sábado, 12 de outubro de 2019

Legislativas 2019: Aftermath

Está quase a cumprir-se uma semana desde que as Eleições Legislativas tiveram lugar. Embora previsível tenha sido o desfecho, no que ao mais votado concerne - o PS -, houve, em todo caso, surpresas, e para mim quase nenhuma foi agradável. Antes de avançar para aquilo que aconteceu, e não aconteceu, devo dizer que, em geral, as previsões feitas neste blog, ao longo do tempo, foram certeiras - não que isso interesse particularmente a alguém. Talvez o único erro crasso de análise aqui cometido tenha sido eu ter advogado um resultado trágico para o PSD e uma manutenção mais ou menos favorável para o CDS. Acontece que - e admito que foi, em absoluto, total erro meu de análise - sucedeu precisamente o contrário. O PSD, embora tenha perdido deputados, mantém uma posição destacada face aos demais partidos, com excepção do PS claro, e o CDS enfrenta, pela segunda vez na sua História, o risco de desaparecer da Assembleia da República. Foi uma radical descida de 18 para 5 deputados, e de forma nenhuma alguém, dentro do partido, subestimou a queda. A sangria de 13 deputados ecoou de tal forma que Assunção Cristas, reconhecendo a responsabilidade daquilo que tem sido uma oposição fraca, simplória, demagógica, rude - que evidentemente resultou na dispersão de boa parte do eleitorado, do CDS, para os quadrantes políticos dignos da sua atenção - abandonou a sala no momento em que os resultados eram conclusivos. Au revoir
O que o PS vai fazer da vida, enquanto Governo, infelizmente diz-me respeito. Por mim, que se oriente, sozinho ou com o Bloco Centra. Mas continuar a dar de barato que a Esquerda lhe levará o pequeno-almoço à cama, todas as manhãs, como um bom elfo doméstico, isso é que não pode ser. É contra producente para os partidos de Esquerda. É um risco para a Nação, mesmo que a apregoada estabilidade seja comprometida. Palavra de honra que gostava de assoprar aquele sorriso manhoso da cara de António Costa. Calma, não estou a demonstrar impulsos violentos ante o Primeiro-Ministro, o que quero dizer é que o PS deveria aprender a não contar com muletas governativas, muletas essas que, uma vez usadas, são atiradas para o caixote dos inflexíveis. O que aconteceu ao PCP (outra sangria, embora menor) é consequência de que, politica e eleitoralmente, só há um partido a retirar dividendos desta convergência. Embora muitos dos avanços que aconteceram no país - desde o aumento do salário mínimo, à reposição de rendimentos, aos cortes dos impostos directos, ao pé firme ante o lobby do ensino privado que tem tentado sugar os apoios do Estado - tenham sido concretizados porque CDU e BE para isso fizeram pressão, o PS foi o único que levou o troféu de missão cumprida, enquanto roubou um pouco de eleitorado ao BE e muito eleitorado ao PCP. 
O PCP aprendeu com o erro e a sua disponibilidade, de momento, para acordos com o PS, é tão grande quanto a minha vontade de ir à missa. O PCP precisava de dar muitos passos para voltar a ser uma grande e credível força de Esquerda na República como nos tempos de Álvaro Cunhal - se bem que a luta sindical ainda aí está, e isso ainda é alguma coisa -, mas o primeiro passo já foi dado porque a recuperação da autonomia política parece ressuscitar. Enquanto personagens como Augusto Santos Silva e Carlos César existirem para tirar vida a tudo o que os rodeia e reforçarem-se a si próprios, como cactos no deserto, o PCP não pode funcionar como é definido na sua génese política. O PCP precisa de se libertar do jugo de convergências ingratas que o prende, voltar a adoptar uma postura não cúmplice, porque, sejamos francos, no quadro maior, os avanços efectuados sabem a pouco. O mesmo recado vai para o Bloco de Esquerda. Não é por acaso que o BE não subiu um deputado que fosse, circunstância anómala na minha opinião. 
A tendência do BE tem sido sempre para subir, ainda por mais agora que já deu provas de como a sua leverage política é útil para pressionar governos fundamentalmente frágeis. Mas eis que Costa e PS arranjaram forma de também ao BE tirarem vida, como cactos a desidratarem o espaço circundante... e eu nada mais me posso confessar para além de chocado ante o facto do BE se ter mantido na mesma. Se o BE não mantiver o seu cariz político frontal, radical quando necessário e verdadeiramente socialista, o seu eleitorado - no qual eu me incluo - esvaziar-se-á, e alguns, como eu, optarão por propostas radicais, que substituam o Bloco enquanto movimento esquerdista, enquanto outros irão para o bolso do PS. Vivemos tempos incertos e complexos. Tudo o que eu peço é que a Esquerda se liberte dos grilhões e faça entender ao Governo que isto não é um passeio no parque. A Esquerda tem de, por natureza, ser uma alternativa ao sistema capitalista, e se o PS não representa tal alternativa, e se os partidos de Esquerda, eleitoralmente, nada ganham com isso - nem os portugueses, ao longo prazo, ganharão aquilo que quer que seja com isto - então a ponte com o Governo PS tem de ser cortada.
Tão incertos e complexos estão os tempos que um neofascista chegou ao Parlamento. Esperava, e previ, a vinda do LIVRE e da Iniciativa Liberal (fenómenos políticos distintos entre si, mas altamente compreensíveis dentro das mentalidades do Século XXI), mas não esperava que também já houvesse um número bastante de portugueses, embalados na retórica etno-centrista, ultra-capitalista, homofóbica, autoritarista e fanaticamente nacionalista, ao ponto de André Ventura conseguir ser eleito. Afinal, embora mais lentamente, os movimentos que têm sucedido noutras latitudes geográficas, para minha grande tristeza, chegaram a Portugal, e de todos os círculos, em proporção, Portalegre (o meu círculo) é que teve mais adesão. Ainda que seja irónico que o cabeça de lista do Chega, em Portalegre, já ter sido um associado do PS. O Ser Humano é mesmo um mamífero estranhíssimo. O Chega chegar ao Parlamento é motivo suficiente para eu, pessoalmente, declarar estado de sítio na República por um motivo muito simples: basta ler as primeiras 20 páginas do Programa Político deste partido. Está lá, não de forma escamoteada, não de forma subliminar, não de forma implícita, mas sim explicitamente: o Chega quer terminar com a Constituição actual - declara-a como um produto de marxistas conspiradores - e criar uma nova, e segundo aquilo que são as ideias de sociedade do Chega, de acordo com as 50 páginas daquele Programa Político, tal Constituição seria uma híbrida entre a Fascista que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974, e os modelos dos EUA. Na essência, o Chega quer fundar aquilo a que chama de "IV República". Motivações como estas, com eleitorado ganho através de tais argumentos, já houve muitas. Conquistar os eleitores através, do medo aos marxistas e à violência nas ruas, ou do ódio, ou do preconceito, a História já teve muito disso. Resultou sempre em retrocesso e Ditadura. Para mim, qualquer voz que se levante em defesa deste movimento político é nada mais que um inimigo da Democracia, da República e da Liberdade. Digo-o sinceramente, não são figuras de estilo nem é só pose. Até que todos os portugueses, que votaram no Chega, sejam convencidos de que o partido de André Ventura não é o caminho da mudança para melhor, de que o caminho que certos países tomaram não é o caminho da liberdade, igualdade e fraternidade, a República está em Estado de Sítio. Por último devo também dizer que a ideia, que pessoas como o Júdice tem difundido, de que os comunistas no Alentejo foram votar no Chega, é um disparate dito com propósito. É o propósito de dizer que o eleitorado do PCP é tudo um monte de totalitários. Se o leitor tinha essa ideia na cabeça, basta seguir a retórica do Chega, ou ler as primeiras 10 páginas do Programa Político deste partido, e perceberá que esquerdista nenhum (nenhum mesmo!) subscreve aquilo. Ainda por cima os comunistas, cuja base ideológica se sustenta na Filosofia de Karl Marx, e estas primeiras 10 páginas, de que falo, não são mais que um ataque ao Marxismo.
Por último, acerca do CDS. Este será o momento do CDS se definir. O CDS, como já vários comentadores referiram, tem dois caminhos a seguir. O caminho que tem tomado, tentando ocupar um espectro político que já há muito foi ocupado, ou desviar-se para a Direita, indo dar força ao projecto político do Chega. Há uma facção dentro do CDS, que sempre foi crítica de Cristas, que defende este desvio ainda mais à Direita, aproximando-se dos mesmos princípios ideológicos defendidos pelo Chega, e falo do TEM (Tendência Esperança em Movimento), da qual o Vice-Presidente da Concelhia Distrital de Lisboa, do CDS, faz parte. Se tal mudança de caminho tiver lugar no CDS, teremos, todos nós que queremos preservar a Revolução de Abril, muito a temer.
De resto, a ver vamos quanto tempo o XXII Governo Constitucional durará. No final, tudo poderá resumir-se à vontade, creio eu, ora do BE, ora do PSD. O futuro está mesmo muito incerto, para todos nós mesmo. Até para aqueles que vivem na ilusão de que a Política não os afecta.

E porque temos pela primeira vez, desde a União Nacional, um partido fascistizante no Parlamento, é agora que toda a Esquerda parlamentar tem de mostrar a sua fibra, a sua convicção e a sua luta. Talvez o Chega sirva de vacina à Esquerda, numa nação onde o Fascismo foi derrubado por métodos revolucionários. Talvez o PCP se inspire, perante aquela figura, a desenterrar a foice e o martelo. Talvez o BE se inspire a tornar-se, outra vez, o partido de adjectivação radical que o caracterizou durante vários anos. Talvez Ventura não se consiga levantar do tapete, quando esta legislatura terminar. Mas para isso, é preciso também o PS definir a sua posição na História, enquanto partido que ocupa o centrão. Posição essa que, por várias vezes, aos meus olhos, não foi feliz, perante a luta democrática por Liberdade e Socialismo. Será preciso bem mais que zombar do Chega, ou ignorar os palpites de Ventura, é preciso uma posição firme e apaixonada. 

sábado, 5 de outubro de 2019

Legislativas 2019: Os demais Partidos

Julgaria que não seria justo terminar este endeavour sem abordar alguns dos partidos que não têm, presentemente, representação parlamentar. Seria incoerente e hipócrita, até, se não o fizesse, uma vez que, eu próprio, sou um crítico, da pequeníssima cobertura mediática que os pequenos partidos têm, ou do quanto desfavoráveis as constantes sondagens são para com estes partidos, ou o facto dos líderes destes partidos não terem oportunidade de participar em quase nenhum debate. Devo notificar, todavia, que não abordarei todos os 15 partidos que concorrem nestas circunstâncias. Não o farei porque tal seria um trabalho aborrecido para mim, mas também porque seria um trabalho deveras exaustivo para quem o lesse. A verdade é que, há partidos que me suscitam, virtualmente, nenhum interesse - devido a não passarem de projectos sem visão ou ideologia, no meu ponto de vista - e por isso não serão mencionados neste texto.
De todos estes 15 partidos, o único que alguma vez teve representação parlamentar foi o Partido Popular Monárquico (PPM), durante as duas legislaturas governadas pela Aliança Democrática, coligação da qual fez parte com o PPD e o CDS, tendo tido, inclusive, o seu então Presidente, o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, como Ministro de Estado e da Qualidade de Vida durante o VIII Governo Constitucional. Há duas componentes nas quais eu, no decorrer do tempo, posso qualificar o PPM. No que à sua ideologia política concerne, o partido, fundado em 1974, manteve-se relativamente inalterado, defendendo uma política económica liberal, sendo socialmente conservador, defensor, contudo, do Ambiente e da autonomia dos municípios. A sua génese cultural está assente no Catolicismo e no ideal da Monarquia. No que à sua organização e intervenção política diz respeito, o definhamento do PPM é mais que óbvio, tendo-se tornado num partido quase cómico - assim como o seu actual Presidente - declarando enormidades como "o PPM é o partido mais querido dos portugueses". O curioso é que, tanto quanto tenho tido oportunidade para averiguar pessoalmente, através de pessoas que conheci, muitos monárquicos não costumam votar neste partido.
Entre estes 15 partidos, o mais antigo é o Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizado do Partido do Proletariado (PCTP/MRPP), fundado em 1970 segundo o guia ideológico do Maoismo (corrente supostamente interpretativo, por parte de Mao Tsé-Tung, do Socialismo com características chinesas). Claro que é possível perguntar-mo-nos se, de facto, o Maoismo foi tal coisa, ou se havia qualquer índice de Marxismo nesta corrente política. A minha resposta é que, na verdade, nunca houve. Voltando ao MRPP, é possível classificá-lo como um partido de Extrema-Esquerda Estadista, tendo um historial de rivalidade ideológica, pelo eleitorado comunista, com o PCP. Embora a sua capacidade organizativa, a sua perseverança, e a sua queda para o incrível esteticismo da elaboração de murais socialistas na paisagem urbana, o MRPP nunca teve, o sucesso eleitoral, ou o impacto no combate ao Regime Fascista, que o PCP evidentemente teve. Embora tenha respeito pelo ex-líder do MRPP, António Garcia Pereira, advogado e especialista em Direito do Trabalho, o partido, geralmente, tem dado contributos pelo descrédito da Esquerda, dado as suas declarações e atitudes altamente discutíveis - sendo o partido que é -, especialmente, durante o PREC. Também os seus quadros estão extremamente envelhecidos, tendo entrado, já há muito, apesar do radicalismo patriótico do partido, num ciclo repetitivo torturador no que concernem os argumentos, do partido, na discussão política. No final de contas, que partido, no seu perfeito juízo, classifica o PCP como "Partido Revisionista Social Fascista"?
Indo para partidos bem mais recentes, julgo ser oportuno abordar a Aliança, fundada em 2018 e presidida pelo ex-Primeiro Ministro pelo PSD, Pedro Santana Lopes, e abordar a Iniciativa Liberal, fundada em 2017 presidida pelo Carlos Guimarães Pinto, uma vez que ambos os partidos têm imensas parecenças, estando situados, para todos os efeitos, na Direita Política. Falando primeiro em semelhanças, são dois partidos que procuram uma ainda maior liberalização da Economia, tirando o papel do Estado da mesma, e entregando esse mesmo papel ao, há muito profetizado, poder independente e regulador dessa entidade sem corpo nem cabeça que é o Mercado. No que às questões sociais e culturais concerne, é aqui, possivelmente, onde as diferenças poderão ser mais evidentes. Embora a Aliança se declare como um partido liberal e personalista, tal afirmação colide com a génese socialmente conservadora que marca, não só selectos elementos do partido, como também o seu homem forte, Santana Lopes - que, por sinal, é convictamente monárquico, sugerindo claro tradicionalismo no seu pensamento político. Já a IL é, curiosamente, socialmente libertária. A IL, mantendo-se coerente com o seu Liberalismo, defende muitas das causas de liberdade social que eu próprio defendo, aproximando-se, neste sector, de forças como o Bloco de Esquerda. Culturalmente, a Aliança faz questão de anunciar a sua fidelidade ao catolicismo, enquanto que a IL não faz grandes menções a pensamento religioso. Aliás, esta laicidade do programa político da IL justifica, por ventura, o facto de defenderem causas opostas à Doutrina Social da Igreja como a Eutanásia e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outra grande diferença, no meu ponto de vista, entre estes dois partidos é que, ao passo que a IL é um partido não centralizado numa personalidade individual do partido, cumprindo melhor o conceito de movimento colectivo, a Aliança é claramente um partido centrado no seu fundador, e congeminado para ser um mecanismo de vingança, de Santana Lopes, contra aqueles que o tentaram colocar à margem. Qualquer um destes dois partidos tem potencial para eleger um deputado (possivelmente os seus respectivos presidentes caso aconteça), ao contrário dos dois antigos partidos em cima mencionados.
Mergulhando agora, com uma grande bolsa de ar, no Nacionalismo de Direita, ou, como também lhes posso chamar, nos ultras da campanha, abordo o Partido Nacional Renovador, fundado em 2000 e liderado por José Pinto Coelho, e o Chega (nome palerma e sensacionalista que, com propósito, não quer dizer nada em princípio), fundado este ano e liderado por um antigo militante do PSD, André Ventura. O PNR, por um lado, é o partido neofascista com o qual nos temos habituado a conviver, durante este século, e que tem estado na vanguarda da defesa: dum Nacionalismo etno-cêntrico e xenófobo; dum Portugal Corporativista, ou seja, duma ofensiva ao Direito Laboral e à Luta Sindical; dum regresso à velha ordem das "boas condutas morais e sexuais", implicando o Estado na vida privada e sexual do cidadão; e difundido uma teoria da conspiração doida que eu já tive hipótese de abordar sinteticamente, a Invasão do "Marxismo Cultural". O Chega, representando um formato mais refinado e sofisticado da mesma corrente, mais inspirado nos modelos da Alt-Right dos EUA, tem uma linha de pensamento muito similar ao PNR, embora disputem qual dos dois partidos defende mais as forças de segurança - que merecem, como qualquer trabalhador, o seu reconhecimento laboral - e qual dos dois consegue melhor montar um Estado Policial. Enfim, dois partidos que me afiguram a um determinado antigo regime.
Numa nota mais individualizada, gostava de manifestar o meu agrado pelo combate que Marinho e Pinto, enquanto figura central do Partido Democrático Republicano, tem travado para dar alternativas mais eficazes e justas ao actual sistema de Justiça em Portugal, fazendo-o, como é característico do próprio, de forma fervorosa e apaixonada pela República.
Concluindo, gostava de abordar dois partidos ligados ao meu espectro político: o LIVRE, sendo uma tendência dissidente do BE, fundado em 2014 pelo Historiador e Professor Rui Tavares; e o Movimento Alternativa Socialista, fundado em 2000 como o ramo português na IV Internacional (organização socialista e anti-estalinista, que, embora tenha atravessado vários processos de mutação, foi fundado em 1938 por Leon Trotsky como força de Esquerda opositora à URSS), e separado da organização desde 2017, liderado actualmente pelo ex-militante do BE, o Professor Gil Garcia. São dois partidos que se encontram no quadro da Esquerda Libertária (socialistas no campo económico, sendo que o LIVRE prefere a designação de Eco-Socialista, e libertários no campo social), e que mantêm um olhar que, embora não seja hostil, é crítico ante a solução governativa dos últimos quatro anos. Também a emergência climática é uma questão de fundo para estes dois partidos, e ambos compreendem que, para que a sociedade internacional tenha ferramentas para fazer frente aos problemas ambientais, é necessário reformular os próprios modelos de produção e distribuição económica e financeira sobre a qual a Civilização Humana está sustentada. Confesso que, antes de decidir em votar no Bloco, considerei votar num destes dois partidos, em todo o caso, o MAS (para além de ter uma certa Joana Amaral Dias da qual eu não sou particular fã por razões várias) não tem representação no meu Círculo Eleitoral de Portalegre.


Por último, gostava de me manifestar contra a abstenção. O Voto, para além de ser um direito também é um dever, pelo qual imensas pessoas deram a vida, durante muitos anos. Confesso também que, para mim, um voto branco ou nulo, enquanto manifestação inconformada da paisagem de partidos, é diferente duma abstenção. Contudo, por enquanto, a República Portuguesa não faz, virtualmente, nenhuma distinção entre uma coisa e outra. Apelo sobretudo a uma participação democrática, pois só uma sociedade interventiva, na vida política, pode ser próspera e progressista. Apelo a um voto em consciência, e apelo um voto sem nunca este perder de vista os valores democráticos, humanistas e pacifistas.

Por fim, apesar do Dia de Reflexão Nacional (que nem devia existir, porque reflexão nacional é algo que tem de acontecer todos os dias do ano), que serenou as hostes, e apesar do mais recente cardeal a entrar na cúpula da Igreja Católica, desejo a todos um feliz dia 5 de Outubro, ainda que, este ano, a data tenha sido praticamente desprezada, quer pelos Media ou pelas Instituições. Feliz Dia da Nacionalidade e Feliz Dia da República Portuguesa!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Legislativas 2019: Bloco de Esquerda

O presente ano do calendário gregoriano assinala o 20º aniversário do Bloco de Esquerda. Foi no ano em que também eu nasci, que três forças políticas esquerdistas, de pequena dimensão, se juntaram para darem origem àquilo que é, na minha opinião, um dos fenómenos partidários mais interessantes de Portugal. A União Democrática Popular era um movimento marxista-leninista, com uma natureza ideológica algo semelhante ao PCP, fundada em 1974. A Política XXI, fundada em 1994, era um espaço que albergava um espectro político consideravelmente vasto, desde o Eurocomunismo até à Social Democracia. O Partido Socialista Revolucionário - confesso que, para mim, é dos nomes mais atractivos para se dar a um partido -, fundado em 1978 no contexto, e no seio, da Liga Comunista Internacionalista, foi um dos mais proeminentes partidos trotskistas em Portugal. Foi o PSR que, uma vez fundido no BE, fez o principal contributo em fazer do Bloco o grande farol da Nova Esquerda em Portugal. Francisco Louçã foi líder do PSR e seria ele quem iria ser um dos principais fundadores do BE, e o seu primeiro Coordenador. Portanto, se há partido que tem um nome oportuno em Portugal, é o BE: um bloco político onde convergem várias visões de esquerda - é por isso que a única posição oficial nos estatutos do partido são a Alternativa ao Capitalismo e o facto deste ser um movimento de Esquerda. 
Indo aos tempos primordiais do BE, três pessoas são facilmente identificáveis com ele: o Professor  e Economista Francisco Louçã, o já falecido Miguel Portas, e o Professor e Historiador Fernando Rosas, com o qual tive o enorme gosto de ter aulas no semestre passado. Hoje, 20 anos após a fundação, as caras do partido são diferentes, o que é uma prova da necessidade do Bloco renovar, regularmente, os seus quadros. Figuras notórias hoje na bancada parlamentar do partido são Mariana Mortágua, José Soeiro, Luís Monteiro e a Coordenadora Catarina Martins. O BE é uma enorme lufada de ar fresco na política portuguesa porque vem representar a Nova Esquerda em Portugal, corrente que, até então, tinha muita pouca visibilidade neste ibérico rectângulo. 
Nova Esquerda (ou New Left), para quem não está familiarizado com o termo, é uma corrente, de várias correntes esquerdistas, surgida durante a Contra-Cultura da década de 60, inspirada por um grande conjunto de ideias socioeconómicas, muitas delas difundidas pela Escola de Frankfurt - corrente académica esta, inspirada em vultos da Sociologia, Psicologia, Economia e História, como Karl Marx, Max Weber, Sigmund Freud, Georg Hegel ou Gyorgy Lukács - fundada entre a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais, como resposta à sociedade capitalista, ao Fascismo e à URSS estalinista. É, aliás, através do papel político, académico e social da Escola de Frankfurt que os movimentos Neofascistas vão inventar o termo "Marxismo Cultural", uma teoria da conspiração completamente destituída de razão, que afirma que os judeus querem impor ao mundo uma agenda comunista, internacionalista, anticristã, maçónica, "homossexualista", feminista, entre outros termos, para destruir os valores da família e das nações, e fazer erguer uma diabólica Nova Ordem Mundial. Num mundo onde ainda há gente que pensa que o planeta é plano, não posso ficar surpreendido com gente que acredite nestas teorias. Passando à frente desta descrição deveras desconfortável, de fazer regelar os ossos, foi, portanto, há 50 anos que a Nova Esquerda começou a ganhar forma nas sociedades civis de vários Estados. Diversas personalidades proeminentes podem ser identificadas com esta corrente de correntes, entre os quais Noam Chomsky (linguista, professor e filósofo), Christopher Hitchens (jornalista e professor), Herbert Marcuse (membro da Escola de Frankfurt), Bertrand Russell (matemático, filósofo e historiador), Jean-Paul Sartre (escritor), Pepe Mujica (ex-Presidente do Uruguay), Michel Foucault (sociólogo, historiador e professor). Vale a pena também mencionar, ainda, figuras anteriores ao surgir da New Left, mas de certa forma associáveis à corrente, como Leon Trotsky, Antonio Gramsci, Ho Chi Minh, Mahatma Gandhi, Ché Guevara, Albert Camus, Albert Einstein, Emma Goldman ou Rosa Luxemburg.
É esta a carga (e a escola) ideológica do BE. Sempre foi este horizonte o objectivo com este projecto político que, acima de tudo, se declara como um "movimento de cidadãos e cidadãs". E é precisamente isto que considero fascinante no BE. O Bloco, embora procure um plano socialista para a sociedade, não se cinge a uma única ideologia. É um projecto que, verdadeiramente, tem potencial para abraçar toda a Esquerda. Indo mais ao concreto da questão, o Bloco defende, num plano económico, um caminho que defenda os Direitos Laborais e a intervenção do Estado nos sectores chave da Economia: Saúde, Educação, Transportes, Energia. Num plano social, o BE está na vanguarda da defesa da liberdade: igualdade de género, defesa dos refugiados na Europa, direito ao aborto, eutanásia, defesa de homossexuais, bissexuais e transgéneros, e direito ao consumo recreativo de cannabis. Num plano cultural, o programa do Bloco, para além de ser claramente republicano, também é laico, não mantendo qualquer tipo de relação oficial com qualquer religião. Inclusive, o Bloco pretende que as Igrejas comecem a pagar IMI, assim como os imobiliários dos partidos políticos e dos clubes desportivos profissionais. (Numa nota de curiosidade, a Igreja Católica, a seguir ao Estado, é o maior proprietário de Portugal). Se isto não é comprometimento com igualdade e Estado forte, não sei o que é.
Numa nota de cautela, ou recomendação, sugiro que o BE, em tempo algum, suavize nenhuma das suas posições ante o status quo. Mais. Uma vez que o PS decidiu revelar a sua grandessíssima ingratidão com um partido que lhe aprovou quatro Orçamentos de Estado (mas que, ainda assim, lhe fazia frente em questões concretas quando a ocasião o pedia), em nome da confiança e da estabilidade nacional, sugiro que o BE, de agora em diante, se mantenha à margem de qualquer acordo parlamentar que surja na Assembleia da República, quer venha do PS ou do PSD. Os partidos do sistema não merecem a confiança do Bloco de Esquerda (facto do qual eu já desconfiava fortemente quando a Geringonça foi montada e eu torci o nariz), uma vez que o respeito que têm pelo partido é nada mais que um esgar de cinismo. Estes quatro ano, com os sucessivos episódios incómodos que, em questões de fundo juntavam PS, PSD e CDS, e as declarações dos barões do PS durante a campanha e pré-campanha, sobre a Geringonça, são prova disso mesmo. Voltar a aprovar uma solução parlamentar liderada pelo PS, é o mesmo que o BE atirar à janela o seu esquerdismo vincado e a sua génese radical.
Não vou esconder que este texto não é, também, um apelo de voto no Bloco de Esquerdo. Eu não tenho partido político uma vez que não estou afiliado a nenhum. Mas no que toca à defesa dum programa socioeconómico socialista: em defesa da Escola Pública e do SNS; em defesa dos salários de quem trabalha, das oportunidades de quem vai trabalhar e das reformas de quem trabalhou; em defesa do Estado como fonte de redistribuição da riqueza; em defesa do ambiente e dum progresso sustentável; em defesa duma política socialmente libertária; em defesa duma Europa verdadeiramente democrática (a UE está a anos-luz disso) - o Bloco de Esquerda é a resposta enquanto se mantiver firme nas suas linhas ideológicas e na sua integridade enquanto movimento político. Não há maior prova quanto a estes factos do que o seguinte: nos anos 70 e 80, o PCP era o grande estandarte da Esquerda nacional e a grande oposição à Direita, recebendo em troco grandes e violentas reacções, e hoje, o grande alvo dos reaccionários são o BE porque foi o BE quem ocupou essa posição. Trocando isto por miúdos: o Bloco está para o José Miguel Júdice como o PCP estava para o mesmo nos anos 80.
O dia 6 de Outubro poderá ser decisivo para o BE aumentar a sua força política, e o BE precisa disso. A Esquerda precisa disso. A República Portuguesa precisa disso. Se domingo for favorável, o BE passará a ter mais de 20 deputados na Assembleia da República... mas, por favor, longe da agenda do Arco do Governo!

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Legislativas 2019: Coligação Democrática Unitária - Partido Comunista Português & Partido Ecologista "Os Verdes"

O Partido Comunista, de Portugal, é o mais antigo partido, dos que estão activos, na Nação. Fundado em 1921, não duma separação dum movimento socialista ou social democrata - como era costume suceder na Europa daqueles longínquos (mas tão familiares) dias -, mas sim nascido dum movimento anarco-sindicalista que então operava em Portugal. O passado primordial do partido, à luz da História, é por vezes sinuoso, e da sua fundação a cinco anos o partido tornou-se ilegal, assim como todos os outros, aquando do Golpe Militar ditatorial de 1926 que pôs fim à I República. Foi preciso esperar 48 anos, pela Revolução dos Cravos, para que o PCP voltasse a ser um partido legalizado na República Portuguesa. O PEV, por outro lado, é um partido mais recente. Fundado em 1982, nunca concorreu em Eleições Legislativas sozinho, tendo desde o ano da sua fundação mantido uma coligação parlamentar com o PCP. Muitos consideram que tal é pouco digno dum partido. José Sócrates, aliás, quando então dava a secreta infelicidade ao país de ser Primeiro-Ministro, fez uma declaração a respeito do PEV quando se dirigia à sua Líder Parlamentar, Heloísa Apolónia, dizendo "verdes por fora, vermelhos por dentro". Saltando por cima do claro anti-socialismo de Sócrates, o PEV é um partido que não tem visto reconhecida verdadeira justiça. Embora seja verdade que sempre tenham mantido coligação com o PCP, têm um programa político próprio, sendo o primeiro partido Eco-Socialista na História da política portuguesa, e revelando, inclusive, nos últimos anos, um espírito de liberdade social mais progressista que o PCP. Embora tenha passado despercebido, não só o PEV é solidário com o consumo de cannabis, como também apresentou uma proposta de lei, na AR, pela legalização da eutanásia, da última vez que esta foi discutida no Parlamento. 
Quanto ao PCP, este não só é um partido pelo qual eu tenho um profundo respeito e admiração, como também é um partido ao qual todos os portugueses, que são pró-25 de Abril, devem o derrube do Fascismo. Embora a historiografia contemporânea tenha dado o lugar de destaque ao PS, e ao seu líder fundador Mário Soares, como principais opositores civis ao Fascismo, foi o PCP que correu o país de Norte a Sul, muitas vezes em bicicleta, distribuindo jornais e panfletos clandestinos, fazendo uma oposição democrática pelas sombras, agitando o povo português e os jovens universitários a erguerem-se contra a Ditadura. Foram inúmeros militantes e colaboradores comunistas que acabaram presos, torturados, e por vezes mortos em longínquos locais como o Tarrafal - como exemplo o Secretário-Geral Bento Gonçalves -, e foram os comunistas que no dia 25 de Abril eram bestiais, e no dia 25 de Novembro do ano seguinte já eram bestas, fruto de incontáveis esfaqueamentos pelas costas. Claro que nenhuma menção histórica ao PCP fica completa sem aquele que é o meu maior ídolo político português, Álvaro Cunhal.
Cunhal atravessou uma juventude academicamente brilhante, participando na célebre polémica cultural com José Régio, desde cedo abraçando a Filosofia Marxista, e desde cedo tomando acção contra o Fascismo. Filiou-se ao PCP, tornou-se o seu Secretário-Geral, e atravessou 11 anos de violência e opressão na Prisão de Alta Segurança de Peniche. Eventualmente, a alta segurança não impediu que Cunhal e outros camaradas se evadissem da Prisão, em 1960, passando ao exílio, na União Soviética e em França, até ao famoso dia 25 de Abril de 1974. Desde aí, Cunhal lutou pela efectivação duma Revolução Socialista e Democrática em Portugal, tendo estando ao lado dos desígnios do PREC, mas nunca indo ao ponto de querer iniciar uma Guerra Civil, como outros, por ventura, estariam dispostos. Sabemos hoje que Mário Soares chegou a estabelecer contacto com os EUA, para que estes invadissem Portugal, em 1975, no caso das soluções do PREC se tornarem definitivas. Há muito que vejo o camarada Álvaro como uma personagem vinda de uma qualquer obra literária fantástica. "Filho adoptivo do Proletariado", como se declarava, era também possuidor de uma intelectualidade fantástica. Muitas vezes é disso que sinto falta no PCP. Uma voz pelo Proletariado, e ao mesmo tempo um farol intelectual, uma estrela vermelha inspiradora, com destreza política e capaz de ler, com a máxima assertividade, o mapa do caminho socialista e as orientações do Marxismo. Mas o Álvaro, apesar da sua longa e preenchida vida, já não vive. E como não vive já não pode corrigir os erros, anteriores e ulteriores, do partido.
O PCP, e por consequência a CDU - uma vez que este foi sempre o partido maior na coligação -, já não tem, nem a vida, nem os deputados, que outrora teve. Nas primeiras Eleições Legislativas, em 1976, o PCP obteve 40 deputados, tendo alcançado vitória em três distritos: Setúbal, Beja e Évora. Na altura correspondeu a quase 800 mil votos dos eleitores. Hoje, 43 anos após tal coisa, a bancada parlamentar da CDU está reduzida a menos de metade dos deputados (15 do PCP e 2 dos Verdes). A linha decrescente lê-se como tinta preta em papel branco, infelizmente.
Creio que Cunhal deixou para trás um grande vazio de orfandade, não só para muitos de nós que acreditam, ou esforçam-se por acreditar, que um futuro socialista é possível - e sim, eu de facto acredito que, no plano democrático, tal transformação civilizacional seja possível no Mundo -, mas também para o próprio PCP. Não vale a pena negá-lo. A força já não é a mesma. O pulsar ideológico e a Luta política já não são os mesmos. Muitos dos deputados já não acreditam, com a força que antes se acreditava, que o Capitalismo é um sistema não democrático e ingrato. Pergunto-me mesmo quantos deles compreendem as artérias do pensamento marxista e a tese do Materialismo Histórico. Bernardino Soares compreende-os? António Filipe compreende-os? Sou céptico porque os costumo ouvir, e não me soam a comunistas. Saramago afirmava, com algum humor, que era um comunista hormonal. Possivelmente, para se ser é isso que é preciso. Uma forma de acção e pensamento, um estilo de vida, que justifique tal compromisso. E há várias razões pelas quais eu não sou, mas isso será para outra altura. Por agora basta-me dizer que, apesar de ter admiração pela dinâmica da mentalidade, selectas coisas impedem-me de o ser, nomeadamente a forma como a ideologia fecha os olhos a outras filosofias que partilham vários aspectos em comum.
Continuo a acompanhar o PCP nas suas bases ideológicas económicas, acompanho menos no que à base social diz respeito. O PCP já foi socialmente progressivo. Foi Cunhal que apresentou uma Dissertação sobre a legalização do aborto, num país que ainda estava a anos luz de se pensar em tal coisa, e foi o PCP que apresentou uma proposta de lei pela sua legalização em 1982. Também foi o PCP um grande defensor dos direitos da mulher na sociedade. Mas outras questões, de similar importância, com o tempo, escaparam à atenção do partido. Quanto à sua organização política - em tempos massiva, inconformada, de grande força sindical -, é o que, acima de tudo, está mal no PCP. Perdeu-se o norte. E a culpa não reside no seu Secretário-Geral, Jerónimo de Sousa, pelo qual tenho uma tremenda admiração. Jerónimo também lutou, e luta, pela verdadeira Democracia. Jerónimo é dos políticos mais honestos da História de Portugal. Nunca teve o mais pálido interesse em enriquecer às custas da política, abraçando-a como um autêntico serviço ao Povo. Mas o PCP insiste em dar cobertura a Nicolas Maduro, aos crimes que têm sido feitos na Tchetchénia, ao Regime Ditatorial na China, a não comentar a natureza sinistra do regime da Coreia do Norte. No meu ponto de vista, o PCP precisava de reformular os estatutos da sua base ideológica. Abraçar os preceitos do Marxismo clássico. Dar os mesmos passos em frente que, por exemplo, o Partido Comunista Japonês deu. O PCP precisa de aprender a reconhecer derrotas políticas quando elas, de facto, sucedem, para que haja espaço para a auto-crítica e a correcção da praxis. Isto é muito mais que teoria, é um facto. Não há caminho socialista sem aplicação de método e praxis. E as mudanças de fundo têm de ser aplicadas o mais rápido possível, antes que seja tarde. Reformulem os quadros do partido, expulsem quantos tiverem de expulsar. Um partido comunista tem de ser, por natureza, radical na sua acção política (e para o leitor mais obtuso, com radical não me refiro a rebentar bombas, logicamente). Chegou uma altura em que o PCP teve de expulsar, nos anos 80, gente como a Zita Seabra, do partido. O PCP não pode ser complacente com o facto do imobiliário dos partidos e as igrejas não contribuírem, fiscalmente, para o Estado. Aliás, o PCP não devia ter qualquer género de relação com qualquer forma de religião organizada. O PCP devia ser vocal com a forma como a Religião anestesia, como ópio, a população mundial, como Marx um dia escreveu. Não é preciso ser-se comunista para votar PCP, ou CDU se quiserem, eu planeio, por enquanto, continuar a fazê-lo na minha autarquia, de consciência tranquila, mas até ao dia em que estas reformas não forem pensadas e efectuadas, não poderão contar comigo no plano nacional.
No dia 6 de Outubro irá haver um embate. A CDU decidiu que devia colocar candidatos importantes, como Heloísa Apolónia, em distritos onde há séculos que não elegem ninguém. Tudo o que tenho a dizer é que a bala vai sair pela culatra. É possível que a CDU perca mais uns quantos deputados. Haverá dias melhores se o espírito crítico e o bom senso ideológico falarem mais alto que o Centralismo Democrático.

Post scriptum:
Até ao dia em que o PCP abraçar a Revolução Internacionalista, focada numa Esquerda Libertária. Até ao dia em que denunciarem, explicitamente, o: Estalinismo; o Holodomor; a agressão da URSS à Checoslováquia em 1968; e a perseguição de 90% do Comité Central do Partido Comunista Soviético, por Stalin, que resultou no assassinato de, entre outros, Leon Trotsky; não fizeram avanço nenhum... com grande tristeza minha.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Legislativas 2019: Pessoas-Animais-Natureza

Foi com agrado que, nas Eleições Legislativas de 2015, recebi a primeira eleição, deste partido, dum deputado para Assembleia da República, tendo em conta que o PAN, não só é um partido recente, como também é um partido de reduzidos meios financeiros e logísticos, quando comparado com os partidos de grande dimensão. Claro que a minha felicidade não é cega. Teria recebido com pesar tal facto se tal tivesse vindo dum partido neofascista, mas o PAN não é um partido que apregoe tal ideologia, sendo sim um partido que, nos últimos quatro anos, trouxe à mesa da discussão pública questões que, até então, não passavam dos seus pequenos círculos ideológicos... e isso quando não eram consideradas meras trivialidades pouco dignas da discussão política nacional. Claro que, no que concerne aos avanços legislativos das propostas do PAN, o partido foi sortudo em 2015, uma vez que foi André Silva o deputado eleito - um homem que, sozinho, tem feito uma "barulheira" naquele parlamento. Já me deparei com pessoas que, de facto, se indagaram com este fenómeno: "Como é que um tipo só pode fazer tanto barulho?". E, neste aspecto, há que dar o mérito ao André Silva e ao seu partido no qual ele é o Porta-Voz. Mas antes das especificidades da prática política, é imperativo, como de resto tenho feito nos textos anteriores (o melhor que pude, talvez, tendo em conta que não quero fazer destes textos demasiado massudos, apesar de, para alguns, como avisei no início, serem indigestos), abordar a corrente ideológica por detrás do PAN.
Aqui é duplamente oportuno usar o termo "ideologia", devido ao facto de André Silva ter declarado o PAN como um partido pós-ideológico. Logo aqui vejo o primeiro grande problema com este partido, porque, no meu entendimento da sociedade humana contemporânea, não existe tal coisa como um movimento pós-ideológico. Pós-ideologia faz-me sempre lembrar de Pós-Modernismo - uma corrente filosófica recente que, não só anunciou o Fim da História e o derradeiro e eterno triunfo do Capitalismo sobre todas as demais formas de civilização, após a desagregação da União Soviética, como também introduziu estilos de arte que, por vezes, me sinto obrigado a classifica-los como produto da preguiça. Um partido pós-ideológico é um partido que se considera, num plano de evolução, para lá das correntes ideológicas que se espalham pelas várias formas de pensamento do nosso mundo. É um partido que se alheia ao confronto de ideias entre Socialismo e Capitalismo. É um partido que considera que isto de Direita e Esquerda é nada mais que uma distracção daquilo que é o foco da questão. Um partido pós-ideológico, como o PAN se afirma, considera que a sua agenda política está para lá da ideologia. Muitos poderão considerar esta minha reflexão, sobre esta declaração de André Silva, uma trivialidade pouco digna de atenção, mas não é. À frente concluirei porquê. Mas deixarei esta questão, por agora, assim: Não há tal coisa como partido pós-ideológico. Deve-se desconfiar de qualquer entidade que se afirme como tal. 
Voltando à ideologia que move o PAN. No plano social é um partido libertário, que integra movimentos LGBT nas suas fileiras e que apresentou uma proposta de lei, na AR, de legalização da eutanásia. No plano filosófico-cultural, é um partido que valoriza a vida das restantes espécies biológicas em igual medida da sua valorização da vida dos seres humanos. É um partido que procura uma maior harmonia entre a vida civilizacional e a vida dos ecossistemas, e que rejeita, veemente, qualquer forma cultural que atente contra a vida de outras espécies, nomeadamente, os espectáculos tauromáquicos. No plano económico, é um partido que, pondo a discrição de forma simples e sucinta, tem fé no Capitalismo Verde. Claro que será injusto classificar o PAN como um partido neoliberal, uma vez que, atrevo-me a dizê-lo, amiúde entra em campos sociais-democratas (não é por acaso que André Silva sentiu necessidade de dizer que o PSD não é social-democrata). Claro que o cavalo de batalha deste partido é a defesa do ambiente e o combate às alterações climáticas, provocadas por largas décadas de poluição mundial, e é um estandarte - juntamente com a defesa dos animais - que aglomera todas as demais causas deste partido, que também entram nos planos concretos da Economia, e que, geralmente, não recebem a devida atenção, nem das pessoas, nem dos Media. Em todo caso, uma particularidade do PAN, quando comparado com outros partidos ambientalistas - e particularidade essa que serve de fissura definitiva entre mim e este partido -, é que o PAN quer fazer frente à Emergência Climática sem fazer frente ao próprio paradigma civilizacional: o Capitalismo. O PAN quer erguer uma sociedade mais protectora do ambiente - criticando, e muito bem, o productivismo/consumismo desenfreado e a economia extractivista - sem mudar as bases económicas e os alicerces do sistema financeiro que regem a nossa sociedade. Eu, assim como outros partidos ambientalistas que se guiam por um programa Eco-Socialista, não acredito que seja possível combater uma coisa sem enfrentar a outra. E é este o argumento que comprova que o PAN não pode ser pós-ideológico.
Quando ao que se tem passado ao PAN, nos últimos quatro anos, e quanto à pessoa do seu único deputado. A vaga de indignações contra o PAN por parte da Sociedade Civil tem sido vasta e incessante, ora tenha sido por causa das touradas, ora por causa da dieta vegetariana, ora porque os críticos consideram o PAN, sobretudo, um partido animalista (signifique isso o que significar). E não têm sido críticos quaisquer. Figuras tão distintas no país como Miguel Sousa Tavares - que lhes chamou "urbano-depressivos" - e Manuel Alegre - cuja polémica eu tive oportunidade de abordar no meu texto "Cavalgadura Literária" - sentiram necessidade de arremessar farpas ao PAN. Há quem considere que o PAN é um empecilho para várias áreas de interesse económico em Portugal - como a caça ou a agricultura intensiva - e eu até posso perceber porque é que há portugueses que detestam o PAN acima de todas as outras coisas (portugueses, tanto de Direita ou de Esquerda), mas o que eu nem posso entender é como podem comparar o PAN com Totalitarismo e Fascismo. Mudar estilos de vida pelo bem comum do Futuro e pelo bem da Natureza não é nenhuma forma de Pensamento Único ou de extinção da Democracia. Quanto a André Silva não há muito mais a afirmar. É um homem incisivo, determinado, confiante, bom debatedor, altamente informado sobre os temas que envolvem as suas causas estandarte. Mas claro, não é o único membro do PAN digno de menção. Também o recém-eleito eurodeputado Francisco Guerreiro é uma mais valia dentro do partido.
No que concerne ao dia 6 de Outubro, este vai ser um dia de vitória para o PAN. Várias figuras notórias da Nação vieram a público revelar o seu apoio ao jovem partido, umas mais surpreendentes que outras, como exemplo é o Historiador e Professor Catedrático João Paulo Oliveira e Costa. É provável que aumentem o número de deputados para 5 ou 6. O que tem algo de surpreendente, tendo em conta o achincalhamento mediático - e redes sociais também contam - que tiveram de suportar ao longo de quatro anos.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Legislativas 2019: Partido Socialista

Quando sucederam as Eleições Legislativas de 2015 e o PSD triunfou, embora com uma maioria relativa, a Direita não suspeitava que o XX Governo Constitucional fosse durar tão poucas semanas. Esse foi, aliás, o mais curto Governo na História de Portugal, fora as atribulações e convulsões que marcaram a I República, e um ou outro Governo da Monarquia Parlamentar. Também a síntese desta pequena crise política era imprevisível. Acontece que António Costa arranjou forma de fazer históricos acordos parlamentares com o PCP e o BE, tornando-se assim, enquanto Secretário-Geral do PS, Primeiro-Ministro da República. Estes acordos parlamentares, que lhe tornaram possível uma maioria parlamentar que lhe aprovasse quatro Orçamentos de Estado entre 2015 e 2018, ficaram conhecidos como "Geringonça". Ora, o termo, para além de infeliz e estruturalmente incorrecto, tem também um mau nome uma vez que foi Paulo Portas quem o cunhou, na Assembleia da República, em 2015. É estruturalmente incorrecto porque, na verdade, não há Geringonça nenhuma. O que existe são acordos parlamentares bilaterais entre o PS e o PCP, e entre o PS e o BE. Embora o PCP e o BE tenham imensos aspectos de convergência, as divergências entre estes dois partidos de Esquerda são cada vez mais acentuadas, devido a razões que ainda hei-de abordar. Em todo caso, o PS, o PCP e o BE nunca se sentaram os três na mesma mesa, como se o que houvesse na AR fosse uma espécie de maioria absoluta sob forma de triunvirato. E, portanto, se há Governo minoritário do PS, António Costa pode agradecer todos os dias ao PCP e ao BE.
Quanto ao passado histórico deste partido que se afirma socialista. Bem, é precisamente aí que começam e acabam os problemas com este partido. O PS foi fundado por exilados portugueses na Alemanha, resistentes ao Fascismo, entre eles Mário Soares, em 1973. Contudo, as raízes do partido podem recuar ainda mais, a um já esquecido passado marxista. O próprio Soares foi um dia um socialista marxista, a filosofia deixou de o convencer, contudo, e este passou para uma abordagem mais social-democrata do Socialismo, e o mesmo fez o próprio PS. Afirmo que este partido teve sentido no nome só durante a primeira década em que existiu, após isso, como um dia disse Jerónimo de Sousa, "Mário Soares meteu-o na gaveta, António Guterres fechou-o a sete chaves, e José Sócrates fugia dele como o Diabo foge da cruz". É uma excelente forma de resumir o que aconteceu ao Socialismo neste partido. 
O Socialismo baseia-se na: valorização de salários e protecção laboral da Classe Trabalhadora; na possessão, por parte do Estado, dos maiores e mais cruciais sectores da Economia; na Justiça Fiscal; na não subordinação a sistemas neoliberais externos ao Estado-Nação; na promoção da liberdade social, independentemente de qualquer dogma moral ou religioso. Nos tempos actuais, depois da ideologia ter sido complementada pelo surgir do Marxismo, durante o Século XIX, o fim do Socialismo é - através da justa redistribuição da Riqueza do Estado - o estandarte da Classe Trabalhadora na Luta de Classes. Claro que, desde aqui, o Socialismo pode ser encarado de diferentes formatos, especialmente no que à práxis concerne. Há Socialismos mais conservadores ou mais libertários, tal como os há mais ou menos agnósticos, ou mais autoritários ou mais democráticos, e escusado será dizer que, dentro do próprio Socialismo, as cisões e contendas entre socialistas foram e são imensas. O problema com o PS - assim como é problema do PSOE, de Espanha - é que negligenciou toda e qualquer forma de Socialismo, preferindo antes desviar-se para uma Social Democracia muito pouco convincente (mais uma espécie de Liberalismo centrista) na fase de Mário Soares, ou, muito pior, fazer um desvio para o Neoliberalismo quando o falso-socialista Sócrates tomou o Governo. 
Claro que devemos à acção executiva do Governo de Soares um Serviço Nacional de Saúde (e isso é dizer muito), mas só isso não chega para um partido que se diz socialista com mais de 40 anos. E claro que me podem acusar de falta de intelectualidade por eu pôr o Sócrates na gaveta neoliberal, no final de contas ele promoveu imenso investimento estatal. Mas eu devolvo da seguinte forma: E as parcerias público-privadas (introduzidas por Cavaco) de que Sócrates gostava muito? E o que estava preparado no PEC IV? É verdade que o PS - ou uma parte dele - sempre procurou estar na vanguarda da promoção das liberdades sociais, e também é verdade que o PS sempre salvaguardou a laicização do Estado, mas não chega. Sendo só estas as convergências reais com a ideologia, fica-se, assim, muito aquém do Socialismo.
Quanto ao que se passou nos últimos quatro anos. Houve aspectos positivos, como exemplo é: a tímida subida do salário mínimo; a redução de impostos directos - mas acréscimo dos indirectos que, dadas as circunstâncias em que foram implementados, no tabaco, nas bebidas açucaradas e nos combustíveis fósseis, têm sentido -; e a balança orçamental do Estado atingir um superavit, dando margem para a Dívida Pública ser abatida (apesar desse superavit ter sido atingido graças a baixos investimentos estatais, mantendo a Saúde e a Educação em estado de grande necessidade como quase sempre teve neste país). Mas, apesar disto, na essência, os problemas estruturais de Portugal, cuja Constituição da República prometeu resolver em 1976, após a queda do Regime Fascista, continuam por resolver. Nem se quer uma progressão para uma Social Democracia - onde os salários da Classe Trabalhadora têm dignidade, onde a Saúde e a Educação são um direito e não um privilégio, onde há disciplina nos órgãos da República, onde o Estado têm uma intervenção vigilante no sistema económico e financeiro - foi feita. Bem que pode ter havido uma convergência histórica, na AR, entre o PS e dois partidos de Esquerda, mas o passo que se deu continua a ser modesto, se queremos atingir uma sociedade mais justa.
Em última análise, a pessoa do Primeiro-Ministro de Portugal. António Costa, na AR, foi dos melhores debatedores em quem eu tenho posto os olhos em cima, nos últimos tempos. É um homem dotado de grande inteligência, com grandes capacidades de negociação, e claro, tem um lado muito manhoso e, por vezes, hipócrita. As ofensivas que ele, enquanto Chefe do Governo, protagonizou, contra os professores e os motoristas em manifestação e greve, que clamavam por melhores salários e condições laborais, foi algo bastante lamentável de se ver. Para mim, o ponto mais baixo foi mesmo quando, após uma primeira situação em que o Parlamento aprovou a contagem total do tempo de serviço dos professores, Costa ameaçou demitir-se, tentando fazer um pouco de chantagem política. Bem, na altura, deu resultado porque a Direita, curiosamente, voltou atrás. Claro que, quanto a mim, a requisição civil decretada durante a greve dos motoristas de matérias perigosas foi um boicote à greve e uma autêntica anedota nacional, e também representou uma situação lamentável protagonizada por António Costa. Indivíduo inteligente mas altamente manhoso.
O que espera o PS nas Eleições de 6 de Outubro é também bastante claro. Um resultado próximo da maioria absoluta, necessitando só de um único partido para ter um acordo parlamentar que dure mais quatro anos.

sábado, 21 de setembro de 2019

Legislativas 2019: Partido Social Democrata

De entre todos os partidos que concorrem às Eleições Legislativas deste ano, duvido que haja partido, cujo nome traga mais confusões ao eleitorado ideologicamente informado, do que o PSD. No seu passado fundador, logo após o 25 de Abril, fundação essa liderada por Francisco Sá Carneiro, o nome era Partido Popular Democrático (PPD). As bases ideológicas do partido eram, essencialmente, moldadas segundo o pensamento político de Sá Carneiro - base socioeconómica fiel à Social Democracia histórica, e base filosófico-cultural fiel ao humanismo cristão. Na verdade, Sá Carneiro era uma figura central, de tal forma carismática, na imagem do partido - por consequência da sua oposição ao Regime Fascista, da sua destreza política, e da sua vasta intelectualidade - que muitos só se tornaram militantes do PPD por causa daquele ser o partido de Sá Carneiro. Rui Rio, o actual Presidente do PSD, é um dos que afirma tal coisa, e confesso que não o posso criticar de forma alguma, nesse aspecto. Durante o tempo que Sá Carneiro foi Primeiro-Ministro de Portugal (1980), após ter ganho as eleições em coligação com partidos de Direita (CDS e o Partido Popular Monárquico), houve não só uma abertura para discussões sociais que até então eram tabu na sociedade portuguesa - como a legalização da homossexualidade, que se concretizou eventualmente em 1982, com a revisão do Código Civil - mas houve também um grande reforço no Estado Social, apoio ao estabelecimento dum Serviço Nacional de Saúde (fundado nesse ano, antes das eleições), considerável investimento público, e reformas agrárias no Alentejo que, embora haja quem isto conteste, se poderão considerar de Esquerda. Devo assinalar que este Governo foi também o primeiro em Portugal a ter uma consciência ecológica e ambiental, por influência, talvez, do Engenheiro Gonçalo Ribeiro Telles, que era, então, o líder do PPM.
Sinto também que, antes de avançar para tempos mais actuais, devo fazer uma menção à questão da relação entre o Socialismo e a Social Democracia do PPD. Graças às Fontes Historiográficas, é inegável que Socialismo fazia parte do léxico do PPD e do seu Presidente. Não um Socialismo como eu o defendo, possivelmente. Há muitas interpretações para o caminho socialista, umas mais retrógradas que outras. O Socialismo, como conceito presente no glossário da Social Democracia clássica, representa uma ferramenta para anular as feridas causadas pelo Sistema Capitalista, através de uma grande intervenção do Estado na Economia, por vias reformistas e não revolucionárias, de modo a criar uma sociedade mais justa e igualitária. O PPD e Sá Carneiro regiam-se por isto de tal forma que José Miguel Júdice acusou o CDS, de Freitas do Amaral, de se estar a desviar à Esquerda. Aliás, Júdice, que para mal da sociedade tem tido tempo de antena exclusivo durante 40 anos, até aos dias de hoje, discorda completamente de mim quanto ao relação que existe entre o Socialismo e o PPD... ou eu é que discordo dele. No seu livro, escrito dois anos após a morte de Sá Carneiro, "O Pensamento Político de Sá Carneiro e outros Estudos", ele afirma não só que a Social Democracia clássica tem como objectivo guiar o modelo a um "Liberalismo avançado", como também afirma que a única razão que levou o PPD, nos seus primeiros anos, a usar o termo Socialismo foi por mera conveniência política. Afirma ele que a situação eleitoral se vivia de tal forma que era impossível um partido ter sucesso eleitoral sem ter Socialismo no glossário. A isto eu chamo manipulação da verdade e revisionismo histórico. As práticas e a História falarão sempre mais alto. De qualquer dos casos, um dia destes ocuparei o meu tempo a dedicar um texto à pessoa do José Miguel Júdice.
Na essência Sá Carneiro está entre os últimos dos sociais democratas neste país. Um cristão que não era dogmático - aliás, os seus planos de divórcio e algumas das suas visões progressistas trouxeram-lhe achincalhamento político e problemas com a Igreja Católica - e um defensor do Estado Social com uma mentalidade personalista. Mas, como julgo que devia ser do conhecimento geral, há um PSD da era social democrata, e um PSD pós-Sá Carneiro.
Após a morte prematura e estranha de Sá Carneiro - tragédia essa (Caso Camarate) à qual dedicarei um texto em Dezembro do próximo ano - demorou apenas 5 anos que o partido fosse absolutamente sequestrado pelo Conservadorismo Social e pelo Neoliberalismo económico. Alguns dos autores desse sequestro são precisamente José Miguel Júdice e Aníbal Cavaco Silva. O pior é que não foi só o partido que foi sequestrado, o eleitorado do partido veio a reboque. Poucos debandaram, mas muitos, cegos ao facto de que o PSD só já mantinha a Social Democracia no nome, mantiveram-se nas fileiras. Reitero que não foi necessário André Silva e Catarina Martins - duas pessoas pelas quais tenho grande respeito - dizerem que o PSD já não respeita a ideologia que o fundou. Eu já cheguei a essa conclusão há anos, modéstia à parte.
Muita da História política recente da República Portuguesa, pelos piores motivos, afunila num nome: Cavaco Silva. Os 10 anos de Cavaquistão (1985-1995) marcaram Portugal com uma política gémea à Administração de Ronald Reagan e ao Gabinete de Margaret Thatcher, baseada em: privatizações de sectores da sociedade, e do Estado, importantíssimos; intentonas contra as forças sindicais e a Classe Trabalhadora; disseminação dum Catolicismo dogmático (devo lembrar que foi o Governo de Cavaco que impediu que o livro " O Evangelho Segundo Jesus Cristo", de José Saramago, ganhasse um Prémio Europeu), aliado ao Pensamento Único e Acrítico; esbanjamento de fundos importantíssimos que deveriam ter sido canalizados na Educação e na Saúde, e que acabaram por cair em obras desprovidas de sentido - como a construção de três auto-estradas entre Lisboa e Porto -, entre outras maleitas que o Professor Cavaco nos legou. A História do PSD que a seguir se seguiu é um espelho deste sequestro. Uma sequência de líderes seguiram a Cavaco Silva, como Durão Barroso, Santana Lopes e Pedro Passos Coelho, que nada mais fizeram que seguir as passadas do padrinho da investida neoliberal nesta República.
Mas abordemos então o caso actual, sobre a liderança de Rui Rio. No meu ponto de vista, o estilo retórico e, se quisermos, estético, de Rui Rio, é em muito diferente daquilo que têm sido os líderes do PSD dos últimos anos. Talvez por influência da sua veia nortenha (curioso que Sá Carneiro também era natural do Porto), Rio tem uma forma de actuar consideravelmente genuína e honesta, não estando preocupado em ter uma rígida e imutável figura de Estado. Talvez, por consequência da sua franqueza, e também das suas claras críticas à comunicação social, Rio tem coleccionado grande animosidade por parte dos Media, que não têm prestado grande credibilidade a Rui Rio. Vale a pena afirmar que Rio tem experiência política, não só como ex-deputado - cargo no qual ele não tem interesse, como já afirmou - mas também como Presidente da Câmara Municipal do Porto. Rio, aliás, tem a característica interessantíssima de reunir mais opositores propriamente ditos, junto dos barões do partido dele, do que com os seus adversários extra-partidários. Há quem diga que é o lobby de Lisboa, há quem diga que são os sinais do cataclismo no PSD. Eu confesso que, numa altura, tive esperança que o Rio desviasse o PSD para a Social Democracia. Quando foi a última vez que um Presidente do PSD disse, afinal, que o partido não era de Direita? Sá Carneiro, precisamente! Mas foi, confesso, uma esperança altamente ingénua. No máximo, talvez, haja um afastamento do jugo do CDS, mas por outro lado algo me diz que a actual presidência no PSD não vai ser longa. Eu não sou fã do Rio, mas não tenho animosidade por ele, como tenho para com Passos Coelho, Paulo Portas ou, sei lá, Marques Mendes. Diria até que gosto mais de Rui Rio do que do Presidente da República (um barão rebelde do PSD que já há muito me tirou do sério). Mas o programa do PSD continua assente nas premissas que têm orientado o partido nos últimos 30 anos, e a Social Democracia continua em diáspora neste país, dispersa por vários cidadãos, instituições e partidos mais pequenos que o PSD.
O resultado do PSD? Vai ser dramático, trágico, como nada que alguma vez tenha acontecido. O resultado que o PSD terá nestas eleições reforçará em níveis gigantescos o PS e abrirá, num futuro próximo - quem sabe - caminho para formas mais vincadas e conservadoras de Direita.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Legislativas 2019: Centro Democrático e Social/Partido Popular

Introdução a este endeavour: Antes de me atirar de cabeça à tarefa que me aguarda no resto do mês - depois de um mês de hiato, dedicado à reflexão, ao divertimento e à leitura -, e que terminará antes de 6 de Outubro, tarefa essa que consiste em correr os partidos da Assembleia da República, duma ponta à outra, fazendo uma pequena (espero eu) análise histórica e actual de cada um desses partidos, notifico que nenhum destes textos procura o máximo rigor politológico, nem procura escamotear as minhas convicções ideológicas no quadro da interessantíssima política portuguesa. Não obstante a parcialidade (imparcialidade é uma utopia) destes textos (e julgo eu que, quem me bem conhece, sabe o quanto isto é óbvio), este será um trabalho que terá sempre em conta os factos. Com isto também não estou a dizer que cada frase escrita seja um facto incontornável, vamos ter calma, nem perto. A ordem cronológica dos textos será apresentada num estilo idêntico àquele que eu usava, quando era muito mais novo, à refeição, durante o prato principal: começava por aquilo que gostava menos e terminava naquilo que gostava mais. Aplicando este método avançadíssimo, deixo a Esquerda para o fim. Aviso também que, num momento ou outro, não prometo que estes textos não sejam indigestos para determinados leitores, da mesma forma que acho indigesto ouvir o José Miguel Júdice à hora do jantar. Vamos a isto!

Francamente, é um nome muito pouco interessante ou esclarecedor para se dar a um partido. Será que é essa a intenção? Nada no nome do partido sugere o espectro político ou a orientação ideológica do mesmo, algo que sempre achei altamente irritante em certos movimentos políticos. Mais, o nome deste partido, CDS, mente, mas mente mal. Alega ser do Centro quando os seus militantes e eleitores querem estar o mais longe dessa zona do Espectro, e claro, é senso comum saber-se que o CDS é de Direita. É, aliás, o partido mais direitista na Assembleia da República. Do ponto de vista económico é um partido que procura o formato mais Liberal possível dum Sistema Capitalista, sendo um acérrimo defensor do mundo das Corporações económicas, e por conseguinte, da privatização da Economia. É partido que, apesar daquilo que pode alegar hoje em dia, nunca esteve minimamente preocupado com as questões ecológicas e ambientais. Do ponto de vista social, é um partido claramente conservador com um passado - recuando ao século XX - de intolerância a ateus e homossexuais, por exemplo. O campo social conservador do CDS está assente nos valores da tradicionalista família. No campo cultural e filosófico, é um partido totalmente imbuído no Catolicismo e tudo o que tal significa, com algumas amenizações ideologicamente instauradas com a vinda do século XXI, mas não muitas. Sejamos francos, já começava a parecer mal um partido do status quo defender certas excentricidades de pensamento, mas ainda têm um longo caminho a percorrer. O cavalo de batalha continua galgando contra o "perigo" da autodeterminação da identidade de género, o aborto, e a eutanásia, ou como tal deputada idiota deste partido disse em tempos no Parlamento, "homicídio a pedido". Colocando tudo isto numa concha, o guia ideológico do CDS é a Doutrina Social da Igreja, trazida, primeiramente, pela encíclica Rerum novarum publicada em 1891 pelo Papa Leão XIII, que, para além de estabelecer as bases que iriam determinar as frentes de batalha da Igreja Católica nos tempos modernos - oposição ao Liberalismo, ao Feminismo, ao Socialismo, ao Comunismo, à Social-Democracia, ao Modernismo, ao Hedonismo, à Contra-cultura - tenta sugerir que é uma encíclica anti-capitalista. Claro que hoje sabemos que isso é mentira. Claro que hoje sabemos que o CDS, em pleno direito, é um partido pró-capitalista. Como dizia um cartaz que vi na altura das Eleições Europeias, com a cara do Nuno Melo: "Aproveitar bem o dinheiro da Europa".
A história eleitoral do CDS na Assembleia da República é irregular, tendo tido baixos e altos, e tendo, inclusive, constituído governos de coligação. Teve dois líderes, bastante relevantes na História Política portuguesa recente, e que, creio, tinham a característica comum de darem o dito por não dito. Falo com certeza de Freitas do Amaral e de Paulo Portas. Quem pode esquecer as declarações de Freitas, durante as Presidenciais de 1986, em que afirmava que não era de Esquerda ou Direita?! Houve gente que foi nessa cantiga, daí os 48%. Também ninguém pode esquecer o episódio irrevogável de Paulo Portas, em que no XIX Governo, saiu pela porta das traseiras, deixando a pasta dos Negócios Estrangeiros (a cheirar a submarino trafulha, possivelmente), e entrou pela porta grande - apesar de tal coisa ter sido dada como irrevogável pelo próprio - como Vice-Primeiro Ministro. Voltando aos Governos de Coligação, o mais recente foi com o PSD no XIX Governo Constitucional, entre 2011 e 2015. (Sim, estou a omitir o que veio a seguir, mas o que interessa, nem tiveram tempo de desfazer as malas. O XX Governo terminou num instante, e havia um Ministro da Administração Interna que metia medo ao susto chamado João Calvão da Silva). No que a sondagens concerne, há 4 meses que não há uma firma de sondagens que dê mais de 7% ao CDS, e uma vez que o PSD de Rui Rio não tem a mais ténue vontade de, por enquanto, fazer acordos formais com o CDS, quer-me parecer que a coisa vai ficar por aqui. Quanto ao eleitorado regular do CDS, este é constituído, essencialmente, por cidadãos com pequenos ou grandes terrenos agrícolas, cidadãos altamente católicos e conservadores, quer seja de classe burguesa ou trabalhadora, cidadãos um pouco saudosistas dum Portugal mais virado para o 24 de Abril, ou então por cidadãos, que na contenda entre o Estado da República e as Grandes Empresas, no Campo de Batalha da Economia e Finança, torcem pelo Big Business e pelo Mercado sem lei.
Abordando a cara do partido nestas eleições, esta pertence a uma senhora, advogada de profissão e doutorada de formação, ex-Ministra da Agricultura e do Mar, denominada Assunção Cristas, que, recentemente, também tentou bater Fernando Medina na corrida à Câmara de Lisboa. Assunção Cristas é a típica figura política da qual esperar algo de extraordinário de nada serve. É uma oradora medíocre, é uma comunicadora aborrecida, é uma debatedora péssima - não durava 10 minutos com o Hitchens - e alguém cujo percurso político é muito pouco admirável, sendo que a sua estadia da citada pasta (em cima) foi, factualmente, curtamente vivida por razões de natalidade. Valerá a pena assinalar alguma hipocrisia que rodeia a figura da Doutora Cristas. Quem pode negar as vastas campanhas do CDS a favor da vastíssima plantação de eucaliptos - uma árvore altamente inflamável, muito plantada, contudo, devido à sua grande rentabilidade no plano do Capital - por esta Nação fora, e que tornou Portugal num autêntico monte de lenha? É neste cenário que Cristas veio, à laia dos Incêndios, criticar a Esquerda devido à excessiva existência de eucaliptos na floresta portuguesa, curioso, todavia, que foi a mesma Assunção Cristas que, aquando da sua estadia ministerial, passou um decreto-lei, em 2013, permitiu a liberalização da plantação do eucalipto. Quanto a mim, são estes actos que dizem muito sobre um governante. Não podia também deixar de fora o momento, há uns dias, num debate promovido na SIC Notícias, quanto questionada sobre o porquê do CDS ter promovido a petição pública contra a lei de protecção de jovens transgénero, e qual sua posição relativamente a tal assunto, Cristas ter, com a maior determinação, evitado responder ou abordar a questão. Por falar em dissimulação...  Assunção in a nutshell!
No presente momento, o CDS detém 18 deputados na Assembleia da República. Ou muito me engano, ou o que acontecerá a este partido católico será: manter, descer um máximo de dois deputados, ou subir um máximo de dois deputados, devido ao número que poderá recolher dos deputados perdidos pelo PSD (mas esse é o capítulo seguinte). Mas, para o CDS, no dia 6 de Outubro, nada irá mudar muito. Todavia, o que realmente poderá mudar, após estas Legislativas, será uma mudança de liderança, no futuro próximo, dentro do CDS, por uma opção ainda mais desviada à Direita, dirigida pela TEM (Tendência Esperança em Movimento), uma facção altamente desagradável dentro do partido, que, tendo ímpeto, poderá significar o verdadeiro advento da Alt-Right e dum lusitano Tea Party na República Portuguesa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

E querem argumentar que Luta de Classes não existe...

Os círculos e sites, mais subterrâneos, duma Direita que se tenta regenerar e renovar - fazendo precisamente o contrário da renovação, voltando a assumir retóricas já decrépitas -, têm um tipo de argumentação que apela imenso ao medo e ao mito. O medo dos imigrantes. O medo das pessoas de cor diferente. O medo de pessoas que, na hora do sexo, gostam de coisas diferentes daquilo que vem nos textos sagrados. O medo de quem se identifica com a Esquerda. O medo duma sociedade mais liberta e com menos autoridade. O medo da Luta de Classes. E mitos! São tantos! Um dos que foi disseminado com mais sucesso é a teoria do Marxismo Cultural. Um dia destes, será um mito que eu abordarei, e desconstruirei - como outros já fizeram -, neste blog. 
Não só encontramos esta orientação de pensamento nestes círculos e correntes (em Portugal temos uma que me chama a atenção, muito mais que o PNR ou a Nova Ordem Social, que é a Esperança em Movimento, ala recentemente fundada dentro do CDS) como também a encontramos em vários políticos de grande responsabilidade, por esse Mundo fora. A Humanidade, em si, é divisível em muitas características, culturas, formas de interpretar a vida, formas de aplicar a Economia. Em todo o caso, sobre todas essas divisões, que nas melhores hipóteses também podem ser elos de união, há uma grande divisão entre duas partes: a Classe Dominante e a Classe Trabalhadora. Quase nunca podemos escolher a qual pertencemos. Mas podemos escolher apoiar, ideologicamente, uma ou outra. A Luta de Classes, durante boa parte do decorrer do Tempo, não se faz notar. É um conflito silencioso. Os tempos que vivemos são exemplo dessa mesma fase silenciosa. Possivelmente, chegaremos ao dia em que essa Luta não será silenciosa e será fortemente sentida em todos os lugares do Mundo, como outrora já aconteceu, para que na síntese desse conflito nasça um novo paradigma civilizacional. Mas, se é verdade que o conflito ainda é silencioso e passivo, também é verdade que aqui e ali encontramos uns poucos átomos, desse organismo, a movimentarem-se. Em Portugal há um exemplo que encandeia de tão evidente que é.
Primeiro tivemos um braço de ferro entre Professores e o Governo da República e boa parte da sociedade portuguesa. Agora temos os motoristas de matérias perigosas, em exigência de melhores condições no seu trabalho e de melhores salários. Quanto a mim, parece-me que é algo que qualquer trabalhador deve fazer. Bater à porta dos patrões e exigir-lhes condições laborais bem melhores. O sindicato em questão convocou uma greve, e esta tem estado a decorrer. Coisas como a ANTRAM - que é nada mais que um Sindicato do Patrão - vieram reclamar que as negociações com os sindicatos, que precederam a greve, foram feitas sob pressão e que os desgraçadinhos dos Patrões estavam a ser pressionados. O Governo tentou meter o apito de árbitro na boca, mas depois de certas reivindicações por parte dos patrões dos motoristas, o Governo, dum partido que se diz ser socialista - (gargalhadas) mas que não é - decidiu tomar um papel activo no jogo. O que poderíamos esperar dum governo socialista nesta questão? Que apelasse aos patrões a justiça de atribuírem melhores condições laborais aos seus trabalhadores? Que legislasse nesse sentido? Que, simplesmente, deixasse a greve acontecer, não tomando posição oficial sobre a legitimidade das reivindicações dos motoristas? Algo deste género... requisição civil, nunca! Isso não é próprio dum governo socialista. Governos socialistas não fazem o seguinte: permitir que greves aconteçam, mas assim que ela se torna um estorvo, uma verdadeira dor de cabeça à Classe Dominante, cortam-nas. Quem esmaga e atropela o direito à greve, quando esta é um direito laboral consagrado na Constituição, são os neo-liberais e os conservadores. O Governo de António Costa, accionando o botão de emergência de obrigar um trabalhador a trabalhar, quanto este não reconhece como legítimas as suas condições de trabalho, toma uma atitude autoritária e contrária ao Socialismo.
É legítimo discutir a profundidade legítima destas reivindicações. Eu não o farei por dois motivos. Porque se trata de um confronto laboral no qual há trabalhadores que simplesmente pedem maior justiça na sua remuneração, e porque não entendo ter competências para o fazer, num quadro técnico. Tudo o que eu sei é que sindicatos avisaram que haveria greve, convocaram greve, a greve aconteceu, uma franja da sociedade portuguesa indignou-se com estes trabalhadores que simplesmente fazem o que todos os trabalhadores deveriam fazer - indignou-se só porque a normalidadezinha energética foi temporariamente interrompido em nome da justiça no trabalho - e o Governo interrompeu, por decreto, a greve. Este método autoritário de resolver greves e problemas de trabalho não me agrada. A cartada da requisição civil faz lembrar a "democracia de Salazar", na verdade, Oh Xavier, que exagero, estás a levar esta conversa longe demais. Mas eu creio não estar. Por este andar, cada greve que faça danos ao status quo será contornada com uma simpática requisição civil. Não me convençam que Luta de Classes já não existe. Não me convençam que o mundo ocidental alcançou plena Democracia.
Que a Direita iria apoiar, efectivamente, o Governo nesta jogada, já se sabia mesmo antes de acontecer. É daqueles momentos clássicos em que o PS se vai sentar no sofá da direita. Mas o Partido Comunista Português? Como é que um partido comunista pode dizer que esta greve tem motivações obscuras? Que dissessem isso doutras greves até compreendia, mas esta? Que raio de bússola é que este partido anda a usar para se guiar ideologicamente? Também a posição do Bloco de Esquerda não foi muito satisfatória, com divisões claras entre aqueles que defendem a posição que aqui tomei e aqueles que piscam mais o olho ao Governo, contudo, ao menos sabemos que no Bloco de Esquerda há liberdade para a discussão pública e interna das questões. Claro que no meio de tanta miséria, possivelmente, a única coisa boa foi o PCP e o BE terem dito o óbvio, afirmando que a requisição civil é um mecanismo que alenta a limitação do direito à greve. 
Terminando, para além da requisição civil, o que mais me entristece é ver tantos trabalhadores portugueses a atacarem verbalmente os motoristas que estão em luta. Aconteceu o mesmo quando os professores protestavam nas ruas. E é esse um dos grandes entraves à conquista de uma sociedade para os muitos, não os poucos: quando são trabalhadores que minam o caminho de outros trabalhadores.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Princípio e Fim da Vida

Em tempos ele atravessava os corredores em passos determinados, fortes, com os pés bem assentes no chão. Antes, ele entrava em casa de forma enérgica, com um sorriso na cara, apesar da áurea circunspecta que, desde que me recordo, era imagem de marca dele. Noutros tempos, eu escutava-o, na sua voz clara, bem audível. Escutava um dos homens mais articulados que me lembro de ter conhecido, com uma eloquência considerável, tendo em conta que, na sua formação, ele nada mais teve além de uma 4ª Classe. Escutava-o, enquanto paginava comigo livros temáticos editados pela Verbo, quer o livro fosse sobre o Egipto Antigo, a China Antiga, os répteis pré-históricos, ou fosse o Atlas do Mundo. Ele escutava-me, eu escutava-o, e íamos falando sobre os temas que viessem. Alguns deles foram a primeira chama para muita coisa que hoje me interessa. Ainda guardo todos esses livros. Não os vendo por fortuna que seja. Só venderia coisas como estes livros para comprar vida, tempo, ou para comprar sanidade mental. Eu escutei-o durante muito tempo. Ele era parte muito presente da minha vida. Hoje só o posso observar, enquanto uma forma definitiva de velhice toma conta dele.
Nos últimos tempos tenho pensado imenso no envelhecimento... e na morte. Mas, francamente, desde sempre que tenho pensado na terminalidade da vida. O processo de envelhecer tem-me surgido na mente como um espectro que está sempre à margem, mas que de quando em vez se mostra, lembrando-me que não se foi embora, que não me abandonou. Por consequência desta presença espectral nos assuntos da minha mente, a minha obsessão com o ideal de juventude tem crescido. Tem crescido a minha vontade de para sempre ser jovem. De acabar no meu leito de morte ainda jovem. Muito provavelmente, quando morrer, não será assim. Terei perdido a minha juventude física, e, quando estiver a envelhecer, a única coisa que me restará para manter a máxima juventude possível será a minha mente. É essencial, quer eu morra aos 30, aos 40, aos 60, que a mente nunca vacile e se mantenha sempre absolutamente sã.
O facto do meu avô, hoje, ser nada mais que uma concha daquilo que em tempos foi tem-me colocado em diálogo com estes pensamentos. Olho para ele, sem articulação, sem força, com a memória a voar da sua mente em velozes asas, com um olhar lasso, e não é propriamente a morte que me preocupa. A morte é um instante, é o fim da linha, e após isso não há mais nada. É como um barco que durante décadas deu aquilo que tinha a dar, e que finalmente chegou ao destino da sua última viagem, para depois ser permanentemente descontinuado. A morte há muito que me deixou de preocupar. Mas o processo de morrer é diferente. Na última entrevista que Christopher Hitchens deu à BBC, já a falecer de cancro (2011), ele também disse que, ao contrário da morte, aquilo que o assustava era o processo de morrer. E olhar para o meu avô - pensando eu que um homem que durante a sua longa vida foi tão ponderado, lúcido, com uma memória colossal, e que agora se vê na injustiça de perder a sua personalidade a passos largos - a chegar às estações decisivas desse comboio que é o Alzheimer, ou olhar para um lar, enraíza-me um pensamento: Antes viver 60 anos com a minha mente intacta, do que viver 80 e nos últimos 10 anos já não ser eu de todo. Bem sei que há quem vive 90 anos, sempre em perfeita sanidade mental, mas as perspectivas de no futuro perder a juventude é das coisas que mais me preocupa, no que a mim próprio concerne. 

Apraz-me saber (tenho a certeza) que este texto vai proporcionar diferentes leituras a quem o ler.