sido desrespeitados, é antes de mais grave pelo facto de ter sido demolido um edifício, e sem qualquer cautela para com o material arqueológico industrial - nomeadamente relíquias de máquinas, que representam um legado patrimonial. Eu duvido que o Sr. Paixão tenha consciência daquilo que fez. O Sr. Paixão é o grande responsável pelo dano causado a várias máquinas e ao património da Robinson, e por isso não reúne condições para se quer pisar aquele espaço. Mais: as demolições não tiveram a supervisão de uma única pessoa competente (um arqueólogo ou especialista do género), o que significa um total desprezo pela mão científica e conhecedora destes assuntos.

Noutro plano, também o Jornal Alto Alentejo esteve terrivelmente mal. Quem leu a edição de hoje terá tido hipótese de, antes de mais, enxergar a capa, que por si só já é uma vergonha jornalística, no domínio da mínima imparcialidade que tal profissão requer, e veja-se o exemplo seguinte, dizendo em destaque: "Polémica na Robinson - PEV acusa Fundação de «crime contra o património»... resta saber qual património". Qual património? O Alto Alentejo está a gozar com a cara dos portalegrenses? As históricas torres fumosas que se destacam sobre a cidade não significam nada para estes jornalistas? Eu peço paciência para com as considerações, não conheço o Presidente do Conselho da Fundação, não conheço um único jornalista do Alto Alentejo, mas isto é boçalidade cultural. Representa a cru a rudez intelectual que circunda todo este problema! Para não falar que o jornal nem se dignou a dar lugar, na capa, à menção do excelente e esclarecedor texto que o professor Gonçalo Pacheco escreveu... e conheço bem as intenções por detrás disso. 

Em notas informativas, asseguro que, ao contrário do que o Sr. Paixão já afirmou, as fotografias divulgadas pela ex arqueóloga na Fundação, Susana Pacheco, não são de há um ano, são sim de há uma semana, e sei-o porque estive nas imediações da Fábrica na noite seguinte, numa festa que tinha lugar no parque de estacionamento da Escola de Hotelaria, e pude ver o crime com os meus olhos - eu e as centenas que por lá passaram. Asseguro também que, ao contrário do que se possa pensar, o lugar de Susana Pacheco na Fundação em nada se deveu à presença do professor Gonçalo Pacheco no Conselho de Administração. A Susana Pacheco para lá entrou antes de todo o redemoinho das Eleições Autárquicas, antes do professor Pacheco ter alguma coisa a ver com a Fundação, e lá se manteve até há uma semana, depois da resignação do professor Pacheco. E há quem se pergunte porquê... pois bem, Susana Pacheco tem um mestrado em arqueologia industrial, pela FCSH, essa qualificação é suficiente! Desprezar o trabalho e lealdade ao património da Fábrica, de Susana Pacheco, é desprezar os jovens que tentam ajudar a erguer esta cidade. Desprezar o trabalho de Gonçalo Pacheco na administração da Fundação é desprezar qualquer trabalho honesto e contínuo ao serviço de Portalegre, e mais uma vez recomendo a leitura do seu texto, relativamente a este assunto - de facto escreve quem disto sabe -, que não só está disponível no Jornal Alto Alentejo, como também na página Facebook do mesmo. Para mais afirmo, e esta nota é especial para mentes mais paranóicas, que nem Susana ou Gonçalo Pacheco fazem parte duma conspiração comunista, nem eles têm algo a ver com o PCP... portanto, que morra de vez esse boato.

Toda esta situação é triste e desmoralizante. A forma como toda esta questão se tornou partidária, quando não tinha de o ser, é negativa para um esforço colectivo em prol do Património. Desde miúdo me lembro de contemplar, desde a janela do meu quarto ou da Praça da República, a majestade cultural daquelas chaminés-torres. Lembro-me de imbuir-me do legado e o potencial que pulsa nas raízes da minha cidade - quer seja em árvores, fábricas, escolas, poesias ou ruas -, do sítio que foi o meu início e que será o meu fim, e vê-lo ser desrespeitado por administradores e jornais é quase como me cuspirem na cara. O apelo que eu faço é ao salvamento do património de Portalegre, e se alguém de direito considerar que a minha modesta mas genuína ajuda é útil, não hesite em informar-me.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Terrorismo de Género, por Frederico Lourenço

Considerei escrever sobre o manifesto saloio, da actual Ministra da Família e dos Direitos Humanos de Bolsonaro, cujas intenções por trás de "menino veste azul, menina veste rosa" são bastante mais obscuras, bem mais ideológicas, e reveladoras, do que muitos pensam. Há uma boa franja da sociedade brasileira que não será contemplada na protecção deste Ministério. Não quero saber de estórias de embalar. Isto vindo da ministra dos direitos humanos é preocupante. A ameaça do Pensamento Único que integra a ordem social idealizada por esta gente aí está. Todavia, não vou escrever sobre isto. Considero antes mais útil a leitura duma publicação, sobre este tema, feita por um dos maiores especialistas no Helenismo e em traduções bíblicas do país, o Professor Frederico Lourenço, na sua página do Facebook, que aqui cito na íntegra:

"Terrorismo de género

Sim. O menino que vêem na fotografia sou eu [fotografia do Prof. Frederico Lourenço, em criança, apontando uma pistola à câmara, com um esgar sério]. Foi tirada no Portugal pardacento de Salazar, quando os rapazes estavam proibidos de ter comportamentos de menina.

Eu nunca fui um rapaz masculino: interessava-me mil vezes mais observar as minhas avós a fazer lindas colchas brancas em croché do que uma coisa que eu já na altura considerava acéfala e boçal (futebol, desculpem). Eu queria aprender a fazer croché, mas, nas férias que passávamos em Portugal, os mais velhos insistiam comigo para eu fazer coisas de rapaz. Ninguém me queria ensinar croché (muito menos tricô, que exigia o manejo genial de duas agulhas!) e deram-me um brinquedo de rapaz para as mãos: uma pistola.

Não me apaixonei pela pistola, mas ficou a fotografia - tirada pelo meu avô como espécie de comprovativo documental de que eu não era maricas. Mas eu era. E sou. E o pior para Salazares e Bolsonaros é que adoro ser homossexual. Não quereria ser heterossexual por nada deste mundo, porque a pessoa que eu sou é intrinsecamente gay. Não sinto culpa, não sinto vergonha de gostar sexualmente de pessoas do mesmo sexo. É algo que me define e que eu amo.

No entanto, chegar ao amor pela minha própria homossexualidade não foi um caminho fácil. Porque fui vítima do terrorismo de género. Fala-se (sem conhecimento) de «ideologia de género», mas muito pior é o terrorismo de género. Eu e tantos rapazes da minha geração (e de mais novas, infelizmente) fomos sujeitos a um autêntico terrorismo psicológico. «Não sejas maricas». «Não fales com essa voz apaneleirada». «Comporta-te como um homem». «Pareces uma menina».

O decurso da minha adolescência foi uma desaprendizagem relativamente à pessoa que eu verdadeiramente sou. Fiz tudo e mais alguma coisa para não parecer maricas - mas é claro que um pássaro não pode mudar de penas, como tão bem se diz em inglês. E eu nunca consegui deixar a 100% de ser «apaneleirado» na minha maneira de falar e de me mexer. O meu primeiro namorado, dez anos mais velho do que eu e ele próprio vítima de terrorismo de género bem pior do que todo aquele que eu sofri, dava-me dicas constantemente para eu «não parecer maricas». Era sempre: «não fales assim, não digas isso, não segures assim o cigarro, não pegues assim no copo, não te rias assim».

Por outras palavras: «não sejas tu».

Este terrorismo de género foi de tal modo marcante na minha psique que ainda hoje apanho um choque quando me vejo na televisão: eu que pensava ter conquistado a arte de ser «straight acting» vejo, com olhar crítico, o mesmo maricas que eu era em criança. Não consegui, com quase 56 anos, extirpar de mim o paneleiro. Paciência.

Triste triste é o que vejo à minha volta neste nosso Portugal de 2019: vejo ainda hoje gays armariados por toda a parte, a fingir desesperadamente que são heterossexuais; e não são só pessoas da minha geração. São rapazes novos, na faixa dos 20 e dos 30. A internet está cheia de recantos onde a comunidade gay afirma coisas como «não gosto de efeminados», «não gosto de passivos» e, mais espantoso ainda, «não gosto de versáteis» (os heterossexuais que me estão a ler que desculpem a terminologia técnica).

O ideal dentro da comunidade gay continua a ser o homossexual que se comporta como heterossexual, que é «masculino», que não tem «trejeitos». Continua o incentivo à não assunção da própria sexualidade - porque o terrorismo de género continua, vivo da silva, tão tóxico e pernicioso como era quando eu era um rapazinho português no fascismo de Salazar, a quem os adultos deram uma pistola para as mãos para se sentirem menos angustiados pelo facto de terem de educar um menino que olhava fascinado para as mulheres a fazer croché, que se entediava de morte com futebol e que não era capaz de falar com «voz de homem».

Menino esse cujas cores preferidas eram (e são ainda) cor de rosa e azul. Porque a realidade não é tão dicotómica como os fanáticos querem que pensemos. Não é uma questão de rosa ou azul; de futebol ou croché; de ballet ou andebol. A sensibilidade humana é mais subtil do que isso.

Combatamos é a tremenda desonestidade que está por trás do termo pejorativo «ideologia de género» e foquemos a nossa atenção em fazer frente àquilo que é verdadeiramente abominável: o terrorismo de género. Não me forcem a ser quem eu não sou. Cada pessoa humana tem o direito de ser quem é."

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Machado na TV

A aparição do líder da Nova Ordem Social (o nome da organização até dá arrepios) Mário Machado, no programa matinal da TVI, Você na TV, causou vasta indignação entre uma franja da sociedade portuguesa, entre os quais está a minha corrente política. A indignação face à própria possibilidade de uma carreira política para Mário Machado é compreensível. O ideário desta nova organização - que reflecte a própria ideologia por detrás de Machado - assenta em pressupostos ultra-nacionalistas de racismo e xenofobia, nos quais a democracia, a liberdade social e a equidade meritocrática económica, entre os cidadãos, estão comprometidas. Uma síntese para esta organização de "ultras" da Direita política descreve-se em um nome: António de Oliveira Salazar.

Mário Machado e a sua Nova Ordem Social querem regressar a um Portugal fascista (a recusa da democracia por eles é clara quando se referem aos restantes como "os democratas") que espelhe a visão corporativista, ultra-conservadora social e ultra-nacionalista de Salazar. Evidentemente, ninguém que preze a democracia e a liberdade individual, no seu perfeito juízo, quererá algo deste género! Mas sabendo o que é a organização, e sabendo o que é o passado violento e criminal, de associação a grupos Nazis, de Mário Machado, que se aborde a questão ética do momento: foi correcto o Você na TV encenar aquela entrevista?

Eu confesso que, tendo em conta como Manuel Luís Goucha conduziu a conversa, essa tal indignação a mim não me assistiu. Poderá parecer mentira, mas terei mesmo que 
pela primeira vez tirar meio chapéu a Goucha, equacionando só aqueles minutos de conversa. Machado foi confrontado com factos históricos básicos e elementares, remontando ao Estado Novo e à 2ª Guerra Mundial e na prática encolheu-se, fazendo-se passar por um rapazinho simpático que apenas gosta muito do Professor Salazar. O jornalista que estava ao lado dele é um idiota revelado. Sendo ele um funcionário num órgão de comunicação social independente, afirmou que Salazar poderá ter tido um papel positivo na instauração da ordem e da autoridade no país. Pelos vistos também cá há malta que quer vender a liberdade por essa tal ordem. Todo aquele teatro de Machado não me convenceu, de qualquer das formas, ele dificilmente promoveu a sua imagem. O ambiente não esteve muito propício para isso. O coroar de todo este teatro foi quando o Goucha, afirmando que vivia com um homem há vinte anos, perguntou se Machado tinha algum problema com isso, e Machado respondeu: "Se tivesse não estaria aqui". Eu desmanchei-me à gargalhada! Eu também posso ser um camaleão se me apetecer. Qualquer um pode olhar para o passado recente do indivíduo Machado e achará a resposta, ou tão revoltante, ou tão hilariante como eu a achei.

Portanto, a TVI tem a liberdade de convidar indivíduos de toda a estirpe política. Liberdade de expressão em democracia é isso mesmo. Já expressei ponto de vista similar no texto A Web Summit é organizada por fascistas?. Em simultâneo, assistimos em televisão o quanto ridículo um fascista pode realmente ser, só com o intuito de parecer amigo de todas as minorias, desfazendo-se à pressa do seu traje nazi. Posso estar a parecer demasiado optimista, mas a entrevista deu-me genuína graça. E garanto a quem estiver a ler isto que os "ultras" da Direita não vão vingar neste país de Língua Portuguesa, mas isso será assunto para daqui a poucos meses.

E, claro, Bom Ano Novo 2019... de acordo com o calendário gregoriano. Bem que podia ser o ano 2771 e estarmos a pouco mais de três meses de fazer a passagem para o ano 2772, mas Cultura e História são isso mesmo.

Feliz Ano Novo, e aí estaremos

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Brexit in the Life - O Caso May... com outras coisas pelo meio

Nunca imaginei eu que a Faculdade me fosse consumir tanto tempo e energia, ao ponto de não conseguir manter este blog tão activo como gostaria. Adiante! O semestre já está no seu ocaso - comigo já cansado, todos os dias, pelas 16 horas - e o mundo continua a girar, como tem girado nos últimos 4 mil e 500 milhões de anos. Assim sendo, canalizo as palavras deste texto a um Estado que, historicamente, é bem próximo de Portugal, sob a representação da sua Primeira-Ministra.

Theresa May, por enquanto, líder do Partido Conservador inglês, e Chefe do Governo do Reino Unido, é possivelmente a política inglesa mais incapaz dos últimos anos. A situação aborrecida, chata, em que o Reino Unido se encontra - o Brexit - já se arrasta há mais de dois anos. Foi em 2016 que o povo britânico disse não, num referendo democrático, à União Europeia (e, diga-se, em legítimo direito próprio) e, aproximando-se 2019, ainda não foi produzido um derradeiro acordo político e económico entre o RU e a UE, face à nova (mas não tão nova quanto a comunicação social pensa) situação do Brexit. May, como emissária anglo-saxónica nesta "missão impossível", em abono da verdade, pouco tem feito, quer seja pelo seu Estado ou, até, pelo seu partido. Nem o próprio partido Theresa May é capaz de servir. Sabe o leitor que mais? Arrisco-me a dizer que nem a sua nonagenária Rainha, May tem sido competente em servir.

Dentro da sua casa - o seu partido - May enfrenta dois grupos de tories: os que não queriam o Brexit, e que agora têm de o comer, procurando estes uma saída leve, almofadada por muitos acordos e acordinhos; e os "hardliners", aqueles que querem sair, e a saída é para ser ontem, mais nada! De momento, May não consegue agradar nenhum destes. Na semana passada, May encaminhou-se para reunir com os líderes da UE, com a missão de extrair deles, e de vários estados membros, numa perspectiva bilateral, um acordo Brexit derradeiro e último, de modo a este ser submetido, com todas as renegociações, ante o Parlamento do RU, para ser aprovado ou chumbado. De Bruxelas saiu de mãos a abanar. Nem um modesto esboço de acordo Theresa May levou consigo. E, visivelmente, o Partido Conservador já vai perdendo a paciência (os criacionistas do partido norte-irlandês já a perderam há muito tempo, e claramente não personificaram essa virtude tão cristã, ou será budista?).

O outro problema que assombra May chama-se Jeremy Corbyn! Corbyn é não só o líder do opositor Partido Trabalhista (Labour), é também um republicano (o que o torna também um bicho-papão para a Rainha Elizabeth II, imagino). O primeiro líder trabalhista afecto ao socialismo marxista desde há várias décadas, e uma força revitalizadora para a oposição aos tories e aos revisionistas da Terceira Via. Ora, sabe-se que Corbyn, com o Labour em bloco, era um opositor do Brexit devido às suas motivações ideológicas euro-socialistas. Mas, perante uma nova realidade, diante de uma vocalizada vontade democrática de saída, Corbyn tem de se adaptar, e evidentemente a vontade do Labour é um acordo de saída razoável, e melhor será se forem os próprios, no governo, a negociarem um acordo - é ante isto que muita gente se pergunta "Mas do que é que o Corbyn está à espera para lançar uma Moção de Censura, no Parlamento?". 

Evidentemente, May tem lidado muito mal com a sua oposição, quer com o Labour, ou com o Partido Nacional Escocês. As suas intervenções na Câmara dos Comuns são um espectáculo triste, cheias de falácias e insinuações insultuosas. Na prática, são uma cassete riscada vazia de qualquer conteúdo. No dia 12, quando lhe perguntavam quando viria esse tal acordo, ela respondia outra coisa qualquer. E já adiou, à revelia da vontade parlamentar, a discussão e votação do acordo: ora, se a senhora não é capaz de negociar o acordo...

Um outro problema com o qual o RU tem de lidar é com a fronteira entre a Irlanda do Norte (súbdita da Rainha) e a República da Irlanda. O problema, em explicação, é simples, mas em resolução não tanto. Desde a década de 90, como parte integrante de resolver os conflitos na ilha irlandesa, acordou-se que a fronteira entre as 'duas Irlandas' seria de livre circulação. Com a nova realidade do Brexit, sendo a Irlanda do Norte parte do RU - que em Março já não será mais um estado-membro da UE - não poderá mais haver uma fronteira livre entre a Irlanda do Reino, e a Irlanda Republicana que é, indiscutivelmente, um estado-membro da UE. Isto levanta velhos problemas porque, juridicamente, seria impossível manter-se uma fronteira livre entre ambas as Irlandas, visto que, desta forma, através dessa fronteira, poderiam entrar na Inglaterra cidadãos europeus de qualquer lado, visto que a República da Irlanda está na UE - e o Brexit não significa esse género de libertinagem. Como há uns tempos May lembrou o mundo, "Brexit means Brexit". O desfecho, creio, é que se erguerá novamente uma fronteira física e fiscalizada na ilha irlandesa.

Theresa May tem em mãos imensos problemas, e a sua sobrevivência política é cada vez mais inverosímil. Eventualmente, o Governo Conservador irá encerrar portas e dará lugar, se a sociedade tiver essa sorte, a um Governo Socialista encabeçado por Jeremy Corbyn que lidará melhor, não só com o Brexit, como também com os demais problemas na sociedade britânica e internacional. Corbyn tem uma franja larga da sociedade no seu apoio: boa parte da classe trabalhadora, artistas, cientistas, minorias raciais, a comunidade LGBT, por aí fora, e qualquer pessoa que seja de Esquerda claro... (curioso, só não sou artista, nem cientista, assumindo que também não estou numa minoria racial). Só há um lobby, e este bem mais poderoso que o actual Governo, que tem perpetuado larga oposição, e oposição desleal, mentirosa, nojenta mesmo, a Corbyn. O lobby dos capitalistas sionistas. Há muitos judeus poderosos (entre outros grupos) que têm acusado Corbyn de anti-semitismo devido às suas críticas ao Estado de Israel, mas este tema abordarei noutra ocasião - e se alguém quiser também a mim acusar-me de anti-semitismo esteja à vontade, que eu tenho descendência judaica.

Voltando à conclusão, que era para onde me encaminhava, tudo isto valerá nada se agora fizessem a batotice de lançar um segundo referendo, ou a batotice ainda maior de voltar atrás no Brexit sem se quer um referendo, sem consultarem os cidadãos. Isso para mim é batota pura! Se isso vai acontecer? Bem, acertei que o Brexit ia ganhar no referendo, agora palpito que, mais cedo ou mais tarde, não vai haver uma volta de 180 graus e o Brexit irá mesmo ser consumado. Em todo caso, se quiserem tirar a prova dos nove e fazer um segundo referendo - e se isto acontecer a abstenção será baixíssima, agora que as pessoas já deram conta que a política afecta as suas vidas - quem sou eu para estar contra isso. Mas que não se cometa o acto ditatorial e fascista de voltarem atrás sem uma nova consulta popular!